Estrutura e Revolução 

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Estrutura e Revolução foram dois termos corretamente colocados no título do livro A Estrutura das Revoluções Científicas. Thomas Kuhn pensava não só que há revoluções científicas, mas também que elas têm uma estrutura. Ele explicou essa estrutura com grande cuidado, atribuindo um nome útil a cada nó da estrutura.

Ele tinha o dom do aforismo. Suas denominações adquiriram um status excepcional, pois embora fossem algumas vezes enigmáticas, parte delas pertence hoje ao inglês coloquial. Eis a sequência:

  1. ciência normal (caps. 2-3, ele não os chamou de capítulos, pois concebia a Estrutura mais como um esboço de livro do que um livro propriamente);
  2. resolução de quebra-cabeças (cap. 3);
  3. paradigma (cap. 4), uma palavra que, quando ele a usou, era não comum, porém que se tornou banal depois de Kuhn (para não mencionar “mudança de paradigma“);
  4. anomalia (cap. 5);
  5. crise (caps. 6-7); e
  6. revolução (cap. 8), estabelecendo um novo paradigma.

Tal é a estrutura das revoluções científicas:

  1. ciência normal com um paradigma e dedicação para solucionar quebra-cabeças;
  2. seguida de sérias anomalias, que conduzem para uma crise; e
  3. finalmente resolução da crise por meio de um novo paradigma.

Outra palavra famosa que não aparece nos títulos dos capítulos é incomensurabilidade. Essa é a ideia de que, no curso de uma revolução e da mudança de paradigma, as novas ideias e asserções não podem ser estritamente comparadas às antigas.

Ainda que as mesmas palavras estejam em uso, seu significado próprio mudou. O que, por seu turno, levou à ideia de que uma nova teoria não é escolhida para substituir uma antiga, por ser verdadeira, mas, sim, bem mais por causa de uma mudança de concepção de mundo (cap. 9).

O livro termina com o desconcertante pensamento de que o progresso na ciência não é uma simples reta que conduz à verdade. Trata-se mais de um progresso a distanciar-se de concepções e de interações menos adequadas do mundo (cap. 12).

Ian Hacking examina uma ideia de cada vez. Obviamente, A Estrutura é toda ela muito nítida. A história, afirma o historiador, não é assim. Mas foi precisamente o instinto de Kuhn como físico que o levou a encontrar uma simples e perspicaz estrutura para todos os fins.

Tratava-se de um quadro da ciência que o leitor comum podia captar. Tinha o mérito de ser em alguma medida testável. Os historiadores das ciências poderiam assim olhar e ver em que extensão mudanças significativas nos campos de suas especialidades estariam, de fato, conformes à estrutura de Kuhn. Infelizmente, ela também foi mal-usada pela onda dos intelectuais céticos que puseram em dúvida a própria ideia de verdade. Kuhn não tinha essa intenção. Ele era um amante dos fatos e um dos que buscavam a verdade.

Quanto à Revolução, primeiro, quando pensamos em revolução, pensamos em termos políticos. A Revolução Americana, a Revolução Francesa, a Revolução Russa. Tudo é subvertido; uma nova ordem mundial se inicia.

O primeiro pensador a estender essa noção de revolução às ciências talvez tenha sido Immanuel Kant. Ele assistiu a duas grandes revoluções intelectuais. Elas não foram mencionadas na primeira edição (1781) de sua obra maior A Crítica da Razão Pura. No prefácio à segunda edição (1787), ele fala numa prosa quase rebuscada de dois eventos revolucionários.

Um deles se refere à transição na prática da Matemática, na qual técnicas familiares na Babilônia e no Egito foram transformadas, na Grécia, em provas a partir de postulados. O segundo foi a emergência do método experimental e de laboratório, uma série de eventos cujo início Kuhn atribui a Galileu. O filósofo alemão repete o termo revolução muitas vezes em apenas dois longos parágrafos.

Pouco antes da publicação de A Estrutura das Revoluções Científicas, Thomas S. Kuhn aventara a ideia de que havia uma “segunda revolução científica”. Esta ocorrera durante os primeiros anos do século XIX; novos campos inteiros foram matematizados.

Calor, luz, eletricidade e magnetismo adquiriram paradigmas, e subitamente uma massa inteira de fenômenos indiscriminados começaram a fazer sentido. Isso coincidiu com – deu-se passo a passo com – o que denominamos de Revolução Industrial. Era indiscutivelmente o início do moderno mundo técnico-científico em que vivemos. Porém, não mais do que a primeira revolução científica, a segunda revolução exibiu a “estrutura” da Estrutura.

Um segundo ponto a notar é que a geração que precedeu Kuhn, a que tão amplamente escreveu sobre a revolução científica do século XVII, crescera em um mundo de revolução radical na Física. A Teoria da Relatividade Restrita (ou Especial) (1905) e depois a Teoria da Relatividade Geral (1916), de Einstein, foram acontecimentos mais perturbadores do que nos é dado conceber.

A relatividade, no começo, teve mais repercussão nas Humanidades e nas Artes do que genuínas consequências testáveis na Física. Sim, houve a famosa expedição de sir Arthur Eddigton para comprovar uma previsão astronômica da teoria, mas foi só posteriormente que a relatividade se tornou parte integral de vários ramos da Física.

Depois ocorreu a revolução quântica, também um caso em duas etapas, com a introdução dos quantum de Max Planck por volta de 1900 e a seguir a plena teoria quântica de 1926-1927, completada com o principio da incerteza de Heisenberg. Combinadas, a Relatividade e a Física Quântica derrubaram não apenas a velha Ciência, mas também os princípios da metafísica.

Kant havia ensinado que o espaço absoluto de Newton e o principio da causalidade uniforme são princípios a priori do pensamento, condições necessárias de como os seres humanos compreendem o mundo no qual vivem. A Física provou que ele estava totalmente equivocado. Causa e efeito seriam mera aparência e a indeterminação estava na raiz da realidade. A revolução estava na ordem do dia científico.

Antes de Kuhn, Karl Popper (1902-1994) foi o mais influente filósofo da ciência. Ian Hacking quer dizer o mais amplamente lido e, em alguma medida, creditado pelos cientistas praticantes. Popper já estava mais velho durante a segunda revolução quântica. Esta lhe ensinou que a ciência procede por conjecturas e refutações, para empregarmos o título de um de seus livros.

A metodologia de cunho moralista que Popper vindicava era exemplificada pela História da Ciência. Primeiro, concebemos conjecturas audaciosas, tão testáveis quanto possíveis, e inevitavelmente verificamos que são insuficientes. Elas são refutadas, e uma nova conjectura que se ajuste aos fatos deverá ser encontrada. Hipóteses podem valer como “científicas” somente se forem refutáveis. Essa visão purista da ciência teria sido impensável antes das grandes revoluções da virada do século.

A ênfase de Kuhn nas revoluções pode ser encarada como o estágio sequente às refutações de Popper. Sua própria versão de como as duas se relacionam está na “Lógica da Descoberta ou Psicologia da Pesquisa”. Os dois homens tomaram a Física como seu protótipo para todas as ciências e formaram as suas ideias a partir das decorrências da relatividade e da teoria dos quanta.

As ciências, hoje em dia, têm outro aspecto. Em 2009, o 150º aniversário de “A Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural” de Darwin foi celebrado em grande estilo. Com toda aquela profusão de livros, shows e festivais, Ian Hacking suspeita que muitos de seus leitores ou espectadores, se perguntados sobre qual a obra científica mais revolucionária de todos os tempos, teriam respondido muito razoavelmente que era A Origem das Espécies.

Assim, é surpreendente que a revolução de Darwin jamais seja mencionada na Estrutura. A seleção natural entra com destaque só nas páginas 275 e 276, porém apenas para servir como analogia ao desenvolvimento científico. Mas agora que as Ciências da Vida substituíram a Física como carro-chefe, temos de indagar em que medida a revolução de Darwin se adequa ao padrão de Kuhn.

Uma observação final: o uso corrente da palavra revolução vai muito além daquilo que Kuhn tinha em mente. Não se trata de uma crítica, nem a Kuhn, nem ao público em geral. Significa tão somente que se deve ler Kuhn atentamente e prestar atenção àquilo que efetivamente ele diz.

Hoje em dia, o termo revolução é quase uma palavra elogiosa. Todo novo refrigerador ou todo novo filme ousado são anunciados como revolucionários. É difícil lembrar que essa palavra foi outrora usada com parcimônia.

Na mídia americana (quase esquecida da Revolução Americana) o vocabulário veiculava mais aversão do que elogio, porque revolucionário significava comuna. Ian Hacking lamenta a recente degradação da palavra “revolução” ao mero clichê, mas é um fato que torna a compreensão de Kuhn um pouco mais difícil.

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