Efeito dos Juros Negativos e da Compra de Títulos na Europa

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Assim como houve no caso da dívida norte-americana, continua a monetização da dívida pública europeia. Troca-se títulos que rendem pouco por “papel-pintado”. É a vantagem de possuir moedas conversíveis, i.é, “ninguém rasga dólar ou euro”…

As taxas de juros e o tamanho e a extensão do programa de compras de ativos na Europa foram mantidos pelo BCE (Banco Central Europeu). O discurso de seu presidente, Mario Draghi, foi quase uma repetição das duas reuniões anteriores, de junho e julho. Isso no que tange à disposição em “fazer mais se necessário” (em termos de ações concretas) e manter o programa de compras até março de 2017 ou além. O euro disparou e as bolsas de valores caíram, já que Draghi disse que não houve sequer discussão sobre mudanças no desenho do “QE”, como se esperava.

Analistas de forma geral sabiam que depois da bazuca disparada em março de 2016 seria natural que se esperasse por resultados. Naquela ocasião, o BCE reduziu a taxa de referência de 0,05% para zero, a taxa de empréstimos de 0,30% para 0,25% e a taxa de depósitos de -0,30% para -0,40%. Passou-se a pagar para depositar dinheiro em banco!

Além disso, aumentou o volume de aquisições de ativos para sua carteira, de € 60 bilhões para € 80 bilhões em média por mês. Também incluiu compras de bônus corporativos em euros com grau de investimento e anunciou quatro operações de refinanciamento de longo prazo direcionadas aos bancos (TLTRO). Está longe de ser pouca coisa. O problema é se notar os efeitos.

Na opinião de Roberta Costa (Valor, 09/09/16), “as pressões dos preços permanecem extremamente fracas na zona do euro, o que revela a dificuldade do BCE em cumprir a meta de inflação de médio prazo (próxima a 2%). Na revisão das projeções , o CPI (índice de preços ao consumidor) harmonizado da região subirá apenas 0,2% neste ano e 1,6% em 2017.

O crescimento continua se dando a taxas trimestrais muito lentas (algo como 0,3% ou menos). Para 2016, o PIB deve crescer 1,7% e, nos dois anos seguintes, 1,6%. Entretanto, a valorização do euro diante do dólar pode representar uma ameaça adicional às perspectivas de crescimento.”

O crédito deu sim sinais de revitalização. Pesquisa feita junto aos bancos pelo BCE (Bank Lending Survey) mostra que no segundo trimestre houve uma melhora nas condições de oferta de empréstimos para empresas e famílias, bem como um aumento contínuo da demanda para todas as categorias.

James Mackintosh (WSJ, 09/09/16) aponta que o coro de descontentamento com o Banco Central Europeu está crescendo. Poupadores alemães, investidores em títulos de dívida, bancos e um crescente número de economistas estão se queixando que os juros negativos têm elevado a poupança e não têm feito nada pelos investimentos corporativos, ao mesmo tempo em que estão destruindo os planos de aposentadoria.

O BCE deve ignorá-los por um tempo.

  • Sim, os poupadores alemães estão perdendo.
  • Sim, as margens de lucro dos bancos diminuem quando as taxas são negativas.
  • Sim, todo mundo que quer um plano de aposentadoria privada decente terá que poupar muito mais.

Mas os ganhadores com os juros mais baixos estão fazendo o que deveriam ao ir atrás de mais financiamentos. E parece que isso está silenciosamente ajudando a economia.

Considere apenas alguns pontos. O desemprego na zona do euro em agosto de 2016 recuou para o nível em que estava em novembro de 1998, dois meses antes da criação do euro. Os 7,5 milhões de empregos criados na zona do euro desde o início de 2014, o ano em que o BCE passou a adotar juros negativos, supera os 6,3 milhões criados nos Estados Unidos, que possui uma população mais ou menos similar, até o primeiro trimestre do ano (o dado mais recente disponível na Europa). A geração de empregos coincidiu com o retorno dos pedidos de empréstimos das empresas e, em menor extensão, das famílias, diante da queda dos juros cobrados nessas operações.

E está ficando melhor. Nos últimos três trimestres, a economia da zona do euro cresceu mais rápido que a dos EUA. A formação bruta de capital fixo na zona do euro, medida de investimento geral antes da depreciação, tem crescido ano a ano desde o fim de 2013. Embora ele tenha ficado estável no segundo trimestre ante o primeiro na zona do euro, desempenho que decepcionou, nos EUA ele caiu.

Obviamente, tudo isso é economia: causalidade e correlação são quase sempre impossíveis de separar, e ninguém sabe o que podia ter acontecido se os juros não tivessem ficado negativos.

Certamente, quando os 25 membros do conselho do BCE decidiram, no dia 08/09/16, manter os juros estáveis, eles não celebraram vitória. O crescimento permanece lento, a inflação está abaixo de 1% mesmo com a exclusão dos preços do petróleo, o desemprego ainda está acima de 10%, o cenário é sombrio e milhares de eleitores insatisfeitos estão migrando para partidos populistas.

Crescer um pouco mais rápido do que os EUA quando a taxa de desemprego americana está perto da metade da europeia não é uma maravilha – mas na economia esclerosada da Europa, isso pode ser algo fora do alcance do BCE.

Os defensores da política de juros baixos argumentarão que sinais de crescimento fraco e preocupações com a Brexit, a decisão do Reino Unido de sair da União Europeia, são motivos para mais ação. Os mercados acreditam que o BCE deixará os juros ainda mais negativos. Embora a reunião desta semana não tenha gerado uma nova redução dos juros, o mercado prevê que ela ocorra em meados de 2017, conforme refletem os preços dos ativos, segundo o Barclays. Como resultado, os títulos de dívida alemães de dois anos estão sendo negociados a uma rentabilidade 0,25 ponto percentual abaixo da taxa de -0,4% do BCE.

Há boas razões políticas e financeiras para não cortar as taxas ainda mais. Embora os críticos dos juros negativos tenham sido excessivamente estridentes, essas taxas equivalem a impostos para os bancos. Mais demanda por empréstimos pode compensar a menor lucratividade com maiores volumes até um certo limite. Então, taxas negativas demais poderiam ameaçar a estabilidade financeira.

Politicamente, os juros negativos são ainda mais tóxicos. A Alemanha é hoje tanto o maior poupador da Europa como sua voz mais forte, e os juros negativos são detestados por lá. A responsabilidade do BCE é para a zona do euro como um todo, então ele não tem como agradar a Alemanha.

Mas quando novas reduções nos juros seriam apenas marginalmente úteis para a economia da zona do euro, na melhor das hipóteses, há poucos motivos para piorar o relacionamento ainda mais. Mario Draghi, o presidente do BCE, se tornará ainda mais impopular no país se ele estender e renovar o programa de recompra de títulos, como muitos investidores e economistas esperam.

Nada disso significa que mais trabalho não seja necessário. Mas o BCE está certo que para acelerar o crescimento, a Europa precisa de reformas e ajuda da política fiscal, não apenas ações monetárias.

O desemprego estrutural da Europa continental é surpreendente, com a taxa de desemprego acima de 7% tanto no auge da bolha da internet como em 2007; embora a Espanha e a Itália tenham feito progressos na reforma trabalhista, há muito mais a fazer na região.

Enquanto isso, os atuais desequilíbrios nas contas correntes entre os países da zona do euro só podem ser ajustados com um maior consumo dos alemães. Como diz o ministro das Finanças da Holanda, Jeroen Dijsselbloem, líder do grupo de ministros das Finanças da zona do euro, a Alemanha precisa gastar mais em sua infraestrutura e educação decadentes.

Há também muita margem para subir os salários mais rapidamente na Alemanha, mesmo com o aumento dos gastos públicos decorrentes de certa forma dos custos da imigração em massa. Os alemães não gostam, mas se o país passar um pouco mais rapidamente de poupador para gastador, a demanda cresceria mais rápido por toda a zona do euro e os juros poderiam subir antes do esperado.

2 thoughts on “Efeito dos Juros Negativos e da Compra de Títulos na Europa

  1. Professor, boa noite.

    Eu não conheço a situação da concentração de renda da Alemanha, mas é correto admitir que quem mais se incomoda com a situação dos juros mais baixos seria a elite do país europeu? Pergunto porque sigo a mesma suposição do Brasil: não vejo nossos juros diminuindo por servir como “alavanca de renda” pros mais ricos.
    Suponho, inclusive, que se tivéssemos juros reduzidos, o crescimento da atividade bancária/comercial/produtiva iria reduzir o índice de desemprego no Brasil. Espero estar pensando da maneira correta.

    Adorei o artigo.

    Grande abraço.

    1. Prezado Renan,
      sua avaliação está correta. A disparidade do juros brasileiros face ao internacional se deve ao Banco Central do Brasil não ter um teto para seu livre-arbítrio representado pela taxa de desemprego.

      Sem ônus para suas reputações profissionais, antes pelo contrário, os diretores se dedicam a simplesmente manter esse descalabro, ganhando pessoalmente renda do capital financeiro e extraindo renda do trabalho na medida que provoca desemprego. Dado esse conflito de interesses — se beneficiarem da própria decisão –, eticamente, deveriam se declarar impedidos de tomar tal decisão!

      Baixar a taxa de inflação para o centro-da-meta (4,5% aa) é uma desculpa esfarrapada. Os desempregados se importam em obter um pequeno ganho de poder aquisitivo real se nem salário mais recebem?!
      Abraço

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