Paradigma

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Segundo o ensaio de Ian Hacking, que se tornou a introdução ao livro A Estrutura das Revoluções Científicas (12. ed. São Paulo: Perspectiva, 2013 – original de 1962) o paradigma é um conceito requer especial atenção. Há duas razões para tanto.

Em primeiro lugar, Kuhn mudou por conta própria o valor corrente da palavra paradigma de modo que um novo leitor pode atribuir conotações muito diferentes ao vocabulário em relação às disponíveis ao autor em 1962.

Em segundo, como o próprio Kuhn declarou claramente em seu pós-escrito: “O paradigma, enquanto exemplo compartilhado, é o aspecto central daquilo que atualmente me parece ser o elemento mais novo e menos compreendido deste livro” (p. 296). Na mesma página, sugere o termo exemplo como um substituto de paradigma.

Em outro ensaio escrito pouco tempo antes do pós-escrito, admitiu ter “perdido o controle do vocábulo”. No correr da vida, ele o abandonou. Mas nós, os leitores da Estrutura, cinquenta anos após a sua publicação, e depois que um bocado de poeira se assentou, Ian Hacking espera, podemos restaurá-la felizmente à proeminência.

Tão logo o livro foi publicado, seus leitores queixaram-se do fato de a palavra ter sido usada em um número demasiado grande de modos. Atualmente paradigma, acompanhado do termo mudança de paradigma, é um conceito em toda parte embaraçoso. Quando Kuhn escreveu, pouca gente se deparara alguma vez com ele. Logo ele se tornou moda.

Alguns filósofos britânicos em 1957, creio, inventaram um assim chamado argumento de caso paradigmático, que felizmente teve vida curta. Ele foi muito discutido, pois parecia ser um argumento novo e geral contra as várias espécies de ceticismo filosófico. Eis uma bela paródia da ideia: você não pode pretender que nós carecemos de livre-arbítrio (por exemplo), porque devemos aprender o uso da expressão “livre-arbítrio” a partir de exemplos, e eles são os paradigmas. Uma vez que aprendemos essa expressão a partir dos paradigmas, os quais existem, o livre-arbítrio existe. De modo que, precisamente na época em que Kuhn escrevia a Estrutura, a palavra paradigma encontrava-se em grande circulação nessa atmosfera especializada.

A palavra estava lá para ser usada, e usada ela foi.

Você encontrará a palavra introduzida na página 72, no início do cap. 1, intitulado “A Rota Para a Ciência Normal”. A ciência normal baseia-se em realizações científicas anteriores, reconhecidas por alguma comunidade científica. No “Second Thoughs on Paradigms”, de 1974, Kuhn tornou a enfatizar que a palavra paradigma entrou no livro de mãos dadas com a comunidade científica. As realizações serviram como exemplos exemplares do que fazer, do tipo de questões a elaborar, de aplicações bem-sucedidas, e de “observações e experimentos exemplares”.

Na página 71, os exemplos de conquistas aparecem em escala heroica, tipo Newton e similares. Kuhn passou a se interessar crescentemente por eventos de menor escopo, concernentes a pequenas comunidades de pesquisadores.

comunidades científicas muito grandes – de Genética ou de Física da matéria condensada (estado sólido), por exemplo. Mas, dentro delas, existem grupos menores, bem menores, de modo que no fim a análise deveria aplicar-se a “comunidades de talvez uma centena de membros e, algumas vezes, significantemente menores ainda”.

Cada uma terá:

  1. seu próprio grupo de compromissos,
  2. seus próprios modelos de como proceder.

Ademais, as realizações não são exatamente algo de notável. Elas são:

  1. “suficientemente sem precedente para atrair um grupo duradouro de partidários” longe daquilo que estava em andamento; e
  2. possuem questões em aberto com uma profusão de problemas para serem resolvidos pelo “grupo redefinido de praticantes da ciência”.

Kuhn concluía: “Daqui por diante referir-me-ei às realizações que partilham essas duas características como paradigmas” (p. 71-72, grifo nosso.).

Exemplos aceitos de prática científica, incluindo leis, teorias, aplicações, experimento e instrumentação proporcionam os modelos que criam uma tradição coerente e servem de compromissos que compõem a comunidade científica em primeiro lugar.

As poucas sentenças que acabamos de citar estabelecem a ideia fundamental da Estrutura. Paradigmas são integrais para a ciência normal e uma ciência normal, praticada por uma comunidade científica, continua enquanto houver uma profusão de coisas a fazer, problemas abertos que levam à pesquisa utilizando métodos (leis, instrumentos etc.) reconhecidos pela tradição.

Perto do fim da página 32 navegamos em um “mar de almirante”. A ciência normal é caracterizada por um paradigma, que legitima o quebra-cabeça e os problemas sobre os quais a comunidade trabalha.

Tudo vai bem até que os métodos legitimados pelo paradigma não conseguem enfrentar o aglomerado de anomalias; daí resultam e persistem crises até que uma nova realização redirecione a pesquisa e sirva como um novo paradigma. Isto é, um deslocamento de paradigma (no livro você verificará que o texto usa mais amiúde a expressão “mudança de paradigma”, mas o termo deslocamento mostrou ser mais atraente).

Como se constata ao prosseguir na leitura do livro, essa nítida ideia torna-se crescentemente borrada, pois há aí um problema inicial. Analogias naturais e semelhanças podem ser encontradas no interior de quase qualquer grupo de itens; um paradigma não é apenas uma realização, mas também um modo específico de modelar a prática futura sobre ele.

Kuhn admitiu no “Second Thoughts on Paradigms” que ele fora demasiado generoso no emprego do vocábulo paradigma. Assim, distinguiu duas famílias de usos da ideia, uma global e outra local.

  • Os usos locais são vários tipos de exemplo exemplar.
  • O uso global focaliza primeiro a ideia de uma comunidade científica.

Pelo fato de publicar em 1974, ele pôde dizer que o trabalho na Sociologia da Ciência desenvolvido nos anos de 1960 capacita a pessoa a dispor de ferramentas empíricas precisas para distinguir comunidades científicas. Não há questionamento a respeito de o que uma comunidade científica “é”.

A questão é: o que liga seus membros num conjunto e os leva a considerar que trabalham na mesma disciplina? Embora ele não diga assim, essa é a questão sociológica fundamental a ser inquirida acerca de qualquer grupo identificado, grande ou pequeno, seja ele político, religioso, étnico, seja simplesmente um clube de futebol juvenil ou grupo de voluntários que entregam, de bicicleta, refeições para idosos. O que mantém um grupo unido como grupo? O que leva um grupo a dividir-se em seitas ou simplesmente a desfazer-se? Kuhn respondeu em termos de paradigmas.

Quais elementos compartilhados explicam o caráter relativamente não problemático da comunicação profissional e a relativa unanimidade do julgamento profissional? Para essa indagação A Estrutura das Revoluções Científicas patenteia a resposta: “um paradigma” ou um “conjunto de paradigmas”.

Esse é o sentido global da palavra, e ele é constituído por vários tipos de comprometimentos e práticas, entre as quais Kuhn enfatiza generalizações simbólicas, modelos e exemplos.

Tudo isso é sugerido, mas não plenamente desenvolvido na Estrutura. Você pode querer percorrer o livro para verificar como desenvolver a ideia. Poder-se-ia enfatizar o modo pelo qual, quando o paradigma é ameaçado por uma crise, a própria comunidade encontra-se em desordem.

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