Anomalia, Crise e Mudanças de Concepção de Mundo

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O título completo dessa seção é “A Anomalia e a Emergência das Descobertas Científicas”. O capítulo 6 apresenta um título paralelo: “As Crises e a Emergência das Teorias Científicas”. Esses pareamentos singulares são necessários para integrar a explicação de Ciência de Thomas S. Kuhn em “A Estrutura das Revoluções Científicas.”.

A ciência normal não visa à novidade, mas a clarear o status quo. Ela tende a descobrir o que espera descobrir. A descoberta não surge quando algo caminha corretamente, mas quando alguma coisa se desvia; uma inovação que vai contra o que é esperado. Em resumo, o que parece ser uma anomalia.

O “a” em anomalia é o a que significa “não”, como em “amoral” ou “ateísta”. O nome provém da palavra “lei” em grego. Anomalias são contrárias às regularidades do tipo leis, e, de modo mais geral, contrárias às expectativas.

Karl Popper, já convertera a refutação no cerne de sua filosofia. Thomas Kuhn esforçou-se especialmente em dizer que raramente existe algo como simples refutação. Nós temos a tendência de ver o que esperamos, mesmo quando a coisa não está lá. Amiúde leva muito tempo para que uma anomalia seja vista pelo que ela é: algo contrário à ordem estabelecida.

Uma vez entendido, o que antes era mera curiosidade pode transformar-se em uma poderosa evidência para uma teoria. O mesmo é verdade em relação a muitos fenômenos que vão contra a teoria, mas que são apenas postos de lado. Há sempre discrepâncias entre teoria e dados, muitas delas bem grandes. O reconhecimento de algo como sendo uma anomalia significante que deve ser explicada – mais do que uma discrepância que irá se resolver sozinha com o tempo – é, por sua vez, um evento histórico complexo, e não uma simples refutação.

Crise e mudança de teoria caminham, portanto, de mãos dadas. As anomalias tornam-se intratáveis. Nenhum montante de improvisos poderá ajustá-las para caber na ciência estabelecida.

Mas Kuhn é incisivo em afirmar de que isso, em si mesmo, não leva à rejeição de teoria existente. “Decidir rejeitar um paradigma é sempre decidir simultaneamente aceitar outro e o juízo que conduz a essa decisão envolve a comparação de ambos os paradigmas com a natureza, bem como sua comparação mútua” (p. 160).

Uma enunciação ainda mais forte é efetuada na página seguinte: “Rejeitar um paradigma sem simultaneamente substituí-lo por outro é rejeitar a própria ciência”.

Uma crise envolve um período de pesquisa extraordinária, mais do que normal, com uma “proliferação de articulações concorrentes, a disposição de tentar qualquer coisa, a expressão de descontentamento explícito, o recurso à filosofia e ao debate sobre os fundamentos” (p. 176).

Desse fermento surgem novas ideias, novos métodos e, finalmente, uma nova teoria. Kuhn fala no capítulo 8 da necessidade de revoluções científicas. Ele parece sugerir fortemente que sem esse padrão de anomalia – crise e novo paradigma – estaríamos atolados na lama. Simplesmente não conseguiríamos novas teorias.

A inovação, para Kuhn, era marca registrada da ciência; sem revolução a ciência degeneraria. Você pode querer considerar se ele está certo a esse respeito. Será que a maioria das inovações profundas surgidas na historia da ciência provieram de uma revolução com a estrutura da Estrutura?

Talvez todas as inovações reais sejam, no novo linguajar publicitário, “revolucionárias”. A questão é se a Estrutura é um gabarito correto para o entendimento de como elas surgem.

A maioria das pessoas não tem problema com a ideia segundo a qual as visões de mundo de uma comunidade ou de um indivíduo podem mudar com o tempo. No máximo, a gente pode sentir-se infeliz com a excessivamente grandiosa expressão concepção de mundo, derivada do alemão “weltanschauung“, que é ela própria quase uma palavra do inglês.

Por certo, se houver um deslocamento de paradigma, uma revolução de ideias, conhecimento e projetos de pesquisa, a nossa visão da espécie de mundo em que vivemos mudará. O precavido dirá de bom grado que a nossa visão de mundo muda, mas o mundo permanece o mesmo.

Kuhn queria dizer algo mais interessante. Após uma revolução, os cientistas, no campo que foi modificado, trabalham em um mundo diferente. O mais cauteloso entre nós dirá que se trata apenas de uma metáfora.

Falando literalmente, existe apenas um mundo, o mesmo de agora e de tempos passados. Nós podemos alimentar a esperança de um mundo melhor no futuro, porém, em um sentido estrito favorecido pelos filósofos analíticos, ele será o mesmo mundo, melhorado. Na época dos navegadores europeus, os exploradores encontraram o que denominaram Nova França, Nova Inglaterra, Nova Escócia, Nova Guiné e assim por diante; e, sem dúvida, estas não eram a velha França, Inglaterra ou Escócia.

Nós falamos a respeito do velho mundo e do novo mundo no sentido geográfico e cultural, mas quando pensamos acerca do mundo inteiro, de tudo, há apenas um. E, por certo, existem muitos mundos: eu vivo num mundo diferente dos mundinhos fashions!

Claramente tem-se aí muito espaço para confusão se a gente começa a falar sobre diferentes mundos. Pode-se aludir a todo tipo de coisas.

No capítulo 9, intitulado “As Revoluções Como Mudanças de Concepção de Mundo”, Kuhn briga com a metáfora no que Ian Hacking denomina modo de “teste”, não afirmando assim e assim, mas dizendo “podemos querer dizer” assim e assim.

Lendo esse capítulo, torna-se claro o que Kuhn estava buscando. O leitor deve, entretanto, decidir que forma de palavra é apropriada para expressar os pensamentos dele. A máxima “diga o que você quiser, desde que saiba o que está querendo dizer”, parece adequada.

Mas não totalmente; uma pessoa precavida pode concordar que após uma revolução em seu campo, um cientista pode ver o mundo de maneira diferente, ter um sentimento diferente sobre como ele funciona, perceber fenômenos diferentes, ficar intrigado por novas dificuldades e interagir com ele de novos modos.

Kuhn queria dizer mais que isso, mas na página impressa ele ficou preso ao modo de teste, daquilo que se “pode querer dizer”. Ele nunca afirmou, na fria página impressa que, após Lavoisier (1743-1794), os químicos viveram em um mundo diferente e em outro ainda mais diferente depois de Dalton (1766-1844).

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