Incomensurabilidade

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Nunca se fez uma “tempestade em copo d’água” a respeito dos diferentes mundos, porém um assunto intimamente relacionado desencadeou um “tufão de debates”. Houve uma imensa luta filosófica acerca da questão de se saber em que medida sucessivas teorias científicas – pré e pós-revolução – poderiam ser comparadas umas com as outras.

Ian Hacking, em sua introdução ao livro A Estrutura das Revoluções Científicas (12. ed. São Paulo: Perspectiva, 2013 – original de 1962), acha que talvez a controvérsia à respeito da incomensurabilidade pudesse ter ocorrido somente no cenário estabelecido pelo empirismo lógico, a ortodoxia que era corrente na Filosofia da Ciência quando Kuhn estava redigindo A Estrutura.

É uma paródia simplista de uma linha de pensamento que é carregadamente linguística, ou seja, enfocada em significados. Ian Hacking não afirma que alguém tenha dito algo de um modo tão simplório, mas o que diz capta a ideia.

Pensava-se que os nomes das coisas observáveis por você poderiam ser aprendidos quando apontados. Mas como ficariam as entidades teóricas, como os elétrons, que não podem ser apontadas? Elas obtêm seu significado, pensava-se, unicamente do contexto da teoria em que ocorrem.

Daí por que uma mudança na teoria deve acarretar uma mudança no significado. Daí por que uma teoria pode significar algo diferente da mesma sequência de palavras no contexto de outra teoria. Se uma teoria diz que a sentença é verdadeira e a outra diz que é falsa, não há contradição, pois a sentença expressa diferentes enunciações nas duas teorias e elas não podem ser comparadas.

Assim, Kuhn foi acusado, em algumas instâncias, de negar a própria racionalidade da ciência. Em outras, ele foi saudado como o profeta do novo relativismo. Ambos os pensamentos são absurdos, e Kuhn aborda essas questões diretamente.

As teorias devem ser:

  1. acuradas em suas previsões consistentes,
  2. amplas em escopo, além de
  3. apresentar os fenômenos de um modo ordenado e coerente, e
  4. serem frutíferas ao sugerir novos fenômenos ou
  5. demonstrar o relacionamento entre fenômenos.

Kuhn subscreve todos os cinco valores que ele compartilha com a comunidade inteira de cientistas (para não mencionar historiadores).

Essa é a parte de tudo aquilo que envolve racionalidade científica, e Kuhn, nesse aspecto, é um “racionalista”. Nós temos de ser cuidadosos com a doutrina da incomensurabilidade.

Há “limites significativos para aquilo que os proponentes de diferentes teorias podem comunicar um ao outro”. Além disso, “uma transferência individual de fidelidade de uma teoria para outra é, amiúde, mais bem descrita como conversão do que escolha”. Naquele tempo reinava grande furor a respeito da escolha de teoria; de fato, muitos participantes do debate argumentavam que a tarefa primária dos filósofos da ciência era afirmar e analisar os princípios da escolha racional da teoria.

Kuhn estava pondo em questão a própria ideia da escolha de teoria. É, em geral, algo próximo ao contrassenso falar de um investigador que se põe a escolher uma teoria dentro da qual irá trabalhar.

Iniciantes que entram na graduação ou na pós-graduação têm de escolher o laboratório em que eles hão de dominar as ferramentas de seu mestre, sim senhor. Porém, nem por isso eles estão escolhendo uma teoria, mesmo se estiverem escolhendo o curso de sua vida futura.

[FNC: ninguém é eternamente marxista ou neoclássico ou keynesiano se entendeu o que é Ciência. Keynes não disse que, quando mudam os fatos, ele muda de teoria? Só membros de igrejinhas sectárias não mudam de teoria…]

A limitação da fácil comunicação entre os defensores de diferentes teorias não significa que eles não possam comparar resultados técnicos. “Por mais incompreensível que seja a nova teoria aos proponentes da tradição, a exibição de resultados concretos impressionantes persuadirá, ao menos, alguns poucos, que eles têm de descobrir como tais resultados foram obtidos”.

Há outro fenômeno que não se teria percebido não fossem as ideias de Kuhn. As investigações em larga escala, por exemplo, usualmente, requerem a colaboração entre muitas especialidades que, em detalhe, são opacas uma à outra.

[FNC: aí chegamos no tema do meu curso no Doutoramento: Economia Interdisciplinar.]

Como isso é possível? Elas envolvem uma “zona de comércio”.

Kuhn chegou a compreender, de um modo inesperado, que a ideia de incomensurabilidade é de grande ajuda. A especialização é um fato da civilização humana, é um fato das ciências. No século XVII podia-se progredir lendo revistas para todos os fins, cujo protótipo era os Philosophical Transactions ofthe Royal Society of London.

A Ciência multidisciplinar continua, como é atestado pelos semanários Science e Nature. Mas houve uma constante proliferação de revistas científicas mesmo antes de termos entrado na era da publicação eletrônica e cada revista representa uma comunidade disciplinar.

Kuhn pensou, desde a escrita do livro publicado em 1962 que isso era previsível. A Ciência, disse ele, é darwiniana e as revoluções são, com frequência, como eventos de especiação – formação de novas espécies biológicas [processo evolutivo pelo qual uma ou mais populações de uma espécie se tornam geneticamente diferentes] –, em que uma espécie se parte em duas ou em que uma espécie tem continuidade, porém com uma variante ao lado seguindo sua própria trajetória.

Na crise, mais de um paradigma pode emergir, cada qual capaz de incorporar um grupo diferente de anomalias e ramificar-se em novas direções de pesquisa. À medida que essas novas subdisciplinas se desenvolvem, cada uma com suas próprias realizações sobre as quais a pesquisa é modelada, torna-se crescentemente difícil para os praticantes de uma entender o que a outra está fazendo. Isso não constitui um ponto profundo de metafísica; trata-se de um fato familiar de vida de qualquer cientista atuante.

Assim como novas espécies são caracterizadas pelo fato de que elas não são híbridas, do mesmo modo novas disciplinas são, até certo ponto, mutuamente incompreensíveis. Esse é um emprego da ideia de incomensurabilidade que possui conteúdo real. Ele nada tem a ver com pseudo questões a respeito de escolha de teoria.

Kuhn devotou o fim de sua carreira à tentativa e explicar essa e outras espécies de incomensurabilidade em termos de uma nova Teoria da Linguagem Científica. Ele sempre foi um físico, e o que ele propôs tem a mesma característica de tentar reduzir tudo a uma estrutura simples, mais do que abstrata.

Trata-se de uma estrutura totalmente diferente de A Estrutura, embora dê esta como certa, mas dotada da mesma avidez do físico por uma organização perspícua dos diversos fenômenos. Tal obra não foi ainda publicada.

Diz-se com frequência que Kuhn subverteu completamente a Filosofia do Círculo de Viena e de seus sucessores, que ele inaugurou o “pós-positivismo”. No entanto, ele perpetuou muitos de seus pressupostos. Pode-se afirmar que a obra dos últimos anos de Kuhn estava empenhada na sintaxe lógica da linguagem da Ciência.

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