Progresso Através de Revoluções e Verdade

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As ciências progrediram aos trancos e barrancos. Para muita gente, o avanço científico é a própria epítome do progresso. Imaginem se a vida política ou moral pudesse ser assim! O conhecimento científico é cumulativo, vai construindo sobre prévias marcas de nível para escalar novos picos.

Ian Hacking, em sua introdução ao livro A Estrutura das Revoluções Científicas (12. ed. São Paulo: Perspectiva, 2013 – original de 1962), essa é exatamente a imagem de Kuhn da ciência normal. Ela é verdadeiramente cumulativa, mas uma revolução destrói a continuidade. Muitas coisas que uma ciência mais antiga fazia bem podem ser esquecidas quando um novo conjunto de problemas é colocado por um novo paradigma.

Isso constitui, de fato, uma espécie não problemática de incomensurabilidade. Após uma revolução pode haver um deslocamento substancial nos tópicos estudados de modo que a nova ciência não se endereça a todos os velhos tópicos. Ela pode modificar ou abandonar muitos dos conceitos que, um dia, foram apropriados.

Onde fica então o progresso? Ian Hacking havia pensado a respeito de uma Ciência que progredia em direção da verdade em seu domínio. Kuhn não desafia essa concepção de uma ciência normal. Sua análise é uma explicação original de como, exatamente, a ciência normal é uma instituição social que progride de modo veloz em seus próprios termos. As revoluções, entretanto, são diferentes, e elas são essenciais para um diferente tipo de progresso.

Uma revolução modifica o domínio, modifica até (de acordo com Kuhn) a própria linguagem em que falamos acerca de algum aspecto da natureza. De qualquer modo ela deflete para uma nova porção da natureza a estudar.

Assim, Kuhn cunhou seu aforismo segundo o qual as revoluções progridem para longe das concepções prévias de mundo, que se precipitam em dificuldades cataclísmicas. Isso não é progresso rumo a uma meta preestabelecida. É progresso que se afasta de algo que outrora funcionava bem, mas não mais manipula com competência seus próprios problemas.

O “para longe de” parece pôr em questão o arco de abrangência da noção de que a Ciência visa à verdade acerca do universo. O pensamento segundo o qual há uma e somente uma explicação verdadeiramente completa de tudo está profundamente enraizado na tradição ocidental. Ele descende daquilo que Comte, o fundador do positivismo, denominava “o estágio teológico da investigação humana”.

Nas versões populares da cosmologia judaica, cristã e muçulmana, há uma verdadeira e completa explicação de tudo, ou seja, o que Deus conhece (Ele sabe tudo a respeito da morte do ultimo pardal).

Essa imagem é transportada para a Física básica, na qual muitos profissionais, que se autodenominam orgulhosamente ateus, dão como certo haver, esperando para ser descoberta, uma explicação plena e completa da natureza.

Se você pensa que isso faz sentido, então ela se oferece como um ideal em direção do qual as ciências estão progredindo. Ao passo que o progresso nos termos de Kuhn, para longe, parecerá totalmente desencaminhado.

Kuhn rejeitou tal quadro: “Será realmente útil”, perguntou ele na página 275, “conceber a existência de uma explicação completa, objetiva e verdadeira da natureza, julgando as realizações científicas de acordo “com sua capacidade para nos aproximar daquele objetivo último?”

Muitos cientistas diriam que sim, é útil; esse posicionamento fundamenta a imagem que eles têm do que estão fazendo e de por que vale a pena fazê-lo. Kuhn foi demasiado breve com sua questão retórica. Trata-se de um tópico para o leitor dar prosseguimento. (Ian Hacking mesmo compartilha do ceticismo de Kuhn, mas são questões difíceis que não devem ser decididas apressadamente.).

Kuhn não pode levar a sério que haja “uma explicação completa, objetiva e verdadeira da natureza”. Significa isso que ele não leva a sério a verdade? De modo algum. Como Kuhn observou, ele próprio nada disse acerca da verdade no livro, exceto quando cita Bacon (p. 274).

Sábios amantes dos fatos, que tentam determinar a verdade sobre alguma coisa, não enunciam uma “teoria da verdade”. Nem deveriam fazê-lo. Qualquer pessoa familiarizada com a filosofia analítica contemporânea há de saber que existem miríades de teorias que competem entre si.

Kuhn rejeitou uma simples “teoria da correspondência”, segundo a qual verdadeiras enunciações correspondem a fatos acerca do mundo. A maior parte dos teimosos filósofos analíticos provavelmente faz o mesmo, ainda que apenas sobre a base óbvia da circularidade – não há meio de especificar o fato ao qual corresponde um enunciado arbitrário exceto afirmando-se a afirmação.

Na onda de ceticismo que varreu os estudos acadêmicos norte-americanos no fim do século XX, muitos intelectuais tomaram Kuhn como um aliado na negação que faziam da verdade como virtude.

Ian Hacking refere-se aos pensadores do tipo que não pode grafar ou proferir a palavra verdade, exceto envolvendo-a, literal ou figurativamente, em citações – para indicar que estremecem diante do mero pensamento de uma noção tão danosa. Vários cientistas ponderados, que admiram muito do que Kuhn disse a respeito da Ciência, acreditam que ele encorajou os negadores.

É verdade que a Estrutura deu enorme ímpeto aos estudos sociológicos da ciência. Algo desse trabalho, com sua ênfase na ideia de que os fatos são “socialmente construídos” e sua aparente participação na denegação da “verdade”, é exatamente aquilo contra o qual os cientistas conservadores protestam. Kuhn deixou claro que ele próprio detestava esse desenvolvimento de seu trabalho.

Note que não há sociologia no livro. As comunidades científicas e suas práticas encontram-se, entretanto, em seu cerne, introduzindo paradigmas como Ian Hacking mostrou, na página 72, e continuando até a página final do livro.

Houve Sociologia do Conhecimento Científico antes de Kuhn, mas, após a Estrutura, ela floresceu, levando ao que agora é chamado de Estudos da Ciência. Esse é um campo autogerador (por certo, com suas próprias revistas e sociedade), que inclui alguns trabalhos na história e na filosofia das ciências e da tecnologia, mas cuja ênfase incide em abordagens sociológicas de vários tipos, algumas observacionais, algumas teóricas. Muito, e talvez a maior parte, do pensar realmente original a respeito das ciências, depois de Kuhn, tem uma propensão sociológica.

Kuhn era hostil a tais desenvolvimentos. Na opinião de muitos praticantes jovens, isso é lamentável. Ian Hacking coloca isso na conta da insatisfação com as dores do crescimento do campo, mais do que nos aventuremos em tediosas metáforas sobre pais e filhos. Um dos melhores legados de Kuhn são os estudos de ciência como nós os conhecemos hoje.

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