Economistas e a Ignorância da Psicologia

Cabeça em Dinheiro

Vilfredo Pareto considerava Mussolini “um grande estadista” e, em outubro de 1922, via um telegrama enviado da Suíça, no qual escreveu “agora ou nunca”, encorajou-o a lançar a Marcha sobre Roma e tomar o poder. A importância dele para o fascismo era equivalente a do Karl Marx para o socialismo. Em 1923, Vilfredo Pareto foi nomeado senador do Reino de Itália. Publicou então dois artigos, nos quais se aproximou do fascismo, recomendando aos adeptos desta ideologia uma atitude liberal.

Ignorar a Psicologia, postura que o reaça Vilfredo Pareto defendia explicitamente, foi consagrada por Milton Friedman (1953) no seu desenvolvimento da Economia Positiva. Friedman e os muitos economistas influenciados por seu ponto de vista defenderam dois princípios para julgar as teorias que utilizam premissas A para fazer uma predição formal de P:

  1. Pressuposto A deve ser julgado pela precisão que, matematicamente, implica nas previsões P.
  2. Uma vez que premissas falsas podem gerar previsões precisas [?!], mesmo que os pressupostos pareçam falsos, a sua fraqueza empírica deve ser tolerada se eles levam a previsões precisas de P.[?!]

Colin F. Camerer apoia sem reservas o primeiro princípio (1), mas não aceita o corolário do princípio (2).

Aqui está o porquê: em primeiro lugar, se os pressupostos A são falsos, mas levam a uma precisa predição, presumivelmente, o fazem por causa de uma oculta ‘reparação’ da condição R (isto é, [não-A e R] → P é uma teoria mais completa para ambos fins que A → P). Em seguida, o foco adequado da investigação progressiva deve ser:

  1. especificar a reparação da suposição R e
  2. explorar suas implicações, em conjunto com suposições mais precisas.

Em segundo lugar, a importância de fazer boas previsões (1) é precisamente a razão para explorar hipóteses alternativas baseadas em fatos psicológicos e neurocientíficos. Fazemos isso em Economia Comportamental porque esperamos que os modelos baseados em mais de uma hipótese propiciam fazer algumas interessantes e novas previsões, e melhores previsões globais.

Modelos “como se” [as if] baseados em suposições duvidosas claramente funcionam bem em muitos aspectos, e sempre serão funcionais. Assim como o valor esperado ainda é uma ferramenta útil para alguns tipos de análise, embora isso seja uma restrição severa da dedução esperada. Mas testes das previsões de que decorrem dos modelos as-if da escolha racional também demonstraram muitas anomalias empíricas. A Economia Comportamental descreve estas regularidades e sugerem modelos formais para explicá-las.

Debates entre escolha racional e modelos comportamentais normalmente giram em torno de construções psicológicas, tais como a aversão à perda (Kahneman e Tversky, 1979), o papel da aprendizagem e o pensamento estratégico limitado. Preferências por recompensas imediatas ou as preferências precisas sobre as alocações sociais não foram ainda observadas diretamente.

Mas a tecnologia agora nos possibilita abrir a caixa preta da mente e observar a atividade do cérebro diretamente. Estas observações diretas só podem melhorar o desenvolvimento de teorias que se baseiam em hipóteses mais precisas e fazer melhores previsões como resultado.

Uma analogia com a Economia Organizacional ilustra o potencial da Neuroeconomia. Até os anos 1970, a Teoria da Firma era, basicamente, um modelo reducionista de como o capital e o trabalho eram combinados para criar uma função de produção. A ideia de que uma empresa apenas combina trabalho e capital é obviamente uma simplificação grosseira. Ela negligencia os detalhes das relações do agente-principal como a troca de presentes e os salários de eficiência, redes sociais e troca de favor entre empresas, a substituição de autoridade para precificação, a cultura corporativa e assim por diante. Mas a simplificação grosseira é útil, para o propósito de construir uma curva de oferta da indústria.

Mais tarde, a Teoria do Contrato abriu a caixa preta da empresa e modelou os detalhes do nexo via contratos entre acionistas, trabalhadores e gerentes. A nova Teoria da Firma substituiu a (perenemente útil) ficção de uma empresa que tem como único objetivo a maximização do lucro por um relato mais detalhado de como os componentes da empresa – indivíduos, hierarquias, e redes – interagem e comunicam-se entre si para determinar o comportamento da firma.

Neuroeconomia propõe-se a fazer o mesmo com o tratamento de um agente econômico individual como fosse uma empresa. A última frase no parágrafo anterior pode ser exatamente reescrita para substituir as empresas e os componentes das empresas por indivíduos e componentes neurais dos indivíduos.

Reescrever aquela frase dá esta: a Teoria Neuroeconômica do Indivíduo substitui a (perenemente útil) ficção de um indivíduo que tem um único objetivo a maximização da utilidade por um relato mais detalhado de como os componentes do indivíduo – as regiões do cérebro, o controle cognitivo e os circuitos neurais – interagem e comunicam-se entre si para determinar o comportamento individual.

O rápido surgimento de abordagens de várias auto referências ou processos-duais testemunha o quão bem a teoria econômica pode ser adaptada para estudar o cérebro como uma organização de componentes que interagem. Por exemplo:

  1. enfatizam a restrição de colocar os processos controlados por executivos ou gerentes em processo automático;
  2. enfatizam processos deliberados e os afetivos;
  3. enfatizam como um processo de controle cortical constrange um processo emocional que pode ser assimetricamente informado.

Até agora, há pouco evidência neural direta para testar esses vários modelos e compará-los. Fazer por isso é uma direção imediata óbvia para a investigação (e contribuirá bem para a neurociência básica).

É importante notar que o foco da pesquisa neuroeconômica até agora foi, em grande parte, sobre fundamentos microeconômicos da escolha do consumidor, valorizando apostas arriscadas e pensamento estratégico. E continua a ser enfrentado o desafio de se a medição neural será útil para a compreensão de fenômenos macroeconômicos como a confiança do consumidor ou as bolhas no mercado de ações.

No entanto, muitos destes macros fenômenos poderiam surgir a partir da interação de muitos cérebros que estão intimamente ligados através de redes sociais. As respostas comuns às notícias, que provocam choques emocionais, podem ser recíprocas ou contagiosas. Se assim for, macro modelos poderiam explorar a forma como o resultado da atividade do cérebro tem um efeito multiplicador na economia.

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