Por Que Gritamos Golpe? Para entender o Impeachment e a Crise Política no Brasil

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Ivana Jinkings, Kim Doria e Murilo Cleto são os organizadores da coletânea de artigos de intelectuais, militantes e políticos recém-publicada pela editora Boitempo (2016). Trata-se de um registro histórico indispensável para os leitores contemporâneos quanto para os historiadores no futuro, quando investigarem a fundo as narrativas do Golpe Parlamentarista de 2016.

Trata-se de mais um golpe na história republicana brasileira, 52 anos depois do último Golpe Militar de 1964. Antes deste, tinha fracassado um Golpe Parlamentarista que os reacionários tentaram impor ao vice-presidente Jango Goulart. Este conseguiu submeter o parlamentarismo a um plebiscito popular, cuja maioria disse NÃO à tentativa de políticos representantes das oligarquias regionais comandarem a política brasileira.

Após a redemocratização do Brasil, uma emenda da nova Constituição determinava a realização de um plebiscito no qual os eleitores iriam decidir se o país deveria ter um Regime Republicano ou Monarquista controlado por um Sistema Presidencialista ou Parlamentarista. A lei número 8.624, promulgada pelo presidente Itamar Franco em 4 de fevereiro de 1993, regulamentou a realização do plebiscito para ocorrer em 21 de abril de 1993.

A maioria dos eleitores votou a favor do Regime Republicano e do Sistema Presidencialista, maneira pela qual o país havia sido governado desde a Proclamação da República 104 anos antes – com exceção de uma breve experiência parlamentar entre 1961 e 1963, que também havia sido derrotada em um plebiscito.

Apesar disso, o poder dinástico do familismo político brasileiro manteve seu poder paroquial, estadual e congressual. Com este Golpe de 2016, o Poder Legislativo assumiu o Poder Executivo contra o resultado da eleição democrática de 2014 e, reconhecidamente, sob a falsa alegação de “crime de responsabilidade” – tanto que a Presidenta Dilma não teve seus direitos políticos retirados –, sob o olhar benevolente (e passivo) do Poder Judiciário. Por ora, o Poder Militar, ainda silencioso, só observa a desordem política na democracia brasileira…

Segundo Mauro Lopes, “Quatro famílias decidiram dizer: Basta! Fora!

  1. os Marinho (Organizações Globo),
  2. os Civita (Grupo Abril/Veja),
  3. os Frias (Grupo Folha) e
  4. os Mesquita (Grupo Estado).

A essas famílias somaram-se outras com mídias de segunda linha, como:

  1. os Alzugaray (Editora Três/Istoé) e
  2. os Saad (Rede Bandeirantes),
  3. ou regionais, como os Sirotsky (RBS, influente no sul do país).

Colocaram em movimento uma máquina de propaganda incontrastável, sob o nome de “imprensa”, para criar opinião e atmosfera para o golpe de Estado contra o governo de Dilma Rousseff, eleito por 54 milhões de pessoas em 26 de outubro de 2014.

A máquina de mídia dessas famílias deixou de fazer jornalismo no termo da palavra – como atividade voltada ao registro e reflexão cotidianos sobre a realidade – para tornar-se uma máquina de propaganda partidária. Essa condição foi admitida e antecipada em 2010 por Maria Judith Brito, presidenta da Associação Nacional de Jornais (ANJ), em entrevista ao jornal O Globo. Na ocasião, a executiva do Grupo Folha afirmou textualmente que “esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada”. [FNC: Esta declaração foi um marco na fundação do Partido da Imprensa Golpista – PIG.]

Foi o que algumas dessas famílias (os Marinho e os Mesquita, por exemplo) já haviam feito para derrubar o governo João Goulart em 1964. E, antes disso, em 1954, contra Getúlio Vargas. É espantosa a simetria discursiva das máquinas de propaganda na ofensiva contra Goulart e agora contra Dilma.

O mais famoso editorial a favor do golpe em 1964 foi o do Correio da Manhã – da família Bittencourt, que depois se arrependeu amargamente e viu seu jornal ser asfixiado pelo regime militar até a morte. O título do editorial de 31 de março tornou-se tristemente famoso: “Basta!”. Tinha sido precedido por outro, “Fora!”.

Publicou o Correio da Manhã: “Se o Sr. João Goulart não tem a capacidade para exercer a Presidência da República e resolver os problemas da Nação dentro da legalidade constitucional, não lhe resta outra saída senão a de entregar o governo ao seu legítimo sucessor”.

Cinquenta e dois anos depois, o Estado de S. Paulo publicou em 13 de março de 2016 editorial com o mesmo título, “Basta!”, e texto similar, mas bem menos articulado e educado que aquele dos Bittencourt: “Chegou a hora de os brasileiros de bem, exaustos diante de uma presidente que não honra o cargo que ocupa e que hoje é o principal entrave “para a recuperação nacional, dizerem em uma só voz, em alto e bom som: basta!”.

Como na campanha do início dos anos 1960, as famílias que controlam as grandes mídias nacionais assumiram um protagonismo político decidido, sob a liderança dos Marinho. Na televisão, foram sucessivas edições do Jornal Nacional voltadas a destruir Lula – com o objetivo de criminalizá-lo a ponto de impedir sua candidatura nas eleições de 2018, o PT e, finalmente, Dilma. O Jornal Nacional não é mais o mesmo. Apenas nos últimos quatro anos, desde 2012, perdeu um quarto de sua audiência, mas ainda assim é capaz de manter 40% da audiência nas regiões metropolitanas do país.

Mesmo fragilizado em relação aos últimos anos, o Jornal Nacional foi o principal instrumento da campanha, em articulação com a tropa de procuradores e delegados sob a liderança do juiz Sérgio Moro, em Curitiba. Na véspera do verdadeiro sequestro de Lula, travestido de “condução coercitiva” pela Polícia Federal em 5 de maço de 2016, houve uma edição histórica do JN: quarenta minutos de massacre sistemático ao principal líder popular do país desde Getúlio Vargas.

Assim o foi, meses e meses a fio. Manchetes convocando manifestações contra o governo; vazamentos de investigações em articulação com a operação Lava Jato; editoriais, artigos, entrevistas, pesquisas. As quatro famílias, seguidas pelas demais, operaram como numa rede nacional oficial do golpe, numa articulação inédita na história do jornalismo no país – a competição, ícone maior do capitalismo e do discurso de todos esses meios, foi deixada de lado em prol de uma colaboração aberta para derrubar o governo”, resumiu Mauro Lopes.

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