Ausência de Sustentabilidade dos Atuais Padrões de Consumo

https://i0.wp.com/www.wwiuma.org.br/estado_2010.pdf
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Desenvolvimentismo e Ambientalismo têm discordâncias a respeito do consumismo. Para os primeiros, o crescimento da demanda fomenta o desenvolvimento. Para os últimos, esse desenvolvimento não seria sustentável. Para os social-desenvolvimentistas, os ecologistas necessitam de, em vez de propor crescimento zero e manutenção do status quo, imaginar uma solução para alterar a condição de miséria social com políticas de emprego e distribuição de renda e sem regressão histórica a um suposto idílico passado sem consumismo.

Vamos ter empatia e nos colocar no lugar dos ambientalistas. Leiamos seus argumentos expressos no capítulo “Ascensão e Queda das Culturas de Consumo“, escrito por Erik Assadourian, no relatório Estado do Mundo em 2010, publicado pela WorldWatch ( WWW.WORLDWATCH.ORG.BR).

Em 2006, pessoas no mundo todo gastaram US$ 30,5 trilhões em bens e serviços (em dólares de 2008). Esses dispêndios incluíram necessidades elementares, como alimentação e moradia. No entanto, com o aumento da renda discricionária, as pessoas passaram a gastar mais em bens de consumo: alimentos mais pesados, moradias maiores, televisões, carros, computadores e viagens de avião. Só em 2008, pessoas no mundo todo compraram 68 milhões de veículos, 85 milhões de geladeiras, 297 milhões de computadores e 1,2 bilhão de telefones móveis (celulares).

O consumo teve um crescimento tremendo nos últimos cinquenta anos, registrando um aumento de 28% em relação aos US$ 23,9 trilhões gastos em 1996 e seis vezes mais do que os US$ 4,9 trilhões gastos em 1960 (em dólares de 2008). Parte desse aumento é resultante do crescimento populacional, mas o número de seres humanos cresceu apenas a uma razão de 2,2 entre 1960 e 2006. Sendo assim, os gastos com consumo por pessoa praticamente triplicaram.

Como o consumo aumentou, mais combustíveis, minerais e metais foram extraídos da terra, mais árvores foram derrubadas e mais terra foi arada para o cultivo de alimentos (muitas vezes para alimentar gado, visto que pessoas com patamares de renda mais elevada começaram a comer mais carne). Entre 1950 e 2005, por exemplo, a produção de metais cresceu seis vezes, a de petróleo, oito, e o consumo de gás natural, 14 vezes.

No total, 60 bilhões de toneladas de recursos são hoje extraídas anualmente – cerca de 50% a mais do que há apenas 30 anos. Hoje, o europeu médio usa 43 quilos de recursos diariamente, e o americano médio, 88 quilos. No final das contas, o mundo extrai o equivalente a 112 edifícios Empire State da Terra a cada dia.

A exploração desses recursos para a manutenção de níveis de consumo cada vez mais altos vem exercendo pressão crescente sobre os sistemas da Terra, e esse processo vem destruindo com grande impacto os sistemas ecológicos dos quais a humanidade e incontáveis outras espécies dependem. O Indicador de Pegada Ecológica, que compara o impacto ecológico humano com a quantidade de terra produtiva e área marítima disponíveis para o abastecimento de ecossistemas centrais, mostra que hoje a humanidade usa recursos e serviços de 1,3 Terra . (Veja Figura 1).

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Em outras palavras, as pessoas estão usando quase um terço a mais da capacidade da Terra do que a efetivamente disponível, afetando a regeneração dos próprios ecossistemas dos quais a humanidade depende.

Em 2005, a Avaliação Ecossistêmica do Milênio (MA), uma análise detalhada de pesquisas científicas envolvendo 1.360 especialistas de 95 países, corroborou esses resultados. Concluiu-se que aproximadamente 60% dos serviços providos por ecossistema – regulação do clima, abastecimento de água doce, tratamento de detritos, alimentos de pesqueiros e muitos outros serviços – estavam sendo degradados ou usados de modo não sustentável.

Os resultados foram tão inquietantes, que o Conselho da MA emitiu um alerta informando que a “atividade humana está deformando de tal modo as funções naturais da Terra, que a capacidade de os ecossistemas do planeta sustentarem futuras gerações não pode mais ser dada como certa”.

As mudanças em um dos serviços do ecossistema em particular – regulação do clima – são especialmente alarmantes. Depois de permanecer em níveis estáveis nos últimos 1.000 anos, aproximadamente 280 partes por milhão, as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono (CO2) estão hoje em 385 partes por milhão, como consequência de uma parcela crescente da população consumir cada vez mais combustíveis fósseis, comer mais carne e converter mais terra em áreas agrícolas e urbanas.

O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática concluiu que a mudança climática resultante de atividades humanas está causando degradações de vulto em sistemas terrestres. Se as emissões de gás de efeito estufa não forem coibidas, mudanças desastrosas ocorrerão no próximo século.

Um estudo de maio de 2009 que utilizou o Modelo de Sistemas Globais Integrados do Massachusetts Institute of Technology concluiu que, a menos que medidas significativas sejam adotadas em breve, o aumento médio de temperatura seria de 5,1ºC até 2100, mais do que o dobro do que o modelo previra em 2003. Um estudo de setembro de 2009 reforçou esse resultado, informando que as atividades usuais levariam a um aumento de 4,5ºC até 2100, e que mesmo se todos os países se ativessem às suas propostas mais ambiciosas para redução de emissões de gás de efeito estufa, ainda assim as temperaturas subiriam até 3,5ºC.

Em outras palavras, a política por si só não será suficiente. Uma mudança expressiva em toda a formulação das sociedades humanas será essencial.

Essa projeção de níveis de mudança de temperatura significa que haveria grande chance de que os níveis dos oceanos aumentassem em dois ou mais metros devido ao derretimento parcial de placas de gelo na Groenlândia ou na Antártica Ocidental, o que por sua vez causaria grandes inundações em áreas costeiras e possivelmente submergiria nações insulares inteiras.

A parcela do mundo – um sexto – que depende de glaciais ou rios alimentados pelo derretimento de neve para obter água enfrentaria sua extrema escassez. Vastas áreas na floresta amazônica se tornariam savana, recifes de corais morreriam e muitos dos pesqueiros mais valiosos do mundo se extinguiriam. Tudo isso se traduziria em transtornos políticos e sociais críticos – havendo previsão de que refugiados do meio ambiente cheguem a 1 bilhão até 2050. 

E a mudança climática é apenas um dos muitos sintomas de níveis excessivos de consumo. A poluição do ar, a destruição média de 7 milhões de hectares de floresta por ano, a erosão do solo, a produção anual de mais de 100 milhões de toneladas de dejetos perigosos, práticas trabalhistas abusivas movidas pelo desejo de produzir bens de consumo em maior quantidade e a preço mais baixo, obesidade, estresse crescente – a lista poderia continuar indefinidamente. Todos esses problemas são quase sempre tratados em separado, ainda que muitas de suas raízes remontem aos atuais padrões de consumo.

Além de serem acima de tudo excessivos, os níveis de consumo moderno são altamente enviesados, e, entre os ricos, assumem responsabilidade desproporcional pelos males ambientais de nossos dias.

De acordo com um estudo do ecologista de Princeton Stephen Pacala, os 500 milhões de pessoas mais ricas do mundo (aproximadamente 7% da população mundial) são atualmente responsáveis por 50% das emissões globais de dióxido de carbono, enquanto os 3 bilhões mais pobres são responsáveis por apenas 6%.

Esses números não deveriam ser surpreendentes, dado que são os ricos que têm casas maiores, dirigem carros, andam de avião pelo mundo, usam grandes quantidades de eletricidade, comem mais carne e alimentos industrializados e compram mais produtos – tudo isso com um impacto ecológico significativo. É ponto pacífico que as rendas mais altas nem sempre equivalem a consumo elevado, mas onde o consumismo é a norma cultural, a probabilidade de se consumir mais sobe quando as pessoas têm mais dinheiro, mesmo para consumidores ecologicamente conscientes.

Em 2006, os 65 países de renda alta onde o consumismo é prevalecente representaram 78% dos gastos de consumo, mas apenas 16% da população mundial. Considerando-se apenas os Estados Unidos, houve um gasto de US$ 9,7 trilhões em consumo naquele ano – cerca de US$ 32.400 por pessoa, o que representa 32% dos dispêndios globais feitos por apenas 5% da população mundial.

São esses países que precisam mais urgentemente redirecionar seus padrões de consumo, dado que o planeta não tem condições de suportar níveis tão elevados. De fato, se todos vivessem como os americanos, a Terra poderia sustentar apenas 1,4 bilhão de pessoas. Com níveis de consumo ligeiramente mais baixos, embora ainda altos, o planeta poderia sustentar 2,1 bilhões de pessoas. Mas mesmo com níveis de renda média – o equivalente ao que as pessoas na Jordânia e Tailândia ganham em média por dia hoje – a Terra consegue sustentar menos gente do que o número de pessoas vivas hoje. (Veja Tabela 1.)

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Esses números expressam uma realidade que poucos desejam confrontar: no mundo atual, com 6,8 bilhões de pessoas, os padrões de consumo moderno, mesmo em níveis relativamente básicos, não são sustentáveis.

Uma análise feita em 2009 sobre padrões de consumo em diferentes classes socioeconômicas da Índia deixou isso particularmente claro. Bens de consumo são amplamente acessíveis na Índia hoje. Mesmo com níveis de renda anual na ordem de US$ 2.500 por pessoa em termos de paridade do poder de compra (PPC), muitas residências têm acesso a iluminação básica e um ventilador. Ao atingirem aproximadamente a PPC de US$ 5.000 ao ano, o acesso à televisão passa a ser padrão e o acesso a aquecedores de água cresce. Com a PPC de US$ 8.000 ao ano, a maioria das pessoas dispõem de ampla gama de bens de consumo, como máquinas de lavar roupa, aparelhos de DVD, utensílios de cozinha e computadores. Conforme a renda aumenta ainda mais, ar condicionado e viagens de avião passam a ser comuns.

Não é de surpreender que o 1% mais rico dos indianos (10 milhões de pessoas), que ganha mais de US$ 24.500/PPC ao ano, é atualmente responsável por mais de 5 toneladas de emissões de CO2 por ano – ainda assim, apenas um quinto das emissões per capita americana, mas o dobro do nível médio de 2,5 toneladas por pessoa necessário para manter o aumento de temperatura abaixo de 2ºC. Mesmo os 151 milhões de indianos que ganham mais de US$ 6.500/PPC per capita estão vivendo acima do patamar de 2,5 de toneladas per capita, enquanto os 156 milhões de indianos que ganham US$ 5.000 estão se aproximando disso, produzindo 2,2 de toneladas per capita.

Como mostrado pelo Indicador de Pegada Ecológica e demonstrado pela pesquisa indiana, com níveis de renda que a maioria dos observadores classificaria como de subsistência – cerca de US$ 5.000 a US$ 6.000/PPC per capita anualmente – o consumo já está em níveis não sustentáveis. E hoje, mais de um terço da população mundial vive acima desse patamar.

A adoção de tecnologias sustentáveis deveria permitir que níveis básicos de consumo permanecessem ecologicamente viáveis. Da perspectiva da Terra, contudo, o modo americano de viver, ou mesmo o europeu, simplesmente não é viável.

Uma recente análise concluiu que, para se produzir energia suficiente nos próximos 25 anos de modo a substituir a maior parte do que é fornecido por combustíveis fósseis, o mundo precisaria construir no transcorrer desse período:

  • 200m2 de painéis solares fotovoltaicos por segundo,
  • mais 100m2 de painéis solares térmicos por segundo,
  • mais 24 turbinas eólicas de 3 megawatt por hora funcionando continuamente.

Tudo isso demandaria energia e materiais tremendos – ironicamente, aumentando as emissões de carbono justamente quando elas mais precisam ser reduzidas – e ampliaria o impacto ecológico total sobre a humanidade a curto prazo.

Acrescente-se a esse fato que a projeção de crescimento populacional é da ordem de 2,3 bilhões até 2050, e, mesmo com estratégias eficazes para conter o crescimento, haverá um provável aumento de, no mínimo, mais 1,1 bilhão antes de se chegar ao patamar máximo.

Portanto, fica claro que, embora a mudança em tecnologias e a estabilização populacional sejam essenciais para se construir sociedades sustentáveis, nada disso terá êxito sem mudanças consideráveis nos padrões de consumo, inclusive no que se refere à redução e mesmo eliminação do uso de determinados produtos, tais como carros e aviões, que se tornaram parte importante da vida de hoje para muitos.

Hábitos que estão firmemente estabelecidos, como o lugar onde as pessoas moram e o que elas comem, precisarão todos eles ser modificados e, em muitos casos, simplificados ou minimizados.

No entanto, essas não são mudanças que as pessoas desejarão fazer, porque seus atuais padrões de consumo são confortáveis e lhes parecem “naturais”, em grande parte devido aos esforços constantes e metódicos para que elas se sintam exatamente assim.

Ao se considerar como as sociedades podem ser colocadas em caminhos que levem a um futuro sustentável, é importante reconhecer que os comportamentos humanos cruciais para as identidades culturais e sistemas econômicos modernos não são escolhas que estão totalmente sob o controle dos consumidores. Eles são sistematicamente reforçados por um paradigma cultural cada vez mais dominante: consumismo.

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