Gente, perdoai, os economistas não sabem o que dizem…

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Estudo Economia há 45 anos. E quanto mais estudo, mais tenho a dimensão de minha ignorância

E quanto mais leio meus colegas, mais percebo que eles não sabem o que dizem. Mas se arvoram de um saber que, absolutamente, não têm.

Arrogância é o ato ou o efeito de arrogar(-se), de atribuir a si direito, poder ou privilégio de responder a uma pergunta não porque sabe a resposta, mas apenas porque foi perguntado. É uma qualidade ou caráter de quem, na minha corporação profissional, por suposta superioridade moral, social, intelectual ou de comportamento, assume atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros.

Trata-se de um orgulho ostensivo, altivez, junto com uma atitude desrespeitosa e ofensiva em atos ou palavras. Dá para perceber a insolência, o atrevimento e a ousadia dos economistas ortodoxos com os heterodoxos e/ou os leigos — aqueles que são estranhos a ou que revelam ignorância ou pouca familiaridade com determinado assunto, profissão, etc.

Lendo hoje o jornal econômico (Valor, 26/09/16), constato na segunda página, em reportagem de Sérgio Lamucci, que “em um cenário de grave recessão, o desemprego tem subido com força, mas os salários não mostram uma queda tão expressiva. Essa resistência da renda ajuda a explicar o lento recuo da inflação, mesmo com a forte contração da economia, segundo vários economistas“!

Ora, ora, penso que meus colegas midiáticos deveriam se apresentar não como serviçais-do-capital, mas sim como os bobos-da-corte. Bobo da corte ou bufão era o nome pelo qual era chamado o “funcionário” da Monarquia encarregado de entreter o rei e rainha e fazê-los rirem. Muitas vezes eram as únicas pessoas que podiam criticar o rei sem correr riscos, uma vez que sua função era fazê-lo rir, assim como os palhaços fazem.

O bobo-da-corte podia ser inteligente, atrevido e sagaz. Dizia o que o povo gostaria de dizer ao rei e zombava da corte. Com ironia mostrava as duas faces da realidade, revelando as discordâncias íntimas e expondo as ambições do rei.

Na primeira notícia, a inflação brasileira é diagnosticada como inflação de custos, no caso, dos custos salariais. Economistas se lamentam por a depressão, provocada pela disparidade do juro real, e a inflação, dobrada pelo choque tarifário neoliberal de 2015, não terem sido ainda suficientes para provocar um “arrocho salarial” como antigamente…

Na segunda notícia, a inflação brasileira é diagnosticada como inflação de oligopólios e/ou cartéis. Qualquer consumidor brasileiro sabe que os preços de combustíveis são dominados por cartel dos postos de gasolinas.

Por exemplo, moro no Distrito de Barão Geraldo, onde se situa o campus da Unicamp. Fica a 20 minutos (18 km) da maior Refinaria da Petrobras (REPLAN) na vizinha Paulínia. Aqui todos os postos de gasolina têm o mesmo preço da comum (R$ 3,499) e bem acima dos postos situados em Campinas — e mesmo em São Paulo — que ficam a uma distância maior: custos de transportes diferenciados?! Ou falta de fiscalização pela omissão do PROCON da Prefeitura de Campinas?

No trimestre de maio a julho, o rendimento médio real ficou 3,1% menor que o registrado no mesmo período do ano anterior, segundo números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua. Em alguns episódios anteriores de piora acentuada da atividade, como em 1999 e 2003, o salário médio teve quedas reais na casa de 7% a 8%, como nota o professor Naercio Menezes, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper.

O fato de parcela significativa dos trabalhadores ter hoje remuneração próxima ao salário mínimo tem grande peso para o recuo menos intenso da renda, segundo especialistas como Naercio. Além disso, o aumento da formalização a partir de meados da década passada também contribui para o rendimento cair menos. No Brasil, o ajuste no mercado de trabalho em um ambiente recessivo ocorre mais pela alta do desemprego do que pela contenção dos salários.

No trimestre de maio a julho, a taxa de desocupação ficou em 11,6%, bem acima dos 8,6% registrados no mesmo período de 2015. O número de desempregados atingiu 11,8 milhões de pessoas. Nesse intervalo de um ano, o rendimento médio real (descontada a inflação) recuou de R$ 2.048 para R$ 1.985, retração de pouco mais de 3%.

Para Naercio, o principal fator a explicar a queda mais fraca do salário real nesta recessão é que hoje uma fatia expressiva dos trabalhadores tem um rendimento próximo do salário mínimo, uma decorrência da regra de correção do piso adotada a partir de 2007. Por essa norma, o piso passou a ser corrigido pela variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do ano anterior mais o resultado do PIB de dois anos antes. O resultado é que, na década passada, o mínimo aumentou muito mais que o salário médio.

Nesse cenário, o número de trabalhadores que recebem até dois salários mínimos cresceu com força. “Isso faz com que hoje o salário real médio caia menos durante uma recessão”, afirma Naercio.

Ele lembra que, em episódios anteriores de retração da atividade, o salário real caiu bem mais – em 1999, o recuou foi de quase 8% e em 2003, de quase 7%. Esses números são da PNAD antiga, que tem diferenças em relação à PNAD Contínua – a anterior era realizada uma vez por ano, enquanto a nova é mensal.

Naercio diz que o salário mínimo tem um “efeito farol”, servindo de referência para a remuneração na economia, influenciando quem está no setor informal e quem ganha o equivalente a até dois pisos, por exemplo. O economista diz ver a regra de correção do mínimo como muito importante, destacando o papel que ela teve na redução da desigualdade no país.

Professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, Hélio Zylberstajn afirma que o aumento dos empregos nos últimos anos ocorreu em ocupações de baixa qualificação e baixos salários. Segundo ele, há mecanismos institucionais de correção desses rendimentos, como o salário mínimo e os pisos salariais em alguns Estados.

Para o economista Fabio Romão, da LCA Consultores, o aumento da formalização no mercado de trabalho também ajuda a entender a resistência da renda, mesmo num ambiente recessivo. O movimento ganhou força a partir de meados da década passada.

Nas seis principais regiões metropolitanas, por exemplo, o percentual de empregados com carteira assinada, que fechou 2004 na casa de 44% do total, atingiu 54,8% em fevereiro deste ano, quando a apuração da Pesquisa Mensal de Emprego foi interrompida pelo IBGE. O levantamento feito mensalmente sobre o mercado de trabalho é hoje a PNAD Contínua, cuja série começa em 2012. Com mais formalização, há mais trabalhadores que se beneficiam dos dissídios salariais anuais.

Para o economista-chefe do Banco Safra, Carlos Kawall, a existência do dissídio anual coletivo no Brasil faz com que se proteja o salário, e não o emprego, ao contrário do que ocorre em outros países. Uma parte considerável dos acordos repõe pelo menos a inflação passada, mesmo na recessão. Snif, snif…

Desse modo, o ajuste no mercado de trabalho em uma crise se faz mais pelo aumento do desemprego, que em dois anos pulou de menos de 7% para os atuais 11,6%. É um número mais alto que os quase 10% atingidos nos EUA no auge da Grande Recessão, que durou do fim de 2007 a meados de 2009, nota Kawall.

[FNC: meu ex-colega do Doutorado no IE-UNICAMP foi contaminado por ideias de O Mercado?! Desde quando a queda dos salários não foi efeito de desemprego?]

Para ele, o ideal é uma reforma que permita aos trabalhadores aceitarem a redução de salários, se for o que eles desejem e acertem em negociação com os empregadores [?!]. “Isso é fundamental para a economia não gerar tanto desemprego”, diz Kawall, observando que a taxa de desemprego caminha para 12% a 13%.

[FNC: regrediu ao pré-keynesianismo?! A culpa do desemprego é dos desempregados que não aceitaram abaixar seus salários?! É lamentável o resgate dessa ideia (neo)clássica!]

Na visão de Kawall, o fato de a renda ter caído relativamente pouco “cria uma rigidez à queda da inflação”. É um dos fatores que explicam o processo lento de queda dos índices de preços, avalia ele. [FNC: gente, perdoai, ele não sabe o que está disse…]

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumula alta de pouco menos de 9% no acumulado em 12 meses, mesmo com a economia vivendo uma recessão cavalar. O comportamento dos salários sanciona aumentos de preços.

Segundo economistas, os efeitos da desvalorização do câmbio e a correção dos preços administrados (como energia e combustíveis) ocorridos no ano passado são importantes para explicar o nível elevado da inflação em 12 meses, assim como a forte indexação e a inércia, mas o fato de os salários não terem caído muito também torna os índices mais resistentes.

[FNC: vê, chutam todas as ideias, sejam incoerentes, sejam inconsistentes, com esperança que uma seja acertada…]

Em 12 meses, porém, o indicador da inflação ainda acumula variação de 8,78%. Para este ano, a expectativa é que o IPCA fique em 7,2% a 7,3%, acima do teto da banda de tolerância, de 6,5%.

[FNC: e os alucinados ainda querem aumentar a depressão “para chegar no centro da meta”, ou seja, a corte se enriquece com juros, enquanto se eleva o desemprego da plebe rude!]

“Acho que o fato dos salários médios estarem caindo menos nessa recessão pode estar relacionado com o comportamento da inflação”, diz também Naercio. “Mas a saída não é modificar a regra do salário mínimo, e sim fazer as reformas micro para aumentar a concorrência e a produtividade e fazer com que os ganhos de eficiência contrabalancem os aumentos do mínimo”, completa ele.

[FNC: o que ele não diz é que as reformas neoliberais visam cortar direitos sociais e aliviar os encargos trabalhistas para os patrões “se incentivarem” (sic).]

O economista faz também uma ponderação, ao falar da queda menos intensa registrada pelo rendimento neste quadro recessivo. “Pode ser que ainda não tenhamos chegado ao fundo do poço. O salário médio pode cair ainda mais até o fim do ano”, afirma Naercio.

Pelo boletim Salariômetro, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), 51,8% dos ajustes salariais acertados em agosto ficaram abaixo da inflação acumulada em 12 meses. Essa fatia tinha sido de 22% em junho e 36,2% em julho, depois de atingir 40,5% em maio. Já a mediana dos ajustes salariais ocorridos em agosto igualou a variação do INPC em 12 meses, de 9,6%. A mediana é o número que está no centro de uma distribuição de dados.

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Lida essa notícia que meus colegas midiáticos se lamentam por o arrocho salarial não ter sido ainda mais profundo, viro a página para ler (Lucas, Marchesini, 26/09/16) que “Brasília é a capital brasileira com a menor taxa de inflação até agosto deste ano e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) é um dos responsáveis por esse resultado”.

A autoridade antitruste interveio no início do ano na maior rede de postos do Distrito Federal, o grupo Cascol, que controla cerca de 20% do mercado local. A partir daí foi verificada uma queda nos preços nas bombas de gasolina, o que levou à redução de 7,02% no preço de combustíveis, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Tudo começou com a Operação Dubai, deflagrada pela Polícia Federal com apoio do Cade no fim do ano passado. O objetivo era desarticular um cartel que controlava postos de combustíveis no Distrito Federal. Na ocasião, foram realizadas sete prisões preventivas e 25 conduções coercitivas, além de emitidos 44 mandatos de busca e apreensão.

“Normalmente o preço [da gasolina] cai logo em seguida [à operação], mais por reação do setor. Aqui, até pelo discurso de que não tem cartel, o preço não caiu. Pelo contrário, ele aumentou quando houve uma alta do ICMS”, afirmou o superintendente-geral adjunto do Cade, Diogo de Andrade.

Diante disso, em janeiro deste ano, a autoridade antitruste decidiu nomear um interventor que assumiria a gestão diária de todos os postos da bandeira BR do grupo Cascol. Entre idas e vindas da medida (prazos legais e recursos), o interventor acabou assumindo a gestão de todos os postos da rede Cascol em abril deste ano, e não apenas os da bandeira BR.

“A medida resgatou a competitividade e gerou queda no preço e diferenciação nos postos, inclusive em alguns que não são do grupo, que é o que se espera em uma dinâmica competitiva”, conta Andrade.

A gerente de pesquisas do IBGE, Irene Maria Machado, vê efeitos claros da intervenção do Cade no setor. “A ação do Cade foi em novembro e depois houve a intervenção em abril. O preço começou a cair e em agosto ficou a igual a outras regiões pesquisadas. Acho que deu resultado mesmo”, disse Irene.

No começo do ano, de acordo com o IBGE, o preço médio verificado nas bombas de combustível do Distrito Federal era de R$ 3,92 por litro de gasolina. Em abril, mês da intervenção, o preço estava em R$ 3,82, o que representa queda de 2,55%. A partir daí, caiu para R$ 3,54 por litro em agosto. Entre abril e agosto, com a intervenção em vigor, a queda foi de 7,32%.

A taxa de inflação acumulada no Distrito Federal em 2016 é de 3,57% de acordo com os dados do IPCA. O índice é inferior aos 5,42% verificados no Brasil como um todo e o menor resultado dentre as 13 regiões metropolitanas pesquisadas.

Em relação aos preços dos combustíveis, a retração é de 7,02% em Brasília no acumulado entre os meses de janeiro e agosto de 2016, enquanto o resultado é negativo em 0,66% em todo o país. É o menor resultado verificado nas regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE. O mesmo acontece quando se analisa apenas o preço da gasolina (queda de 6,58% no DF e alta de 0,4% em todo o país), ou do etanol (queda de 11,35% no DF e de 5,48% em todo o país).

“A redução de preço da gasolina puxou o índice para baixo. Aqui [no Distrito Federal] foi uma das menores inflações e a gasolina ajudou nisso”, afirmou o superintendente-geral adjunto do Cade. “Um cartel tem um impacto não negligenciável”.

O professor de Finanças Públicas da Universidade de Brasília (UnB), Roberto Piscitelli, concorda com a análise do superintendente do Cade. “O alto grau de cartelização da economia brasileira é um fator de resistência para a baixa de preços. É um circulo vicioso, porque não deixa surgir redes menores, incorpora outras redes, é um processo continuo.”

“A gente tende a encarar o cartel como uma grande organização, mas na realidade a economia brasileira, na minha opinião, é altamente cartelizada. Essa característica da sociedade brasileira é tão marcante que até no setor de padarias você tem cartel“, afirma Piscitelli.

Para ele, essa cartelização é um processo “inerente ao crescimento econômico do Brasil, ao processo de concentração de renda patrimonial“. “Isso reflete o processo de concentração de renda em geral, no qual as empresas são parte integrante, não estão isoladas”, diz o professor.

A intervenção nos postos da Cascol no Distrito Federal vai até o dia 9 de outubro, quando será entregue um relatório pelo administrador. A partir daí, o Cade decidirá se renova a intervenção e por quanto tempo. A autarquia também pode julgar que todos os objetivos da medida preventiva foram cumpridos e não renová-la.

[FNC: curiosamente, os acionistas minoritários da Petrobras manipularam a opinião especializada para formar a opinião pública de que esta empresa estatal brasileira deveria ter seus preços de combustíveis liberados: o Brasil deve servir à Petrobras, e não o contrário! Agora, pós-choque liberalizante do Joaquim Levy, todo o País está pagando os dividendos inflados aos especuladores. E o novo presidente da Petrobras, membro da mesma equipe neoliberal de FHC, promete acompanhar os preços internacionais dos combustíveis, i.é, voltar à volatilidade da taxa de câmbio como nos tempos do Malan…]

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