Delfim Netto: “Em Economia, toda ideia nova é, por definição, heterodoxa”

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Nosso economista decano, velho golpista e de novo conselheiro de golpista velho, como o Temer, foi ministro da Fazenda durante o período da ditadura militar. O ex-deputado federal Antônio Delfim Netto disse “não se arrepender de ter assinado, em 1968, o Ato Institucional número 5, que extinguiu direitos civis e levou ao período de maior repressão no país”!

Ele (Valor, 20/09/16) fez mais uma típica descoberta do óbvio — aquilo que todo economista heterodoxo há muito tempo já sabia e ficava boquiaberto dos colegas ortodoxos não saberem: a vanguarda intelectual em Economia é heterodoxa!

Delfim usa (e abusa da) ironia. Por meio da qual se passa uma mensagem diferente, muitas vezes contrária, à mensagem literal, geralmente com objetivo de criticar ou promover humor. Por isso, seu texto é atraente em forma, embora seja muitas vezes repetitivo em conteúdo. Reproduzo a última auto complacência abaixo, onde ele descobre o óbvio e, como sempre, “joga para a plateia” (ou “dança conforme a música”) com seguidas tentativas de humor, em uma mixórdia de frases-feitas e seus costumeiros clichês.

“A Economia é um tipo de conhecimento muito diferente do das ‘Ciências Naturais’ como a Física ou a Química, onde se pode (às vezes) estudar efeitos da causa “X” sobre o evento “Y”, isolando, cuidadosamente, a variação de outras variáveis que poderiam, eventualmente, perturbá-la.

A diferença é que a descoberta de “leis” naquelas Ciências deixa a natureza imperturbada. Depois que Galileu descobriu a lei da aceleração do movimento, que Newton formulou a lei da gravidade universal e que Faraday descobriu a lei da indução eletromagnética, a natureza não tomou conhecimento. Não pensou em reagir alterando a constante gravitacional!

Por isso os homens puderam usá-las em seu próprio benefício e produziram a revolução científica e tecnológica que, em menos de 300 anos (0,002% do tempo em que ele deixou a África há 150 mil anos) construiu o mundo em que vivemos, com suas maravilhas tecnológicas e… suas misérias humanas.

A “natureza” da economia, é a “sociedade humana”. Uma combinação de indivíduos heterogêneos, que reagem aos estímulos de forma diferente, que pensam, têm memória e têm interesses. Formam um sistema complexo de inter-relações que se alteram à medida que seus membros tomam consciência que, pela organização desses interesses e pelo ‘sufrágio universal’, podem mudá-las!

É por isso (e algumas outras coisas) que a Economia não tem relações estáveis (leis) e os economistas têm que construir sempre novos modelos, sujeitos à extraordinária hipótese que “todo o resto permanece constante”.

O objeto da Economia não muda. Muda o comportamento da sociedade à medida que ela se conhece. O fato de ser uma modesta disciplina e não uma ciência “dura” não impede, entretanto, que ela tente usar a mesma metodologia para acumular conhecimentos úteis à administração privada e pública:

1) formula “modelos”, em geral com objetivos estabelecidos “a priori” pelo seu autor (mesmo quando inconscientemente);

2) formaliza-os através da linguagem matemática; e

3) tenta refutá-los usando a melhor técnica estatística possível (sempre violando as suas condições básicas).

Se resistem à tortura dos dados, sobrevivem provisoriamente.

Se forem realmente interessantes, serão submetidos à “prova da reprodução” dos resultados por outros competentes economistas e, no final, incorporados ao “mainstream.

É por isso [causa-e-efeito?!] que a discussão entre ortodoxos e heterodoxos é uma lamentável perda de tempo. Em Economia, toda ideia realmente nova é, por definição, “heterodoxa”. Depois, dependendo da qualidade retórica da narrativa e da sua sobrevivência ao teste empírico é, ou não, incorporada à ortodoxia.

Keynes foi um grande heterodoxo bem-sucedido. [?!] Hoje está incorporado à ortodoxia pelo neokeynesianismo que infecciona os modelos de Equilíbrio Geral Dinâmico Estocástico (DSGE) de quase todos os bancos centrais.

Lucas foi, sob alguns aspectos, um heterodoxo malsucedido. Foi afoitamente abraçado pela ortodoxia mal-informada que acreditou na racionalidade “divina” exigida pela teoria das expectativas “racionais”.

A Economia recepciona boa parte do que sugere o “mainstream“, principalmente:

  1. que existem limites físicos insuperáveis [“dada” capacidade produtiva é eterna?!];
  2. que deve existir equilíbrio entre a expansão do consumo e do investimento [quando investimento determina renda que poderá ou não ser consumida?!];
  3. que há necessidade de boa ordem fiscal e monetária para que haja espaço para políticas anticíclicas [quando o setor público gasta em lugar do setor privado?!];
  4. que as tentativas de violar as identidades da Contabilidade Nacional [poupança => investimento?!], sempre terminam muito mal;
  5. que o desenvolvimento econômico é apenas o codinome de aumento da produtividade do trabalho [?!] e requer um Estado forte, constitucionalmente controlado, capaz de regular e garantir o bom funcionamento dos mercados.

Mas não recepciona a ideia que os mercados:

  1. são autorreguláveis,
  2. obedecem ao imperativo categórico kantiano e
  3. levam ao pleno emprego, nem aceita que
  4. há harmonia na sociedade.

Sabe:

  1. que ela é dividida em “ganhadores” e “perdedores” e
  2. que toda política econômica altera essa relação.

A sociedade democrática pretende combinar três objetivos não inteiramente compatíveis:

  1. liberdade individual,
  2. mitigação das desigualdades produzidas pelo acidente do local do nascimento e
  3. eficiência produtiva.

No Brasil só o exercício permanente e paciente da Política — acompanhado do esclarecimento da maioria (“perdedora”) — poderá vencer, nas urnas, o “ganhador”, o estamento estatal que se apropriou do poder [Quem?! Fora Temer?], o que permitirá a volta do crescimento inclusivo.

Fiquemos com a boa e modesta Economia e aceitemos que ela não é “Ciência”, mas pode ser muito útil na administração pública e privada.

Como confessou Alan Greenspan (“o maestro”, suposto portador da “Ciência Monetária” transformada em “Arte”) no seu depoimento ao Congresso dos EUA, em 23/10/2008, no auge da crise: “Ela é muito maior do que qualquer coisa que eu poderia ter imaginado… estou chocado e incrédulo. Cheguei à conclusão que nossos modelos [os do Fed]) não perceberam a estrutura crítica que define o funcionamento do mundo”. Você acredita que agora o Fed sabe o que está fazendo?

FNC: Você acredita que agora o Delfim sabe o que está dizendo?

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