Desinteresse pela Eleição

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Em São Paulo, aqueles que ainda não sabem a quem escolher, dizem que vão optar pelo voto em branco ou pretendem anulá-lo, somam 39% dos eleitores. Em Belo Horizonte vão a 41% e, no Rio chegam a 47%. É o que mostram as pesquisas espontâneas do Ibope, aquelas que mais guardam semelhança com a cabine, por não apresentarem a lista de candidatos ao eleitor.

Maria Cristina Fernandes (Valor, 29/09/16) informa que em oito das dez maiores cidades do país caiu o interesse pela eleição municipal. Este desinteresse aumenta a indefinição e torna as disputas mais imprevisíveis.

O Ibope começou a medir o grau de interesse do eleitor na disputa de 2012. Naquele ano esse colégio eleitoral das dez mais encontrou, em média, dois em cada dez eleitores completamente desconectados do resultado das urnas. Quatro anos depois, o desinteresse já ultrapassa a média de um quarto dos eleitores.

Disputas locais em cidades grandes sempre mobilizam menos. Uma explicação para isso é que as políticas públicas municipais afetam mais desigualmente a população do que aquelas conduzidas a partir do Poder Federal. Enquanto a inflação afeta a todos, os postos de saúde não são percebidos da mesma maneira nem mesmo pela população que os utiliza.

O que há de mais grave na pesquisa do Ibope é que a fatia da população com menos interesse na campanha é justamente aquela que mais depende das políticas públicas municipais de educação, saúde e transporte. Mulheres de baixa instrução e com renda de até um salário mínimo são as que menos estão ligadas nas urnas. Em São Paulo e em Belo Horizonte mais de um terço dos muito pobres não está nem aí. No Recife, o desinteresse daqueles que vivem com salário mínimo é o dobro daquele registrado entre os que têm renda cinco vezes maior.

Se confirmarem o alto grau de abstenção, votos em branco e nulos nas regiões mais desprovidas das grandes cidades as urnas da eleição municipal funcionarão como a prévia de um país, como muitos desejam, sem voto obrigatório. A decorrência natural do alheamento dos mais pobres do processo eleitoral seria a escassez de políticas públicas a eles direcionadas.

Pior coisa que pode ocorrer na democracia é os políticos profissionais (“as raposas que cuidam do galinheiro”) não terem o que temer: o voto do eleitor. Temer, o golpista, p.ex., sabe que a maioria dos eleitores o quer fora da cena política. Sendo assim, não se candidatará mais e, então, se dedica a implementar ao programa neoliberal perdedor nas quatro últimas eleições presidenciais. Tal ato não tem a menor legitimidade democrática. Mas por não temer o voto do eleitor, Temer se dedica a fazer o mal: cortar direitos sociais!

A conjuntura pautada pela escandalogia contribui para o alheamento político.

Pode se atribuir o desinteresse ao pouco volume de campanha encurtada em que os candidatos têm mais exposição pelos telejornais e pelos debates do que pela propaganda eleitoral gratuita.

Existe também uma avaliação oposta. Como o tempo somado dos comerciais, dos quais o eleitor dificilmente consegue se desvencilhar, passou de 30 para 70 minutos por dia, o desinteresse seria um sintoma do rechaço à mensagem dos candidatos.

As saídas também não poderiam ser mais distintas. De um lado, uma volta ao passado na política do aperto de mão, caminhadas, visitas a entidades, com a internet só beneficiando o candidato que vem de fora do sistema político, via vídeo. O alheamento seria fruto de regras como a do financiamento que empobreceram o marketing eleitoral.

Acha-se que não haverá clima no Congresso para restaurar um financiamento empresarial de certos candidatos, já que a Operação Lava-Jato diz ser, em grande parte, redistribuição de propina com origem em dinheiro público.

Militantes podem fazer nesta conjuntura de tanto desinteresse a diferença: “Nada produz mais voto que o entusiasmo”.

2 thoughts on “Desinteresse pela Eleição

    1. Prezado Neto,
      o eleitor necessita aprender a distinguir entre a grande Política — ação coletiva organizada em defesa de determinados interesses civis — e a pequena política mesquinha, paroquial e dinástica.
      att.

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