Discurso de Ódio Antipetista

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Busco entender, sem ainda compreender, as raízes mais profundas do discurso de ódio antipetista.

Empatia é a capacidade de entender e sentir o que outra pessoa está experimentando, partindo da perspectiva referencial que é pessoal a ela, ciente das próprias limitações em acurácia, sem confundir a si mesmo com o outro. Seria o exercício afetivo e cognitivo de buscar interagir, percebendo a situação sendo vivida por outra pessoa, além da própria situação pessoal.

Na Psicologia e na neurociência contemporânea, a empatia é uma espécie de inteligência emocional. Pode ser dividida em dois tipos:

  1. a cognitiva: relacionada com a capacidade de compreender a perspectiva psicológica das outras pessoas; e
  2. a afetiva: relacionada com a habilidade de experimentar reações emocionais por meio da observação da experiência alheia.

Levanto as seguintes hipóteses para se raciocinar não emocionalmente (em uma tentativa de racionalizar) a respeito da origem do discurso de ódio contra os milhares de eleitores — maioria nas quatro últimas eleições — e/ou simpatizantes petistas:

ÓDIO DE CLASSE:

A burguesia acharia que os petistas visam desbancá-la de seu poder econômico e político, enquanto a pequena-burguesia temeria sua proletarização, isto é, o empobrecimento da classe média, aproximando-a do nível de vida dos proletários?

A mobilidade social ocorrida na Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014), que diminuiu um pouco a concentração da renda do trabalho, porém não contrariou a tendência à concentração da riqueza. Isto justificaria esse ódio de classe concentrado sobre os petistas?

CONFLITOS DE INTERESSES ENTRE CASTAS:

socialdemocracia tropical (social-desenvolvimentismo) correspondeu a uma aliança eventual entre a casta dos trabalhadores formais, organizados em sindicatos e partidos, e a casta dos sábios, seja tecnocratas, seja intelectuais pregadores (professores, sacerdotes, artistas, etc.), contando de início com o apoio de representantes da casta dos comerciantes, particularmente, empreiteiros e banqueiros.

Os grupos sociais, vistos como castas, não são só organismos que buscam
o interesse próprio e a vantagem econômica.Também constituem encarnações de ideias e estilos de vida, que procuram impor aos outros.

Quando a casta dos trabalhadores organizados buscou impor seus valores às demais castas, posteriormente à sucessão do Lula, sentiu o peso do ódio e foi golpeada pela aliança de interesses entre a casta dos comerciantes-industriais, a casta de aristocratas-oligarcas dinásticos regionais, governantes de Estados e seus representantes parlamentares, a casta de guerreiros (policiais militares), e as dissidências da casta dos sábios, tanto tecnocratas, quanto membros do Poder Judiciário.

O ódio antipetista teria sido despertado pela quebra daquela aliança e seria o sentimento que justificaria o golpe parlamentarista?

ÓDIO RELIGIOSO:

antissemitismo se assenta em frágeis bases preconceituosas:

  1. diferenças religiosas entre judeus e cristãos da Antiguidade a respeito da figura do “salvador” de toda a humanidade,
  2. acusação pela crucificação de Jesus,
  3. usura – cobrança de juros só a “não-irmãos”, uma prática comum em diversas religiões –,
  4. Cruzadas e reconquista de territórios ocupados por árabes e judeus,
  5. a Inquisição e a conversão forçada de judeus em “cristãos-novos”,
  6. o não pertencimento a um Estado próprio até a criação do Estado de Israel na região da Palestina,
  7. a imputação dos efeitos da hiperinflação alemã e da crise de 1929 ao crescimento poder econômico dos judeus, etc.

Embora uma das raízes do PT tenha sido a teologia da libertação, em aliança com o sindicalismo, os movimentos sociais e intelectuais de esquerda, é possível afirmar que o antipetismo se assentaria, analogamente ao antissemitismo, em ódio aos ateus, descrentes de qualquer fé religiosa?

ÓDIO MORALISTA:

moralismo é a doutrina ou comportamento filosófico ou religioso que elege a moral como valor universal, em detrimento de outros valores existentes. No viés heurístico da auto-atribuição — onde a moral considerada correta é a própria e a incorreta, a dos outros diferentes de si –, a consideração moral é inconsistente:

  1. por estar separada do sentimento moral,
  2. por ser baseada em preceitos tradicionais irrefletidos, ou
  3. por ignorar a particularidade e a complexidade da situação julgada.

O moralismo justificaria a postura purista e o ódio antipetista, tipo “eu jamais me aliaria com aquela gente corrupta”?

ÓDIO DA EXCLUSÃO:

Os trabalhadores e artesãos com espírito comunitário ou corporativista excluem “os de fora”.

Uma conhecida máxima política diz que só se convoca uma convenção partidária quando tudo já está decidido pelo “comitê central”, formado pelos líderes de suas tendências, ou, em alguns casos, pelo cacique político criador (e na prática “dono”) do próprio partido. Evidentemente, ele pode “vender” algumas vagas ou mesmo ceder, “gratuitamente”, para alguns amigos ou parentes…

Todos “de dentro” serão futuros candidatos a cargos nomeados pela Nomenclatura, onde a “troca de favores” será retribuída, segundo o critério do “homem cordial”. Os “de fora” não possuem QI (Quem Indica) — e são excluídos.

Neste sentido, a sociedade brasileira tem tido a oportunidade de assistir, em governos de coalizão, a partilha de cargos no governo federal para se montar uma maioria base governista e não ser golpeado. Na nossa Tropicalização Antropofágica Miscigenada, misturou-se presidencialismo com parlamentarismo e ausência de cláusula de barreira para partidos se representarem no Congresso. Dado o risco de golpe parlamentarista, acirrou-se o “toma-lá-dá-cá” fisiológico.

No nosso mundo político-partidário, misturam-se também os poderes tecnocráticos e as trocas de favores pessoais, deixando de lado a meritocracia tão cara aos universitários. O critério técnico de mérito, esforço próprio e reputação profissional é substituído pelo de “laços afetivos (e efetivos)” com caciques de partidos.

No “governo do PT” (sic), na formação da base governista, bastou um simples diploma de curso superior para justificar a “competência” para o cargo?

ÓDIO AO APARELHAMENTO:

Constituição parlamentarista em regime presidencialista soma os defeitos de ambos os regimes:

  1. a fragilidade parlamentar do presidencialismo com
  2. a ausência de quadros técnicos bem formados e estáveis, na burocracia estatal, para blindar os ministérios, as empresas estatais, as fundações, etc. contra o assalto dos parlamentares ao butim.

Não é na liberação de emenda parlamentar que está o problema, mas sim em muitos viverem dos lucros da triangulação entre parlamentares, seus indicados na máquina de governo, e fornecedores ou empreiteiros de obras públicas que recebem mais pelo serviço que não prestam ou que custa menos.

O PT não repetiu a prática dos outros partidos?

ÓDIO RANCOROSO:

O Governo (re)eleito deseja colocar em prática suas concepções ideológicas. Uma política ideologicamente orientada, se for potencialmente impopular, só será colocada em prática se o governo tiver certeza de ser reeleito, isto é, se seu nível de popularidade estiver acima de um determinado nível mínimo. Se sua popularidade estiver abaixo deste nível mínimo, o governo vai começar a ter medo de não conseguir a reeleição ou a sucessão por um “herdeiro político”.

Nesse caso, à véspera da nova eleição, ele fará um esforço para aumentar sua popularidade, implementando uma política expansionista, aumentando os gastos públicos, de forma a reduzir o desemprego e aumentar o crescimento da renda, ou melhorando a qualidade dos serviços públicos na área de segurança, educação e saúde. Naturalmente, a situação será diferente se a taxa de inflação já existente for muito alta. Neste caso, o governo pensará que poderá ser vantajosa para si a implementação de uma política deflacionária.

Sábios-tecnocratas, como a Dilma, trazem a burocratização ou a presunção arrogante típica dos especialistas. Quando aconselhados por líder dos trabalhadores, com forte espírito comunitário ou corporativista, excluem o aconselhamento de “os de fora”. Caem nos vieses heurísticos da auto atribuição — atribuem o sucesso a si próprio e culpam os outros por eventual fracasso — e da auto validação — só conversam com quem pensa igual.

O estelionato eleitoral ocorreu quando, em 2015, colocou no comando do Ministério da Fazenda, dividindo o poder com um sábio-tecnocrata no Ministério do Planejamento, um legítimo representante da ideologia neoliberal da casta dos mercadores. Esta ideologia mantém intocada a disparidade do juro brasileiro e provoca a instabilidade econômica e a elevação das desigualdades sociais em favor de:

  1. um ajuste fiscal para garantir a solvabilidade da dívida pública, demanda principal dos rentistas,
  2. um ajuste cambial para garantir a competitividade dos industriais, demanda principal dos novos-desenvolvimentistas,
  3. um ajuste na relação entre salários e lucros, principal crítica dos social-desenvolvimentistas.

A casta dos guerreiros foi à rua através de Vem Prá Rua, Revoltados Online, MBL (Movimento Brasil Livre), pois eles atiçam guerras intermináveis por honra e vingança contra os democratas que derrubaram sua saudosa ordem-unida da ditadura militar. A direita perdeu a vergonha e “saiu do armário”, de maneira organizada, contando inclusive com financiamento externo.

ordem social desmorona quando seu governante acredita que está fracassando – e, sob pressão, adota profundas reformas de acordo com o credo oposto. A base eleitoral do governo reeleito se sentiu traída pela adoção do programa da oposição derrotada em 2014. Dilma não conseguiu apoio dos mercadores e perdeu o apoio dos trabalhadores em 2015, solidários em 2016.

Muitos ex-petistas não acharam tudo isso odioso e guardam rancor — sentimento de profunda aversão provocado por experiência vivida, forte ressentimento, ódio profundo não expresso?

ÓDIO AO APADRINHAMENTO POLÍTICO:

No Distrito Federal, o apadrinhamento político parece ser normal, especialmente no Congresso Nacional, que abriga verdadeiros clãs encabeçados por funcionários que entraram por meio de “trem da alegria”, ascenderam a postos-chaves, e agora empregam mulheres, maridos, filhos, irmãos e agregados em cargos de confiança – sem a necessidade de concurso público. Têm salários muito superiores ao de qualquer Professor-Titular, que estudou durante vários anos e passou em todos os concursos públicos, com defesa de tese, obrigatórios para ascender na carreira universitária.

Os nomes de senadores ou deputados de outros partidos estão ligados à maioria dos clãs ou dinastias políticas, sendo os padrinhos da indicação da maioria de seus afilhados, inclusive em cargos públicos supostamente técnicos, cujo acesso deveria ser por mérito.

O PT teria aceitado e praticado, intensamente, essa “regra-do-jogo político brasileiro”, indo contra seu discurso original, tendo assim decepcionado a esperança nele depositada?

ÓDIO DA VITIMIZAÇÃO:

Valor (26/09/16): O PT acusa Temer de traição. Qual foi o papel do vice?

Eduardo Cunha: “Você tem que pensar o seguinte: é um momento no país muito complicado, tendo uma Constituição parlamentarista num regime presidencialista. Metade dos presidentes eleitos depois da ditadura foram impedidos. Tem que entender isso tudo. Não pode rotular, ficar fora do contexto. Tem que ter um contexto geral para se entender a visão do que aconteceu e cada um tirar a sua conclusão. Não se pode rotular nem de uma coisa nem de outra.”

Cunha: “Essa foi a maneira que ela [Dilma] encontrou para criar o clima de que a gente estava trabalhando para incendiar e se vitimizar. Sempre foi a tônica dela. Sempre é vítima. Vítima de chantagem, vítima de pauta-bomba, vítima de não sei o quê. É a tônica do PT se vitimizar“.

Vitimização, segundo o blog Resenha Virtual, é ato ou efeito de (se) transformar em vítima. Auto-vitimização acontece quando uma pessoa ou instituição se coloca no papel de vítima ou pessoa perseguida para anular críticas, opiniões ou objeções contra as quais não consegue contra-argumentar.

Auto-vitimização é um tipo de manipulação de natureza emocional que ocorre quando se esgotam os argumentos e o debate precisa ser suspenso por por falta de lógica em seus posicionamentos.

Esse tipo de comportamento pode ocorrer em diversos contextos na vida, mas se conseguirmos identificá-lo é necessária a extinção deste comportamento, pois ele é prejudicial tanto para a vida pessoal como na vida profissional ou institucional-partidária. Em nossas relações humanas, todos nós estamos sujeitos a cair nesta armadilha emocional.

Na maior parte dos casos, a suposta “vítima” confunde ideias com sentimentos, ideologias com pessoas, apologética com ofensa pessoal, e no fundo revela certa falta de modéstia em admitir que simplesmente pode estar errada.

No pior cenário, a auto-vitimização é uma espécie de desonestidade intelectual, pois quem defende suas ideias se torna o grande vilão, e o que se vitimiza pode conseguir adeptos que são exatamente como ele: “vítimas” de um sofrimento virtual que só tem plausibilidade na teimosa da sua imaginação. A auto-vitimização precisa de uma plateia para funcionar.

A auto-vitimização é um traço que aparece com muita frequência no discurso das pessoas que tendem a apresentar a fantasia de que não são responsáveis por nenhuma parcela do próprio sofrimento. Essas pessoas estão sempre colocando a “culpa” de seus problemas no governo, na economia, no partido, ou até mesmo na sorte.

Essa percepção justificaria o ódio antipetista?!

ÓDIO RECÍPROCO:

Será que o discurso de ódio não é igual e contrário?

Por causa de diferenças políticas, sociais, morais, religiosas, etc., os odientos em uma conjuntura de sofrimento, devido à crise econômica mundial, exigem um bode-expiatório para crucificar?

Em sentido figurado, um “bode expiatório” é alguém que é escolhido arbitrariamente para levar sozinho a culpa de uma calamidade, crime ou qualquer evento negativo, embora não o tenha cometido.

A busca do bode expiatório é um ato irracional de determinar que uma pessoa ou um grupo de pessoas, ou até mesmo algo, seja responsável de um ou mais problemas sem a constatação real dos fatos. Esse recurso é um importante instrumento de propaganda política.

Grupos usados como bodes expiatórios foram (e são) muitos ao longo da História, variando de acordo com o local e o período.

Aqui e agora, a caça às bruxas ocorre sobre petistas?

POST-SCRIPTUM:

Discurso de ódio é qualquer discurso, gesto ou conduta, escrita ou representada que seja proibida:

  1. porque pode incitar violência ou ação discriminatória contra um grupo de pessoas ou
  2. porque ela ofende ou intimida um grupo de cidadãos.

A lei pode tipificar as características que são passíveis de levar a discriminação, como raça, gênero, origem, nacionalidade, orientação sexual ou outra característica artificial, como a ideológico-partidária.

Discursos de ódio devem ser proibidos pela lei. Essas proibições não ferem o princípio de liberdade de expressão já que eles constituem uma expressão que espalha, incita, promove ou justifica ódio racial, xenofobia, anti-semitismo ou qualquer outra forma de intolerância. É uma intolerância causada por nacionalismo agressivo e etnocentrismo, discriminação e hostilidade contra minorias, migrantes e pessoas de origem estrangeira.

O discurso de ódio, ao contrário de outras expressões da sociedade democrática, não visa ao diálogo e busca apenas silenciar, quando não suprimir, a expressão de minorias. De forma geral, o discurso de ódio silencia a vítima e não permite que ela se expresse livremente.

É crime insultar, difamar e incitar ódio contra segmentos da população ou invocar ações violentas ou arbitrárias contra eles. Na Alemanha, por exemplo, é proibido negar o holocausto e glorificar o regime nazista.

Por que se tolera, no Brasil, o discurso de ódio antipetista, assim como houve o anticomunista?

Este imperou desde a cassação do registro legal do Partido Comunista Brasileiro, em 1947, até 1985. Com o fim da ditadura militar e o início da Nova República, tanto o PCB como o PCdoB voltaram a funcionar como partidos políticos legais.

Os golpistas inimigos da democracia visam repetir a experiência anticomunista dos anos 40 do século XX e inviabilizar o PT no século XXI?!

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