Esquerda Brasileira = Esquerda Europeia: Conjuntura não é de Centrismo, mas sim de Resistência ao Neoliberalismo

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A avaliação do governo golpista do Michel Temer, segundo os dados da pesquisa CNI/Ibope divulgada hoje, continua ruim/péssimo para 39% dos entrevistados, tal como registrado anteriormente. Para 34%, o governo é regular – esse percentual era de 36% na última pesquisa, quando Temer ainda era presidente interino.

A aprovação pessoal do presidente golpista variou negativamente, de 31% para 28%, no mesmo período. Somam 55% os que desaprovam a maneira de governar, ante 53% em junho.

A confiança da população em Michel Temer teve piora na avaliação: 26% confiam e 68% não confiam no vice-presidente traidor. Esses percentuais eram 27% e 66%, respectivamente.

Segundo a pesquisa, 31% consideram o governo golpista de Temer pior que o democrático de Dilma, 24% dos entrevistados golpistas consideram o governo Temer melhor. Para 38%, as duas gestões são iguais. No levantamento anterior, 44% consideraram que as duas administrações eram iguais e 25% preferiam o governo Dilma.

A CNI/Ibope ressalta que, entre os que avaliam que o governo melhorou com Temer, estão principalmente os “reaça” residentes da região Sul (nativistas fãs da “República de Curitiba”) e entrevistados com renda familiar superior a cinco salários mínimos. Residentes da região Nordeste e aqueles com renda familiar até um salário mínimo compõem a maior parte dos que consideram que o governo piorou com a saída de Dilma Rousseff.

O levantamento mostrou ainda que aumentou a perspectiva negativa da população sobre o futuro do governo usurpador. Para 38% dos entrevistados, o restante da gestão do peemedebista golpista será ruim ou péssima – em junho, eram 35%.

Esta percepção negativa deverá aumentar muito, haja vista que, depois do eleitorado das metrópoles votar para o PMDB “vazar”, o governo golpista está propondo corte nas pensões por morte para 50% a 60% do vencimento integral do cônjuge. A geração de mulheres que se dedicou, exclusivamente, ao trabalho doméstico penará!

Outro corte de direitos sociais, a ser aprovado pelo Congresso golpista, será a desvinculação do salário mínimo dos Benefícios de Prestação Continuada (BCP), pagos a idosos com mais de 65 anos e pessoas com deficiência que não possuem meios de sustento. A ideia é que o BPC passe a ser corrigido por um índice de preços. Os idosos pobres e os deficientes penarão!

Essas são as alterações que devem constar da proposta de reforma da Previdência Social pelo governo sem legitimidade democrática. A idade mínima para homens e mulheres se aposentarem será de 65 anos, tanto para os trabalhadores do setor privado quanto do setor público, mas o tempo de transição será diferente. Os homens terão transição de 15 anos para a nova exigência de idade mínima. Já mulheres e professores, 20 anos.

A nova regra só valerá, se aprovada pelo Congresso, para homens com menos de 50 anos e mulheres com menos de 45 anos na data de promulgação da emenda. Trabalhadores com mais de 50 anos continuarão a se aposentar com base no regime atual, acrescido, porém, de um “pedágio” equivalente a 50% do tempo restante até a aposentadoria. Se o trabalhador tiver, por exemplo, direito de se aposentar em quatro anos, seria obrigado a trabalhar seis anos.

Com a reforma, os trabalhadores rurais terão que contribuir para a Previdência, embora com um valor fixo e quase simbólico.

Uma discussão simultânea à conclusão da PEC diz respeito à elevação da contribuição dos servidores públicos, dos atuais 11% para 14% do salário bruto. Embora o déficit da Previdência do funcionalismo seja proporcionalmente mais elevado que o dos trabalhadores da iniciativa privada, não há consenso sobre esse aumento.

Todo esse corte de direitos sociais só se justifica pela prioridade concedida pelos golpistas a garantir um governo solvível em termos financeiros, i.é, que pode pagar o que deve, no caso, a disparidade do juros brasileiros mantida por ação arbitrária e discricionária do Banco Central do Brasil.

Os encargos financeiros da dívida pública representam mais de 3/4 do déficit nominal brasileiro. O déficit primário, que inclui os gastos correntes e os gastos sociais, representa menos de 1/4. E a prioridade dos golpistas é garantir a renda do capital financeiro e extrair renda dos trabalhadores, sejam ativos, sejam inativos!

Enquanto esses cortes de direitos sociais acontecem em Terrae Brasilis, Wolfgang Münchau (FT apud Valor, 04/10/16) avalia, criticamente, a opinião de alguns experts políticos europeus que  dizem que os partidos de centro-esquerda só pode ganhar as eleições a partir do centro. Reproduzo seu artigo abaixo para comparação com o que ocorre na Europa.

“Será que isso é verdade? Muitos experts, eu inclusive, tivemos nossos anos de formação a partir da década de 80. Os partidos de centro-esquerda bem-sucedidos nesse período se definiram não como uma alternativa ao capitalismo mundial transacional, mas para redistribuir seus despojos. Seus líderes – Bill Clinton nos EUA, Tony Blair no Reino Unido, Gerhard Schröder na Alemanha, entre outros – eram em sua maioria centristas.

Mas o que funcionou nesse época não é uma verdade universal. Por exemplo, governos social-democratas moderados, pró-establishment, na Alemanha nas décadas de 1920 e 1930 foram terrivelmente malsucedidos. O principal paralelo entre hoje e a década de 1930 é o modo como as democracias reagem a longos períodos de austeridade. Partidos extremistas vencem quando os partidos tradicionais não oferecem alternativas.

Em uma história que deveria ser um alerta a partidos de centro-esquerda, o SPD (social-democracia) na República de Weimar viu sua votação cair de 37,9%, em 1919, para 18,3% em março de 1933, as últimas eleições livres. Nesse período, o partido tornou-se cada vez mais centrista, terminando por apoiar políticas econômicas deflacionárias. Essa foi uma decisão catastrófica, porque levou os eleitores a apoiar os nazistas e os comunistas.

Vários partidos social-democratas e socialistas na UE têm apoiado políticas de austeridade desde a crise financeira e agora estão pagando o preço político. Os democratas nos EUA, o New Labour no Reino Unido e o SPD na Alemanha estavam entre os mais entusiasmados com a desregulamentação dos mercados financeiros. O SPD, além disso, endossou o pacto de estabilidade da zona do euro e a lei de equilíbrio orçamentário na Alemanha, que vigora desde 2011. O fato de o partido não ter aprendido com sua própria história é surpreendente. Embora o discurso do SPD defenda mais investimentos em infraestrutura, ele não tem como materializar isso devido à sua adesão ao orçamento equilibrado.

Não me surpreende que o centro-esquerda na Alemanha e no Reino Unido estejam em dificuldade para vencer eleições. Não sabemos se Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista britânico, conseguirá se tornar premiê. O que sabemos é que seus predecessores mais moderados não conseguiram, ao menos não desde o início da crise financeira, um dos maiores eventos econômicos de nosso tempo e que redefiniu a política.

Aonde isso nos conduz? De um ponto de vista econômico, não há nada de extremado no argumento em favor de grandes programas de investimentos, em especial após anos de consolidação fiscal. Mas o único partido político tradicional que oferece essa escolha na Europa é o de Corbyn, que promete gastar 500 bilhões de libras. Na Alemanha, só o Partido de Esquerda, sucessor dos comunistas da Alemanha Oriental, defende grandes aumentos nos investimentos. No resto da Europa, só nos extremos do espectro político há partidos que aprovam mais estímulo fiscal.

Assim, quando um partido tradicional, como o Trabalhista, oferece uma mudança de política macroeconômica que têm a chance de acabar com o nosso mal-estar pós-crise, isso deveria ser levado a sério. Se os conservadores, no poder, não conduzirem bem o Brexit, o que pode acontecer, as próximas eleições em 2020 poderão se tornar uma disputa aberta a todos.

Na zona do euro, as opções são ainda mais extremas. Os cidadãos só têm dois caminhos para mais investimentos.

O primeiro é deixar o euro, a única forma jurídica de um país escapar das regras fiscais que restringem investimentos em nível nacional. Essa é a opção oferecida por partidos extremistas.

A segunda opção seria um programa de investimentos centralmente administrado em toda a zona do euro, financiado pela emissão de títulos comuns de dívida ou, mais cruamente, pela impressão de dinheiro. As emissões de eurotítulos e a monetização da dívida são consideradas politicamente irrealistas, tendo em vista a oposição da Alemanha. Então, a não ser que você opte por partidos extremistas, não há opções no mundo real.

E quanto ao próprio programa de investimento da Comissão Europeia? Sob exame mais detido, ele transformou-se em um exercício ilusório, uma irrelevância macroeconômica subfinanciada.

Minha expectativa é que a política irá ajustar-se às necessidades econômicas, como aconteceu na década de 1980, mas desta vez na direção contrária. Há uma chance de que isso possa acabar como na década de 1930. O desfecho é difícil de prever. Minha certeza é que o consenso esmagador em favor de grandes políticas econômicas libertárias centristas está se esfacelando, e que terá um impacto sobre o modo como encararemos líderes como Corbyn.”

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