50 Anos da UNICAMP

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Aqui cheguei em 1975 para cursar a segunda turma de Mestrado em Economia ainda no IFCH. Depois de defender a dissertação em 1978, trabalhei sete anos no IBGE, situado no Rio de Janeiro. Voltei para fazer o doutoramento em 1985, fui logo convidado para ser Professor do IE-UNICAMP, então recém-criado, e cá estou até hoje, há mais de 30 anos como docente orgulhoso de minha Universidade!

Sou quase testemunho-ocular de quase toda sua história. E pelo ambiente de prazer que tenho com minha atividade intelectual nela realizada, adio minha aposentadoria…

Fundada em 1636, Harvard é a mais antiga instituição de ensino superior dos Estados Unidos. A Universidade do Brasil (atual UFRJ) foi a primeira universidade federal criada no país em 1920. A Universidade de São Paulo (USP), a maior universidade pública brasileira, só se tornou Universidade no dia 25 de janeiro de 1934. Embora a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) tenha sido criada por lei em 28 de dezembro de 1962, o trabalho no novo campus começou no dia 5 de outubro de 1966. Há apenas 50 anos!

É ainda muito jovem em comparação com outras consagradas Universidades. Já realizou muito neste meio século, porém tem desafios muito maiores para enfrentar. Entre outros, colaborar para este País virar uma Nação desenvolvida, tendo uma democracia social e política consolidada e nunca mais golpeada!

Leia o excelente artigo de Leandro Karnal publicado no Estadão (09/10/16):

Universidades e Sociedade

Cinco de outubro de 1966: há 50 anos foi lançada a pedra fundamental do câmpus da Universidade Estadual de Campinas. Foi concebida por dois médicos: o governador Ademar de Barros e, em especial, Zeferino Vaz. A Unicamp tornou-se a terceira filha universitária do Estado de São Paulo. Tendo galgado de forma rápida o posto de uma das mais importantes instituições de ensino superior do Brasil, ela chega ao cinquentenário com desafios enormes e conquistas impressionantes.
O conceito de universidade completou mil anos no Ocidente cristão. Bolonha (Itália), no século 11, foi a primeira instituição europeia de ensino superior. Havia similares mais antigas no mundo islâmico e oriental.

Universidades sempre foram parte (nunca o todo) da produção e transmissão do conhecimento. William Shakespeare nunca sentou no banco de uma. Espinosa viveu entre lentes no seu sótão batavo. Oswald de Andrade não conseguiu ser aprovado em concurso para o quadro docente universitário. O mercado, as empresas, os gênios isolados, os artistas autônomos, as instituições religiosas e obscuros bares acolhem, com generosidade, outras cotas da incansável inventividade humana.

Vou atenuar a iconoclastia do parágrafo anterior: nomes fundamentais do pensamento, como Tomás de Aquino e Einstein, engendraram parte das suas ideias dentro de grandes instituições de ensino superior. Se houve muitos gênios extramuros, também devemos ressaltar que o grosso da transmissão da técnica que possibilita a existência de engenheiros, médicos, químicos e historiadores é, hoje, quase exclusivamente universitária.

Sou filho da universidade e inserido num mundo específico, o das Humanas.

Somos uma tribo exótica, que desperta certo interesse e alguma rejeição. Exemplifico: estive em determinado concurso para professores numa instituição federal de São Paulo. Por uma série de fatores, o presidente da banca era um médico. Os outros colegas julgadores eram historiadores. Diante da nossa prolongada discussão sobre um conceito na prova de uma candidata, o presidente exclamou, impaciente: – Se eu demorasse tanto tempo para decidir algo, meus pacientes já teriam morrido! Expliquei ao renomado doutor: – A nossa felicidade é que somos historiadores, todos os nossos pacientes já estão mortos. Ele riu. Éramos estranhos, mas bem-humorados…

Saiamos do meu igarapé de devaneio e voltemos ao rio principal. Existe, hoje, como parte de um momento muito específico, um anti-intelectualismo crescente. Ele sempre existiu em ditaduras como o nazismo ou na Revolução Cultural Chinesa: uma desconfiança do caráter perigoso e pouco prático do pensamento especulativo. O anti-intelectualismo é uma mistura de irracionalidade e autoritarismo. Não se trata apenas de reconhecer o que já afirmei (a universidade não é a única a produzir conhecimento), mas de uma negativa de que ela seja útil ou focada no conhecimento.

O símbolo do ódio à reflexão é a queima pública de livros. As fogueiras ocorreram tanto na China imperial como na socialista. A mais famosa cena foi a 10 de maio de 1933, quando os nazistas queimaram milhares de livros ditos “semitas” como os de Freud ou Thomas Mann. Começava, então, a cumprir-se a profecia de Heinrich Heine: onde se queimam livros, ainda se queimarão pessoas. Coisa de ditaduras? Nem sempre: no país das melhores universidades do mundo, os discursos de Donald Trump são a encarnação do anti-intelectualismo.

Por vezes, trata-se unicamente de ressentimento. Combate-se o que não se possui ou o que não se entende. Ataca-se por, no fundo, desejar ardentemente. Há muitas raposas a declarar as uvas distantes e inaptas ao consumo.
Identifico algo além de raposas ressentidas. Há uma onda de repulsa em relação aos questionamentos de paradigmas tradicionais. Existe uma vontade de associar o debate a uma guerra a valores pretensamente imutáveis e sagrados.

O anti-intelectualismo não é uma nova razão ou um combate aos argumentos racionais. Ele é uma forma de estar no mundo e recusa à ciência como o “estado atual dos nossos erros”, na acepção do universitário Einstein. Opõe a opinião à pesquisa, o saber desencarnado e individual ao árduo processo de verificar hipóteses e aprofundar temas. Formar um médico ou um filósofo implica anos de leituras, reflexões, práticas, debates. O universo da cada saber é vasto e ainda demanda o conhecimento de línguas e um esforço titânico para captar, compreender, associar, relacionar e aplicar os conceitos essenciais.
Como eu disse desde o começo, há saberes igualmente sólidos que não dependem da universidade, mas esses e aqueles dependem de esforço sistemático e longo. Não estou opondo o saber universitário ao conhecimento autônomo ou um erudito a um popular; mas o saber ao não-saber; a reflexão crítica e sistemática a uma espécie de “achismo” nascido de egos densos no ressentimento e rasos na reflexão.

Um dia, numa formatura na Unicamp, dividi com o professor Octavio Ianni o posto de paraninfo. Lá ouvi o cientista social dizer que a liberdade era a condição fundamental para pensar e que a universidade pública era um espaço privilegiado para isso. Por sugestão minha, a biblioteca do IFCH tem o nome do professor Ianni. Que os próximos 50 anos da Unicamp encontrem muitos professores como ele!

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