A Lógica do Cisne Negro: O Impacto do Altamente Improvável

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NASSIM NICHOLAS TALEB, parte ensaísta literário, parte empirista, parte operador de ações objetivo, dedicou a vida a mergulhar nos problemas da sorte, da incerteza, da probabilidade e do conhecimento. Taleb nasceu em uma família greco-ortodoxa, no Líbano. Trabalhou como operador de derivativos em sua própria firma e em firmas de Wall Street, e como operador no pregão de Chicago antes de optar por buscas mais contemplativas e, como costuma dizer, “não transacionais”. Fez mestrado na Wharton School e doutorado na Universidade de Paris.

Nassim Nicholas Taleb, no livro A Lógica do Cisne Negro: O Impacto do Altamente Improvável (1. ed. – Rio de Janeiro: Best Seller, 2015), publicado originalmente em inglês no ano 2007, quando se iniciava o processo da esperada explosão da bolha imobiliária nos Estados Unidos, tornou-se logo um livro famoso pela Teoria da Aleatoriedade nele apresentada. Embora seja um ensaio de um autor muito prolixo – e até repetitivo –, quando se engata a leitura, adequando-se ao seu estilo, ele contém insights muito incitantes.

Vou tentar sumariar alguns que serão úteis para meus cursos de Metodologia de Análise Econômica e Economia Interdisciplinar.

“Antes da descoberta da Austrália, as pessoas do Antigo Mundo estavam convencidas de que todos os cisnes eram brancos. Esta era uma crença inquestionável por ser absolutamente confirmada por evidências empíricas. Deparar-se com o primeiro cisne negro pode ter sido uma surpresa interessante para alguns ornitólogos (e outras pessoas extremamente preocupadas com a coloração dos pássaros), mas não é aí que está a importância dessa história.

Ela simplesmente ilustra uma limitação severa no aprendizado por meio de observações ou experiências e a fragilidade de nosso conhecimento. Uma única observação pode invalidar uma afirmação originada pela existência de milhões de cisnes brancos. Tudo que se precisa é de um único pássaro negro”.

Nassim Taleb transporta essa questão lógico-filosófica para uma realidade empírica que tem o obcecado desde a infância. O que chama de Cisne Negro (com iniciais maiúsculas) é um evento com os três atributos descritos a seguir.

Primeiro, o Cisne Negro é um outlier – representa os dados espúrios em uma amostra estatística –,  pois está fora do âmbito das expectativas comuns, já que nada no passado pode apontar convincentemente para a sua possibilidade.

Segundo, ele exerce um impacto extremo.

Terceiro, apesar de ser um outlier, a natureza humana faz com que desenvolvamos explicações para sua ocorrência após o evento, tornando-o explicável e previsível.

Taleb resume o terceto:

  1. raridade,
  2. impacto extremo e
  3. previsibilidade retrospectiva (mas não prospectiva).

Um pequeno número de Cisnes Negros explica quase tudo no mundo, do sucesso de ideias e de religiões às dinâmicas de eventos históricos e a elementos de nossas vidas pessoais.

Tal combinação de baixa previsibilidade e grande impacto transforma o Cisne Negro em um grande quebra-cabeça — mas isso ainda não é o foco principal deste livro. Acrescente a esse fenômeno o fato de que tendemos a agir como se ele não existisse!

Taleb está se referindo a quase todos os “cientistas sociais” que, por mais de um século, operaram sob a crença falsa de que as ferramentas deles poderiam medir a incerteza. Afirma isso porque as aplicações das ciências da incerteza a problemas do mundo real tiveram efeitos ridículos.

Teve o privilégio de testemunhar isso nas Finanças e na Economia. Pergunte ao gerente de sua carteira de títulos como ele definiria “risco”, e são grandes as chances de que ele forneça a você uma medida que exclui a possibilidade do Cisne Negro — ou seja, algo que não tem mais valor preditivo do que a astrologia para avaliar os riscos totais.

Taleb mostra como eles enfeitam a fraude intelectual com Matemática. Esse problema é endêmico em questões sociais.

A ideia central deste livro é abordar nossa cegueira em relação à aleatoriedade, particularmente os grandes desvios:

  • por que motivo nós cientistas ou não, figurões ou caras comuns, tendemos a ver os centavos em vez dos dólares?
  • Por que continuamos a nos concentrar nas minúcias e não nos eventos significativamente grandes que são possíveis, apesar das provas óbvias de sua influência gigantesca?
  • E se você acompanhar o argumento de Taleb, por que motivo ler jornais, na verdade, reduz seu conhecimento sobre o mundo?

É fácil ver que a vida é o efeito cumulativo de um punhado de choques significativos.

A lógica do Cisne Negro torna o que você não sabe mais relevante do que aquilo que você sabe. Leve em consideração que muitos Cisnes Negros podem ser causados ou exacerbados por serem inesperados.

A incapacidade de se prever outliers implica na incapacidade de se prever o curso da história, dada a participação de tais eventos na dinâmica dos acontecimentos.

No entanto, agimos como se fôssemos capazes de prever eventos históricos, ou, ainda pior, como se fôssemos capazes de mudar o curso da história. Produzimos projeções de déficits da Previdência Social e de preços de petróleo para daqui a trinta anos, sem perceber que não podemos prevê-los nem mesmo para o próximo verão — nossos erros de previsão cumulativos para eventos políticos e econômicos são tão gritantes que preciso me beliscar para ter certeza de que não estou sonhando sempre que observo o registro empírico.

O que é surpreendente não é a magnitude de nossos erros de previsão, mas sim nossa falta de consciência dela. Isso é ainda mais preocupante quando nos envolvemos em conflitos mortais: as guerras são fundamentalmente imprevisíveis (e não sabemos disso). Devido a essa incompreensão das cadeias causais entre política e ações, podemos disparar facilmente Cisnes Negros graças à ignorância agressiva.

A incapacidade de se fazer previsões em ambientes sujeitos ao Cisne Negro, aliada à ausência geral de consciência dessa condição, significa que certos profissionais, apesar de acreditarem ser experts, na verdade não o são. Com base em seu registro empírico, eles não sabem mais sobre a própria área de estudos do que a população geral, mas são muito melhores em narrar — ou, ainda pior, em impressionar com modelos matemáticos complicados. Eles também são mais inclinados a usar gravatas.🙂

Como os Cisnes Negros são imprevisíveis, precisamos nos ajustar à sua existência (em vez de, inocentemente, tentar prevê-los). Existem muitas coisas que podemos fazer se nos concentrarmos no anticonhecimento ou no que não sabemos. Entre muitos outros benefícios, você pode se preparar para colecionar Cisnes Negros serendipitosos (do tipo positivo) maximizando a exposição a eles.

Na verdade, em alguns campos — como o da descoberta científica e o de investimentos de risco —, o desconhecido oferece uma recompensa desproporcional, já que, tipicamente, tem-se pouco a perder e muito a ganhar com um evento raro.

Veremos que, contrário à sabedoria das Ciências Sociais, quase nenhuma descoberta, nenhuma tecnologia importante, foi fruto de projetos e de planejamento — foram apenas Cisnes Negros. A estratégia para os descobridores e empreendedores é:

  1. contar menos com um planejamento estruturado,
  2. focalizar no máximo de experimentação e
  3. reconhecer as oportunidades quando elas surgem.

Portanto, Taleb discorda dos seguidores de Marx ou de Adam Smith: o motivo pelo qual o livre-comércio funciona é porque ele permite que as pessoas tenham sorte, graças a tentativas e erros de caráter agressivo, e não por conceder recompensas ou “incentivos” pela técnica.

Logo, a estratégia é experimentar o máximo possível e tentar colecionar o maior número possível de oportunidades de Cisnes Negros.

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