Aprendendo a Aprender

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Nassim Nicholas Taleb, em “A lógica do Cisne Negro: O impacto do altamente improvável”, afirma que outro impedimento relacionado aos humanos vem do foco excessivo no que sabemos: tendemos a aprender o específico, não o geral.

Nós não aprendemos espontaneamente que não aprendemos que não aprendemos. O problema está na estrutura de nossas mentes: não aprendemos leis, mas fatos, somente fatos. Não parecemos bons em assimilar metaleis (como a lei que diz que temos uma tendência a não aprender regras). Desdenhamos do abstrato; desdenhamos dele com fervor.

Por quê? Torna-se necessário dizer que seu propósito no restante do livro é colocar a sabedoria convencional de ponta-cabeça e demonstrar o quão inaplicável ela é ao nosso ambiente moderno, complexo e cada vez mais recursivo. Aqui, recursivo quer dizer que o mundo em que vivemos possui um número crescente de ciclos de retroalimentação, o que faz com que eventos sejam a causa de mais eventos.

Por exemplo, em um efeito rede de relacionamentos, pessoas compram um livro porque outras pessoas o compraram, resultando na geração de bolas de neve e efeitos de alcance planetário do tipo “o vencedor leva tudo”, arbitrários e imprevisíveis. Vivemos em um ambiente onde a informação flui rápido demais, acelerando tais epidemias.

Da mesma forma, eventos podem acontecer porque não devem acontecer. Nossas intuições são feitas para um ambiente com causas e efeitos mais simples e com informação que se move lentamente. Esse tipo de aleatoriedade não prevalecia durante o passado, já que nele a vida socioeconômica era muito mais simples.

As evidências mostram que pensamos muito menos do que acreditamos — exceto, é claro, quando pensamos a respeito.

“Todos sabem que prevenção é mais necessária do que o tratamento, mas poucos recompensam atos preventivos. Glorificamos aqueles que deixam os nomes nos livros de história à custa de colaboradores sobre quem os livros ficam em silêncio. Nós humanos não somos apenas uma raça superficial (o que pode ser curável, até certo ponto); somos uma raça muito injusta”.

Este livro de autoria de Nassim Nicholas Taleb, “A lógica do Cisne Negro: O impacto do altamente improvável”, é um livro sobre incerteza. Para o autor, um evento raro equivale a incerteza.

Essa declaração pode parecer forte — que precisamos estudar principalmente os eventos raros e extremos para que seja possível decifrar os eventos comuns —, mas Taleb esclarece a seguir.

Existem duas formas possíveis de se abordar fenômenos.

A primeira é excluir o extraordinário e concentrar-se no “normal”. O examinador deixa de lado as “peculiaridades” e estuda casos comuns.

A segunda abordagem é considerar que para que se possa compreender um fenômeno é necessário levar em conta primeiro os extremos — especialmente se, como o Cisne Negro, eles carregarem um efeito cumulativo extraordinário.

Taleb não se importa particularmente com o comum. “Na verdade, o normal costuma ser irrelevante”.

Quase tudo na vida social é produzido por choques e saltos raros mas consequentes. Enquanto quase tudo que é estudado sobre a vida social é centrado no “normal”, particularmente com métodos de dedução do tipo “curvas na forma de sino” que não revelam praticamente nada.

Por quê? Porque a curva na forma de sino ignora grandes desvios, sendo incapaz de lidar com eles, e ainda assim faz com que nos sintamos confiantes de termos domado a incerteza. Seu apelido neste livro é a Grande Fraude Intelectual (GIF — Great Intellectual Fraud — na sigla em inglês).

O que muitas pessoas rotulam e ao que atribuem valor como sendo “desconhecido”, “improvável” ou “incerto” não representa a mesma coisa para Taleb — não é uma categoria precisa do conhecimento, uma área nerdificada, e sim o oposto disso: é a ausência (e limitações) do conhecimento. É o contrário exato do conhecimento; dever-se-ia aprender a se evitar usar termos feitos para o conhecimento a fim de descrever seu oposto.

O que Taleb chama de platonismo, em função das ideias (e da personalidade) do filósofo Platão, é nossa tendência a confundirmos o mapa com o território, a concentrarmo-nos em formas” puras e bem definidas, sejam elas objetos, como triângulos, ou noções sociais, como utopias (sociedades construídas a partir de um plano do que “faz sentido”), até mesmo nacionalidades. Quando essas ideias e constructos concisos habitam nossas mentes, damos prioridade a eles em face de outros objetos menos elegantes, aqueles que possuem estruturas mais confusas e menos tratáveis (ideia que Taleb elaborará progressivamente ao longo do livro).

O platonismo é o que faz com que achemos que compreendemos mais do que realmente compreendemos. Mas isso não acontece em todas as partes. Taleb não está dizendo que formas platônicas não existam. Modelos e construções, os mapas intelectuais da realidade, não estão sempre errados; estão errados somente em algumas aplicações específicas.

A dificuldade é que:

  1. você não sabe de antemão (somente depois do ocorrido) onde o mapa estará errado e
  2. os erros podem ter consequências graves. Os modelos são como remédios potencialmente úteis que carregam efeitos colaterais aleatórios, porém muito graves.

A dobra platônica é a fronteira explosiva onde a mente platônica entra em contato com a realidade confusa, onde o vão entre o que sabe e o que acha que sabe torna-se perigosamente amplo. É aqui que o Cisne Negro é gerado.

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