Narrativa: Cada Um Tem A Sua; Faltam Ideias…

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Nassim Nicholas Taleb, no livro “A lógica do Cisne Negro: O impacto do altamente improvável”, adverte que este é um ensaio que expressa uma ideia primária; não é nem a reciclagem nem a reembalagem dos pensamentos de outras pessoas. Um ensaio é uma meditação impulsiva, não um relato científico.

Pede desculpas se pula alguns tópicos óbvios no livro por convicção de que aquilo que considera chato demais para escrever a respeito pode ser chato demais para o leitor. (Além de que evitar a chatice também pode ajudar a filtrar o não essencial.)

Falar é fácil. Alguém que tenha feito aulas demais de Filosofia na faculdade (ou talvez não o suficiente) pode objetar que a observação de um Cisne Negro não invalida a teoria de que todos os cisnes são brancos, já que tal pássaro negro não é tecnicamente um pássaro pois, para essa pessoa, a brancura pode ser a propriedade essencial de um cisne.

Realmente, quem leu Wittgenstein demais (e textos sobre comentários a respeito de Wittgenstein) pode ter a impressão de que problemas de linguagem são importantes. Eles podem, certamente, ser importantes para que se obtenha proeminência nos Departamentos de Filosofia, mas são algo que nós, praticantes e tomadores de decisões no mundo real, deixamos para os finais de semana.

Como Taleb explica no Capítulo 18, intitulado “A Incerteza do Impostor”, apesar do apelo intelectual, essas formalidades não possuem implicações sérias de segunda a sexta-feira, ao contrário de outras questões mais substanciais (mas negligenciadas). Pessoas na sala de aula, por não terem encarado muitas situações reais de tomadas de decisões diante de incertezas, não percebem o que é e o que não é importante — nem mesmo os acadêmicos da incerteza (ou particularmente os acadêmicos da incerteza).

O que Taleb chama de prática da incerteza pode ser pirataria, especulação de commodities, jogar profissionalmente, trabalhar em alguns ramos da máfia ou simplesmente realizar empreendimentos em série. Portanto, posiciona-se contra o “ceticismo estéril”, da espécie sobre a qual não podemos fazer nada, e contra os problemas de linguagem excessivamente teóricos que tornaram boa parte da Filosofia moderna largamente irrelevante para o que é chamado pejorativamente de “grande público”.

(No passado, para melhor ou para pior, os raros filósofos e pensadores que não eram independentes dependiam do apoio de um patrono. Hoje, o estudo acadêmico de disciplinas abstratas depende da opinião de outros, sem conferências externas, com o resultado patológico ocasional e grave de os objetivos serem voltados para competições insulares de exibição de proezas. Independentemente das limitações “do sistema antigo, ele ao menos defendia algum padrão de relevância.)

A filósofa Edna Ullmann-Margalit detectou uma inconsistência no livro e pediu a Taleb que justificasse o uso específico da metáfora de um Cisne Negro para descrever o incerto impreciso, o desconhecido e o abstrato — corvos brancos, elefantes cor-de-rosa ou animais evaporantes de um planeta remoto na órbita de Tau Ceti. Realmente, ela o pegou no ato. Existe uma contradição: este livro é uma história, e Taleb prefere usar histórias e vinhetas para ilustrar nossa credulidade em relação a histórias e nossa preferência por resumir perigosamente as narrativas.

Você precisa de uma história para deslocar uma história. Metáforas e histórias são muito mais potentes do que ideias (infelizmente); elas também são mais fáceis de se lembrar e mais divertidas de se ler. Se preciso seguir o que Taleb chama de disciplinas narrativas, sua melhor ferramenta é uma narrativa.

Ideias vêm e vão, histórias ficam.

A besta neste livro não é apenas a curva na forma de sino e o estatístico que engana a si próprio, nem o acadêmico platonificado que precisa de teorias para se autoenganar — mas sim o impulso de se “focalizar” no que faz sentido para nós. Viver em nosso planeta, hoje, requer muito mais imaginação do que somos feitos para ter. Carecemos de imaginação e a reprimimos nos outros.

Observe que, no livro, Taleb não recorre ao método bestial de reunir “provas corroborativas” seletivas. Por motivos que explica no Capítulo 5, chama o excesso de exemplos de empirismo ingênuosucessões de anedotas selecionadas para encaixarem-se em uma história não constituem provas. Qualquer pessoa que procure por confirmações encontrará um número suficiente delas para enganar a si próprio — e também, sem dúvida, a seus colegas.

Também é empirismo ingênuo apresentar, com o objetivo de sustentar algum argumento, séries de citações confirmatórias e eloquentes de autoridades mortas. Por meio de pesquisa, é sempre possível encontrar alguém que fez uma declaração sonora que confirma seu ponto de vista — e, em todo tópico, é possível encontrar outro pensador morto que disse exatamente o contrário. Quase todas as citações usadas por Taleb que não são de Yogi Berra são de pessoas de quem discorda!

A ideia do Cisne Negro é baseada na estrutura da aleatoriedade na realidade empírica.

Resumindo: neste ensaio (pessoal), Taleb corre riscos e declara, contra muitos de nossos hábitos de pensamento, que o mundo é dominado pelo extremo, pelo desconhecido e pelo muito improvável (improvável segundo nosso conhecimento corrente) — e que passamos o tempo todo envolvidos em minúcias, concentrados no conhecido e no que se repete.

Isso implica na necessidade de se utilizar o evento extremo como ponto de partida, e não o tratar como uma exceção que deve ser varrida para baixo do tapete. Taleb também faz a alegação mais ousada (e incômoda) de que, apesar do progresso e da expansão do conhecimento, o futuro será cada vez menos previsível, enquanto tanto a natureza humana quanto as “ciências” sociais parecem conspirar para esconder de nós essa ideia.

A sequência do livro de Nassim Nicholas Taleb, “A lógica do Cisne Negro: O impacto do altamente improvável”, segue uma lógica simples, para ele, mas cujo sumário em linguagem coloquial é difícil para o leitor comum decifrar a priori.

Ele resulta do que pode ser rotulado como puramente literário (em tema e tratamento) para o que pode ser considerado inteiramente científico (tematicamente, mas não no tratamento):

  1. a Psicologia está presente principalmente na Parte Um e no princípio da Parte Dois;
  2. os Negócios e a Ciência Natural são abordados principalmente na segunda metade da Parte Dois e na Parte Três.

A Parte Um, “A Antibiblioteca de Umberto Eco, ou Como Procuramos Validações”, é principalmente sobre como percebemos eventos históricos e atuais e que distorções estão presentes nessa percepção.

A Parte Dois, “Nós Simplesmente Não Podemos Prever”, é sobre nossos erros em lidar com o futuro e as limitações não anunciadas de algumas “ciências” — e o que se pode fazer sobre tais limitações.

A Parte Três, “Os Cisnes Cinzentos do Extremistão”, aprofunda-se ainda mais no tema dos eventos extremos, explica como a curva na forma de sino (a grande fraude intelectual) é gerada e revisa as ideias reunidas frouxamente sob o rótulo de “complexidade” na ciência natural e na ciência social.

A Parte Quatro, “Fim”, será muito curta.

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