Falácia Narrativa: Historicismo

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O economista historicista busca sempre contar histórias, adotando um método de teorizar que junta fatos, generalizações de baixo nível de abstração e teorias de alto nível abstrato. No cozimento final, adiciona ainda pitadas de julgamentos de valor em uma narrativa que imagina coerente.

Por exemplo, quando o historicista analisa a atual conjuntura, seleciona arbitrariamente apenas alguns fatos escandalosos do passado recente, pois “a memória é curta (e seletiva)”, designando-os todos como causas antecedentes do presente. Porém, a atual conjuntura de um sistema complexo tem seu estado inicial não completamente conhecido.

Na análise conjuntural, a resultante da pluralidade de decisões ex-ante é vista ex-post, isto é, a partir do “ponto de chegada” atual. A conjuntura econômica é composta de fatos transcorridos em um processo socioeconômico e político ainda em andamento.

dependência de trajetória caótica quando se afasta progressivamente das condições iniciais. Esta imprecisão a respeito dos dados iniciais e os eventos políticos e econômicos interdependentes, que impossibilitam o uso da Teoria da Probabilidade, se refletem na qualidade da previsão que somos capazes de fazer sobre o estado futuro desse Sistema Complexo.

Nassim Nicholas Taleb, no livro “A lógica do Cisne Negro: O impacto do altamente improvável” comenta. “Nós gostamos de histórias, gostamos de resumir e gostamos de simplificar, ou seja, de reduzir a dimensão das questões”.

O primeiro dos problemas da natureza humana que ele examina nesta seção de seu livro é o que chama de falácia narrativa. Na verdade, é uma fraude, mas para ser mais educado resolveu chamá-la de falácia.

A falácia está associada à nossa vulnerabilidade em relação à interpretação excessiva e à nossa predileção por histórias compactas sobre verdades cruas. Ela distorce gravemente nossa representação mental do mundo, e é particularmente aguda quando se trata de um evento raro.

A falácia narrativa aborda nossa capacidade limitada de olhar para sequências de fatos sem costurar uma explicação nelas, ou, equivalentemente, forçar uma ligação lógica, uma flecha de relacionamento, sobre elas. Explicações unem fatos. E tornam os fatos mais fáceis de se lembrar; e os ajudam a fazer mais sentido. Essa propensão pode dar errado quando aumenta nossa impressão de entendimento.

Este capítulo do livro cobre um único problema, mas aparentemente em disciplinas diferentes. O problema da narratividade, apesar de extensamente estudado em uma de suas versões pelos psicólogos, não é tão “psicológico”: alguma coisa na maneira pela qual disciplinas são designadas mascara o fato de que é, de maneira mais geral, um problema de informação.

Apesar de a narratividade vir de uma necessidade biológica arraigada de se reduzir a dimensionalidade, os robôs também estariam inclinados a recorrer ao mesmo processo de redução. A informação deseja ser reduzida.

Para ajudar o leitor a localizar-se: ao estudar o problema da indução no capítulo anterior Taleb examinou o que poderia ser deduzido sobre o não visto, o que reside fora do nosso conjunto de informações. Aqui, olhamos para o visto, o que jaz dentro do conjunto de informações, e examinamos as distorções no ato de processá-lo. Há muito a se dizer sobre o tópico, mas seu ângulo de abordagem diz respeito à simplificação da narrativa do mundo ao nosso redor e a seus efeitos em nossa percepção do Cisne Negro e da incerteza incontrolável.

Caçar antilógicas é uma atividade prazerosa. Durante alguns meses, experimenta-se a sensação titilante de que se acaba de entrar em um mundo novo. Depois disso, a novidade esmaece e os pensamentos retornam aos assuntos de sempre. O mundo é novamente sem graça, até que se encontre outro tema que seja excitante (ou consiga colocar outro figurão em um estado de ira total).

Para Taleb, uma dessas antilógicas veio com a descoberta — graças à literatura sobre cognição — de que, ao contrário do que todos acreditam, não teorizar é um ato — que teorizar corresponde à ausência de atividade voluntária, à opção “padrão”.

É necessário um esforço considerável para se ver fatos (e lembrar-se deles) enquanto se abstém de julgamentos e resiste-se a explicações. E essa doença da teorização está raramente sob nosso controle: ela é largamente anatômica, parte de nossa biologia, de forma que lutar contra ela exige que se lute contra o próprio ser.

Assim, os preceitos dos antigos céticos de se abster de julgamentos vão contra nossa natureza. Falar é fácil, o que se torna um problema da Filosofia aconselhadora.

Tente ser um cético verdadeiro em relação às suas interpretações e ficará exausto em pouquíssimo tempo. Você também será humilhado por resistir a teorizar. É impossível para nosso cérebro ver qualquer coisa de maneira crua sem alguma interpretação. Podemos nem sempre estar conscientes disso.

Por que é difícil evitar a interpretação? É fundamental notar que as funções cerebrais frequentemente operam além da percepção. Você interpreta quase tanto quanto executa outras atividades consideradas automáticas e fora de seu controle, como respirar.

O que faz com que não teorizar consuma muito mais energia do que teorizar? Primeiro, existe a impenetrabilidade da atividade. Taleb disse que boa parte dela acontece além de nossa percepção: se você não sabe que está fazendo a inferência, como pode deixar de fazê-la a não ser que permaneça em um estado de alerta constante? E se precisa estar constantemente alerta, isso não é cansativo? Tente fazer isso por uma tarde e veja o que acontece.

Temos mais evidências fisiológicas de nossa busca enraizada por padrões, graças ao conhecimento crescente acerca do papel de neurotransmissores, as substâncias químicas que supostamente transportam sinais entre partes diferentes do cérebro. Aparentemente, a percepção de padrões aumenta com a concentração da substância dopamina no cérebro.

A dopamina também regula o humor e alimenta um sistema de recompensa interno no cérebro (não é de surpreender que seja encontrada em concentrações um pouco mais altas no lado esquerdo do cérebro de pessoas destras do que no lado direito). Uma concentração mais alta de dopamina parece diminuir o ceticismo e resulta em uma vulnerabilidade maior à detecção de padrões.

Uma injeção de levodopa, substância usada para tratar pacientes com mal de Parkinson, parece aumentar esse tipo de atividade e diminuir a suspensão de crença do indivíduo, que se torna vulnerável a toda sorte de modismos, como astrologia, superstições, leitura de cartas de tarô e Economia… O bom humor de Taleb coloca tudo isso no mesmo nível mental daqueles que enxergam “um mundo assombrado por demônios”.

Tal como John Nash (lembre do filme “Uma Mente Brilhante”), esses pacientes tendem a ver o que acreditam que sejam padrões claros em números aleatórios. Isso ilustra a relação entre conhecimento e aleatoriedade. O caso também mostra que alguns aspectos do que chamamos de “conhecimento” (e do que Taleb chama de narrativa) são um mal.

Novamente, Taleb avisa o leitor de que não está se concentrando na dopamina como a razão para nossa interpretação excessiva. Em vez disso, seu ponto é que há um correlato físico e mental para tal operação e que nossas mentes são, em grande parte, vítimas de nossa corporificação física. Nossas mentes são como prisioneiras, cativas da biologia, a não ser que consigamos realizar uma fuga inteligente.

O que Taleb está enfatizando é a ausência de controle sobre tais inferências. Amanhã, alguém pode descobrir outra substância química ou base orgânica para a percepção de padrões, ou rebater o que disse sobre o interpretador do cérebro esquerdo, demonstrando o papel de uma estrutura mais complexa. Mas isso não negaria a ideia de que a percepção de causação possui uma fundação biológica.

Existe outra razão ainda mais profunda para nossa inclinação a narrar, e ela não é psicológica. Tem a ver com o efeito da ordem no armazenamento e no acesso à informação em qualquer sistema. Merece ser explicada aqui por causa do que Taleb considera os problemas centrais da Teoria da Probabilidade e da Teoria da Informação.

O primeiro problema é que a informação custa caro para ser obtida.

O segundo problema é que a informação também é cara de ser armazenada. Quanto mais ordenada, menos aleatória, mais padronizada e narratizada for uma série de palavras ou símbolos, mais fácil será armazenar essa série na mente de alguém ou escrevê-la em um livro para que os netos possam lê-la algum dia.

Finalmente, o terceiro e último problemacusta caro manipular e recuperar informação. A memória consciente, ou funcional, é aquela que você está usando para ler estas linhas e compreender seu significado. Compressão é vital para o desempenho de trabalho consciente.

Nós, membros da variedade humana dos primatas, temos uma fome por regras porque precisamos reduzir a dimensão das questões para que possam entrar em nossas cabeças. Ou melhor, infelizmente, para que possamos espremê-las em nossas mentes.

  • Quanto mais aleatória a informação, maior é a dimensionalidade, e, portanto, é mais difícil resumi-la.
  • Quanto mais você resumir, mais ordem é atribuída e menor será a aleatoriedade.

Portanto, a mesma condição que nos faz simplificar nos força a pensar que o mundo é menos aleatório do que realmente é.

E o Cisne Negro é o que deixamos de fora na simplificação.

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