Risco Brasil: Dívida Corporativa com o Carry-Trade

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Grandes empresas privadas brasileiras se aproveitaram do período pós-crise 2008 para fazer carry-trade: tomar dinheiro onde estava barato, i.é, no exterior, e aplicar onde sempre é demasiadamente caro, i.é, no mercado financeiro brasileiro. Não à toa, com essa abundante entrada de capital, a taxa de câmbio chegou à cotação de R$ 1,53 / US$ no final do período de Macroeconomia Prudencial em julho de 2011. Depois, com a Cruzada da Dilma contra os juros disparatados, alterou-se o cupom cambial: diminuiu a diferença entre os juros externos e os juros internos e, gradualmente, depreciou-se a moeda nacional.

Durante o primeiro governo Dilma, não houve um tratamento de choque a la maxidesvalorizações de 1979 e 1983, mas sim uma gradual maxidepreciação da moeda nacional. Em sua posse, a taxa de câmbio estava em R$ 1,65. Chegou a R$ 1,53 no final de julho de 2011, e começou a se elevar, alcançando R$ 2,53 em 06/11/2014, depois de sua reeleição. Em menos de três anos e meio, houve essa elevação de um real na cotação de um dólar – ou 65% — sem a inflação superar o teto da meta!

Porém, quando os especuladores foram repatriar o capital estrangeiro, o dólar estava bem mais caro do que quando fizeram o carry-trade — e eles perderam dinheiro. Somando-se a marcação-a-mercado dos títulos prefixados, quando o BCB, subitamente, retomou a elevação significativa dos juros de 7,25% até 14,25% aa, a perda de riqueza financeira levou ao discurso de ódio contra a Dilma!

Sergio Lamucci e Juliano Basile (Valor, 06/10/16) informam que o Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou para o ritmo de crescimento da dívida de empresas não financeiras e famílias brasileiras na última década, quase o dobro do registrado em outros emergentes. Em relatório, o FMI diz que essa expansão dos débitos privados, de mais de 35% do PIB entre 2005 e 2015, é uma fonte de “vulnerabilidades significativas”. No documento, o Fundo destaca que as vulnerabilidades das Finanças Públicas limitam a capacidade do governo brasileiro de suavizar o impacto macroeconômico da redução do endividamento do setor privado, agindo como “Pronto-Socorro” de especuladores.

O chamado Monitor Fiscal diz que 70% da dívida brasileira vem das empresas não financeiras, que usaram a alavancagem para “construir colchões de liquidez, em vez de aumentar o estoque de capital”.

Um problema é que as companhias do país estão expostas a uma deterioração das perspectivas de crescimento, especialmente quando isso ocorre simultaneamente a um aperto nas condições financeiras. “A piora econômica no país em 2015 e 2016 colocou pressão sobre o setor privado, e a variação do crédito desacelerou e se tornou negativa em 2016, mas as relações da dívida [como proporção do PIB] continuaram a aumentar como resultado do baixo crescimento.

Nesse cenário, diz o Fundo, um ponto importante é saber se as Finanças Públicas são “suficientemente fortes” para lidar com as consequências macroeconômicas de uma possível redução da dívida privada. Cortar benefícios sociais dos trabalhadores para beneficiar os capitalistas especuladores?!

O FMI lembra que, na maior parte da década passada, a política fiscal foi expansionista, com o resultado primário ajustado pelo ciclo econômico caindo na maior parte dos anos entre 2007 e 2014. Isso resultou em uma alta forte da dívida bruta, que deve seguir em expansão.

Para o Fundo, contudo, uma avaliação da situação do governo deve ir além das dívidas e incluir o lado dos ativos, ao mesmo tempo em que leva em conta o setor público de modo mais amplo. Ao fazer essa análise, o FMI diz que o setor público brasileiro tinha, em 2014, uma riqueza financeira líquida negativa em 131% do PIB.

De acordo com o FMI, o nível elevado da dívida bruta explica em parte esses números. O relatório diz que as despesas com aposentadorias de servidores públicos na ativa e já aposentados é de longe o maior passivo, somando o equivalente a 88% do PIB.

O relatório ressalta que a expansão de algumas estatais piorou a posição financeira do setor público, em parte devido aos grandes investimentos no setor de petróleo e gás. A companhia que mais contribuiu para isso foi a Petrobras, ao quadruplicar sua dívida desde 2011, “para cumprir objetivos de políticas públicas”, diz o FMI. “A posição financeira da empresa também se enfraqueceu com a queda do petróleo e as alegações de corrupção.”

Para completar, o aumento dos bancos públicos em relação ao período anterior à crise limita a capacidade dessas instituições de compensar a retração do crédito privado. “A elevação nas carteiras de crédito dos bancos estatais, de mais de 450% desde 2007, foi quatro vezes mais rápida que a dos bancos privados.” Ainda bem que houve a atuação anticíclica dos bancos públicos propiciadora da queda da taxa de desemprego até o retorno da Velha Matriz Neoliberal em 2015!

O relatório cita números de alguns outros países para comparar com a riqueza financeira líquida negativa de 131% do PIB do Brasil. No Peru, o indicador é negativo em 34% do PIB, enquanto nas Filipinas e na Rússia ele é de -22% do PIB e -18%

A dívida corporativa do Brasil está muito alta e pode aumentar ainda mais, segundo avaliação do Fundo Monetário Internacional (FMI). Estimativas feitas pela instituição no relatório “Estabilidade Financeira Global“, FMI – Global Financial Stability Report – oct-2016, indicam que a dívida das empresas com problemas, como lucros insuficientes para cobrir o pagamento de juros, está em US$ 51 bilhões. Esse valor equivale a 11% do total da dívida corporativa brasileira.

Se o cenário econômico piorar, com a continuidade da recessão, queda dos lucros e aumento dos custos de captação, essa dívida pode subir a US$ 88 bilhões, em cinco anos. Se essa hipótese se consumar, a dívida das empresas mais fragilizadas no país equivaleria a 19% da dívida corporativa brasileira.

De acordo com o diretor-adjunto do Departamento Monetário e de Mercado de Capitais do FMI, Ali Al-Eyd, o país precisa fazer uma desalavancagem suave de sua dívida. “O Brasil está se ajustando a essa era de crescimento global baixo e reduzidos preços das commodities. Mas a alavancagem corporativa no Brasil está muito alta. Esse foi um dos focos do nosso relatório. O país e outros emergentes precisam fazer uma desalavancagem suave de sua dívida e obter vantagens do cenário momentâneo, que ainda está favorável.”

Para Al-Eyd, se adotarem essas medidas, o Brasil e os emergentes que enfrentam altas dívidas corporativas reduziriam riscos que dificultam a atuação do sistema bancário. “A dívida corporativa das firmas que estão fracas, segundo identificamos no nosso relatório, no Brasil está em US$ 51 bilhões. É 11% da dívida corporativa brasileira”, ressaltou o diretor-adjunto.

Al-Eyd explicou que, ao mencionar como “fracas”, ele se refere às empresas com pouca cobertura sobre a dívida, ou seja, aquelas em que os lucros são insuficientes para fazer a cobertura dos juros da dívida. Se a economia desacelerar e os lucros das empresas caírem mais, a dívida pode chegar a US$ 88 bilhões, o equivalente a 19% da dívida, acrescentou, referindo-se a um cenário que poderia ocorrer em cinco anos. Para ele, os bancos teriam mais dificuldades caso essas adversidades se materializem. “Por isso, recomendamos uma desalavancagem suave.”

O FMI prega ao contrário do que sugere Hyman Minsky como papel do Big Government, na crise econômica, intervenção governamental via política fiscal ativa:

  • aumentando-se do gasto público autônomo (independentemente das expectativas reinantes);
  • garantindo-se do nível da demanda efetiva, compensando eventual queda do gasto privado;
  • mantendo-se os lucros das corporações;
  • receitas tornarem-se maiores que os pagamentos previstos no balanço de cada agente.

Para o diretor do Departamento de Assuntos Fiscais do FMI, Vitor Gaspar, os países emergentes que enfrentam recessões terão maiores dificuldades para arrumar a situação de suas economias se não fizerem ajustes em suas estruturas fiscais. De acordo com ele, enfrentar uma recessão financeira com fracas posições fiscais resulta em perdas ainda maiores. “Esse é especialmente o caso de economias emergentes que tendem a cortar os gastos do governo em tempos de crises, refletindo condições financeiras mais apertadas”, afirmou o diretor, que citou a América Latina.

As recessões no Brasil e na Argentina estão puxando para baixo as perspectivas de crescimento econômico na América Latina. Segundo o Banco Mundial, a região deverá registrar queda de 1,1% no PIB neste ano. Para 2017, a instituição prevê crescimento de 1,8%.

O economista-chefe do Banco Mundial para a América Latina e Caribe, Augusto de La Torre, avaliou que o processo de ajuste no Brasil é muito complicado de ser realizado, pois o pagamento do déficit fiscal depende dos juros, que são altos no país. A avaliação foi feita na apresentação de um relatório sobre as perspectivas de crescimento econômico na América Latina. De acordo com o documento, o Brasil deverá sofrer queda de 3,2% do PIB neste ano e terá crescimento de 1,1%, em 2017.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) avalia que o Brasil só voltará a ter superávits primários a partir de 2020, estimando que a dívida bruta vai aumentar de modo ininterrupto até 2021, quando deverá alcançar 93,6% do PIB. Em abril, o FMI projetava que o endividamento bruto alcançaria 91,7% do PIB daqui a cinco anos.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, engana a população ao afirmar que “o Brasil terá novamente superávits no resultado primário (que exclui gastos com juros) a partir de 2019″. Se isso acontecer, estaremos na “santa paz dos cemitérios, i.é, todos mortos (ou desempregados)”

Nas projeções do FMI, o país terá um déficit primário de 2,8% do PIB neste ano e de 2,2% do PIB no ano que vem. O déficit diminui nos anos seguintes, até 2020, quando haveria superávit, de 0,3% do PIB. Em 2021, o saldo deve ser positivo em 0,7% do PIB, de acordo com projeções do Monitor Fiscal.

Em abri de 2016, o Fundo trabalhava com projeções melhores para o resultado primário, o que ajuda a explicar a piora nas estimativas para a dívida bruta. Há seis meses, o FMI acreditava que o país teria neste ano um déficit primário de 1,7% do PIB. Para 2017, a aposta era em um rombo de 1,4% do PIB. O superávit seria de 0,9% do PIB em 2020 e de 1,6% do PIB em 2021, a previsão mais distante apresentada no Monitor Fiscal.

Nesse meio tempo, porém, houve um golpe de Estado no Brasil com o afastamento  arbitrário de Dilma Rousseff. Nelson Barbosa deu lugar no Ministério da Fazenda ao Henrique Meirelles, que cometeu diversas “barbeiragens” quando esteve no comando do Banco Central, sendo o responsável pelo stop-and-go da economia brasileira.

Para 2016, o FMI espera que a dívida bruta encerre o ano em 78,3% do PIB, muito acima dos 47,3% do PIB estimados para a média dos emergentes. Pelo critério do Fundo, que inclui os títulos do Tesouro na carteira do Banco Central (BC), a dívida bruta brasileira fechou 2015 em 73,7% do PIB. Pelo critério brasileiro, que exclui esses papéis, o endividamento bruto terminou o ano passado em 66,5% do PIB, batendo em 70,1% do PIB em agosto de 2016.

As projeções do FMI para a dívida líquida, que desconta ativos como as reservas internacionais, também apontam para um forte crescimento nos próximos anos. Nas contas do Fundo, ela deve pular de 36,2% do PIB em 2015 para 45,8% do PIB neste ano, batendo em 62,6% do PIB em 2021, nível do final do Governo FHC. É consequência da Velha Matriz Neoliberal...

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O Fundo divulgou o relatório preliminar da missão que veio ao Brasil para fazer o diagnóstico anual sobre a economia. No documento, o FMI observa que um ajuste baseado apenas no projeto que limita o crescimento dos gastos da União levará muitos anos para estabilizar a dívida.

Nesse cenário, um “objetivo possível” seria atingir um superávit primário de cerca de 3,5% do PIB ao longo dos próximos cinco anos, que estabilizaria a dívida bruta em 2021. “Uma combinação de medidas de gastos e receitas poderiam ser consideradas para esse fim”, diz o texto, indicando implicitamente que aumentos de impostos deveriam ser levados em conta. O governo golpista tem insistido só no ajuste pelo lado das despesas, cortando direitos sociais dos trabalhadores.

O FMI estima que o Brasil continuará com elevados déficits nominais, em que mais de 3/4 são gastos com juros. Para este ano, a estimativa é de 10,4% do PIB, bem acima dos 4,7% previstos para a média dos emergentes. O rombo só encolherá se a taxa de juros cair. Nesse caso, poderá cair para 6,4% do PIB em 2021.

As previsões do Fundo para as contas públicas brasileiras são pouco animadoras também por causa das estimativas para o PIB. O FMI espera que, depois de encolher 3,3% neste ano, haverá uma recuperação lenta, com a economia crescendo 0,5% em 2017, 1,5% em 2018 e 2% ao ano entre 2019 e 2021.

Estas são as previsões do FMI para os resultados econômico-financeiros do Governo Golpista: uma catástrofe!

E tem economista neoliberal publicando coluna na imprensa chapa-branca para enganar seus leitores:

“Nos últimos cinco anos, deixando de lado os juros sobre a dívida, o saldo entre receitas e despesas do governo federal piorou em 6,3% do PIB! Isso porque nesse período as receitas aumentaram 32%, enquanto as despesas subiram 67%! Essa foi a principal razão de por que o déficit total, incluindo os juros sobre a dívida, cresceu de 1,9% para 9,6% do PIB. Com isso, sua dívida saltou de 52% para 70% do PIB”.

Ora, primeiro, deixa de lado os juros sobre a dívida que são 3/4 do problema do déficit nominal, depois de destacar o déficit primário retorna para o déficit nominal como aquele primeiro fosse a causa principal deste último! Assume como inquestionável o problemático pagamento do maiores juros do mundo!

Leia mais:

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2 thoughts on “Risco Brasil: Dívida Corporativa com o Carry-Trade

  1. Prezado Professor,
    Há algum fundamento para a manutenção de juros de 8% a.a., ou poderiam ser reduzidos imediatamente?
    Segundo entendo, a crise fiscal deve-se à redução da arrecadação, resultante, por sua vez, da desaceleração da atividade econômica. Não são os custos financeiros e o elevado valor do real em relação ao dólar as principais causas dessa crise do setor privado? A solução, portanto, para a retomada do crescimento não seria a queda dos juros para o setor privado?
    Obrigado pela atenção.

    1. Prezado Marco Túlio,
      concordo contigo. A taxa de juros é a única variável determinante, fixada arbitrariamente pelo BCB, de maneira disparatada em relação ao juro internacional.

      Com isso há uma tendência à apreciação da moeda nacional, tirando competitividade dos produtos brasileiros. É responsável por mais de 3/4 do déficit nominal (NFSP), onerando a população necessitada com cortes de benefícios sociais. Desestimula o investimento produtivo, provocando desemprego e tirando poder de barganha dos trabalhadores.

      Enfim, essa variável determinante eleva a renda do capital financeiro em desfavor das variáveis determinadas: o câmbio dos industriais, o imposto para contribuintes, o salário para os trabalhadores e o gasto social para os pobres.
      att.

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