Somos Incapazes de Conceber Invenções Futuras

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Nassim Nicholas Taleb, no livro “A lógica do Cisne Negro: O impacto do altamente improvável”, comenta também o ataque de Sir Doktor Professor Karl Raimund Popper contra o historicismo. Esse foi seu insight mais significativo, porém continua sendo o menos conhecido. Pessoas que não conhecem realmente seu trabalho tendem a se concentrar na falsificação popperiana, que aborda a verificação ou não verificação de alegações. O foco obscurece sua ideia central: ele fez do ceticismo um método, transformou o cético em alguém construtivo.

Assim como Karl Marx escreveu, com grande irritação, uma diatribe chamada A Miséria da Filosofia em resposta a A Filosofia da Miséria, de Proudhon, Popper, irritado com alguns filósofos de seu tempo que acreditavam na compreensão científica da história, escreveu, como uma paródia, A Miséria do Historicismo.

O insight de Popper diz respeito às limitações nas previsões de eventos históricos e à necessidade de se diminuir a importância de áreas “leves”, como a História e as Ciências Sociais, a um nível um pouco acima do da estética e do entretenimento, como colecionar borboletas ou moedas. O que chamamos aqui de ciências históricas leves são estudos que dependem da narrativa.

O argumento central de Popper é que, para que se possa prever eventos históricos, é necessário prever inovações tecnológicas, o que por si só é fundamentalmente imprevisível.

Você não diz para si mesmo quando recebe uma má notícia no final do dia: “Isso é o que descobrirei amanhã, mas hoje é diferente, então ignorarei a informação e terei um jantar agradável”?

Esse ponto pode ser generalizado a todas as formas de conhecimento. Na verdade, existe uma lei no ramo da estatística chamada de Lei das Expectativas Reiteradas, que Taleb descreve em sua forma mais forte: se tenho esperança de esperar alguma coisa em alguma data no futuro, então já aguardo essa coisa no presente.

Considere novamente a roda. Se você é um pensador histórico da Idade da Pedra a quem pedem que preveja o futuro em um relatório completo para o planejador tribal principal, você precisa projetar a invenção da roda ou perderá praticamente toda a ação. Agora, se você pode profetizar a invenção da roda, já sabe qual é a aparência de uma roda e, portanto, já sabe como construir uma roda, então já está encaminhado. O Cisne Negro precisa ser previsto!

Mas existe uma forma mais fraca dessa Lei do Conhecimento Reiterado. Ela pode ser redigida da seguinte forma: para que o futuro seja compreendido a ponto de que se seja capaz de prevê-lo, é necessário incorporar elementos desse futuro. Se você sabe a respeito da descoberta que fará no futuro, então já quase a fez.

Presuma que você seja um acadêmico especial no Departamento de Previsões da Universidade Medieval, especializado na Projeção da História Futura (para nossos propósitos, o remoto século XX). Você precisaria topar com as invenções da máquina a vapor, da eletricidade, da bomba atômica e da internet, assim como da instituição da massagem a bordo de aviões e aquela atividade estranha chamada reunião de negócios, na qual homens bem alimentados, mas sedentários, restringem voluntariamente a própria circulação sanguínea com um aparelho caro chamado gravata.

Essa incapacidade não é trivial. O simples conhecimento de que algo foi inventado costuma levar a uma série de invenções de natureza similar, apesar de nenhum detalhe da invenção ter sido disseminado.

Na Matemática, uma vez que a prova de um teorema arcano é anunciada, testemunhamos frequentemente a proliferação de provas similares que surgem do nada, com acusações ocasionais de vazamentos de informações e de plágio. Pode ser que não haja plágio algum: a informação de que a solução existe é, por si só, uma grande parte da solução.

Pela mesma lógica, não somos facilmente capazes de conceber invenções futuras (caso o fôssemos, elas já teriam sido inventadas). No dia em que formos capazes de prever invenções, estaremos vivendo em um estado em que tudo concebível já terá sido inventado!

Taleb resume seu argumento: fazer previsões exige conhecimento sobre tecnologias que serão descobertas no futuro. Mas tal conhecimento iria permitir quase automaticamente que começássemos a desenvolver essas tecnologias imediatamente. Portanto, não sabemos o que saberemos.

Algumas pessoas podem dizer que o argumento, redigido dessa forma, parece óbvio, que sempre pensamos que atingimos o conhecimento definitivo, mas não percebemos que as sociedades passadas das quais rimos também pensaram da mesma forma.

Seu argumento é trivial, então por que não o levamos em consideração? A resposta está em uma patologia da natureza humana. Você se lembra das discussões psicológicas sobre a assimetria na percepção de habilidades? Vemos defeitos nos outros, mas não em nós mesmos. Parece que somos maravilhosos de acordo com os mecanismos de autoenganação.

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