Predição e Livre-arbítrio

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Nassim Nicholas Taleb, no livro “A lógica do Cisne Negro: O impacto do altamente improvável”, afirma que, se todas as condições possíveis de um sistema físico forem conhecidas, é teoricamente possível (mas não na prática) projetar seu comportamento no futuro. Mas isso só diz respeito a objetos inanimados.

Tropeçamos em um obstáculo quando questões sociais estão envolvidas. É outra questão projetar um futuro quando humanos estão envolvidos, se eles forem considerados seres vivos dotados de livre-arbítrio.

Se eu posso prever todas as suas ações, sob certas circunstâncias, então você pode não ser tão livre quanto pensa que é. Você é um autômato que responde a estímulos ambientais. Você é um escravo do destino. E a ilusão de livre-arbítrio poderia ser reduzida a uma equação que descreve o resultado de interações entre moléculas.

Seria como estudar o mecanismo de um relógio: um gênio com conhecimento profundo das condições iniciais e das cadeias causais seria capaz de estender o próprio conhecimento ao futuro de suas ações. Não seria sufocante?!

Contudo, se você acredita em livre-arbítrio, não pode acreditar verdadeiramente em Ciências Sociais nem em projeções econômicas. Não se pode prever como as pessoas agirão. Exceto, é claro, se houver um truque, e ele é o cordão pelo qual a economia neoclássica é suspensa. Simplesmente, presume-se que os indivíduos serão racionais no futuro e que, por isso, agirão previsivelmente.

Existe uma ligação forte entre racionalidade, previsibilidade e tratabilidade matemática. Um indivíduo racional desempenhará uma série única de ações em circunstâncias específicas. Existe apenas uma única resposta à questão de como agiriam as pessoas “racionais” satisfazendo seus melhores interesses.

Agentes racionais precisam ser coerentes: não podem preferir maçãs a laranjas, laranjas a peras e depois peras a maçãs. Se o fizessem, seria difícil generalizar seu comportamento. Também seria difícil projetar seu comportamento no tempo.

Na economia ortodoxa, a racionalidade tornou-se uma camisa de força. Economistas platonizados ignoraram o fato de que as pessoas podem preferir fazer algo diferente de maximizar seus interesses econômicos, o que levou a técnicas matemáticas como a “maximização” ou “otimização”, sobre as quais Paul Samuelson construiu boa parte de sua obra.

A otimização consiste em encontrar a melhor política matemática que um agente econômico possa seguir. Por exemplo, qual a quantidade “ótima” que você deve destinar a ações? Essa técnica envolve matemática complexa e, portanto, levanta uma barreira que impede a entrada de acadêmicos sem treinamento matemático.

Taleb não seria o primeiro a dizer que a otimização gerou um retrocesso na ciência social, reduzindo-a da disciplina intelectual e reflexiva em que estava se transformando para uma tentativa de tornar-se uma “Ciência Exata”. Por “Ciência Exata” refere-se a um problema de Engenharia de segunda classe para aqueles que querem fingir que estão no Departamento de Física — a chamada inveja da Física. Em outras palavras, uma fraude intelectual.

A otimização é um caso de modelagem estéril. Ela não tinha qualquer uso prático (nem mesmo teórico), portanto, tornou-se principalmente uma competição por posições acadêmicas, uma forma de fazer com que as pessoas competissem com poderes matemáticos. A otimização manteve os economistas platonizados longe dos bares, resolvendo equações à noite…

A tragédia é que Paul Samuelson, homem de pensamento rápido, é supostamente um dos acadêmicos mais inteligentes de sua geração. Esse foi claramente um caso de inteligência muito mal investida. De modo característico, Samuelson intimidou aqueles que questionavam suas técnicas afirmando: “Aqueles que podem, fazem Ciência, os outros fazem Metodologia”.

Se você soubesse Matemática, poderia “fazer Ciência”. Isso é reminiscente dos psicólogos que silenciam os críticos acusando-os de terem problemas com os pais. Infelizmente, no final das contas, era o Samuelson, e a maioria de seus seguidores que não sabiam muita Matemática, ou não sabiam utilizar a Matemática que dominavam, como aplicá-la à realidade. Só sabiam Matemática o suficiente para serem cegados por ela.

Tragicamente, antes da proliferação de idiots savants e empiricamente cegos, um trabalho interessante havia sido iniciado por pensadores verdadeiros como J. M. Keynes, Friedrich Hayek e o grande Benoît Mandelbrot — mas todos foram demovidos por terem distanciado a economia da precisão da Física de segunda classe. Muito triste.

Um grande pensador subestimado é G. L. S. Shackle, hoje quase completamente obscuro, que introduziu a ideia de “desconhecimento”, ou seja, os livros não lidos na biblioteca de Umberto Eco. É muito incomum que a obra de Shackle seja sequer citada, e Taleb teve que comprar seus livros em sebos, em Londres.

Legiões de psicólogos empíricos das escolas heurísticas e de viés mostraram que o modelo de comportamento racional sob incerteza não é apenas grosseiramente inexato e sim simplesmente errado como forma de descrição da realidade. Os resultados também incomodam economistas platonizados porque revelam que existem muitas formas através das quais se pode ser irracional.

Tolstoi disse que as famílias felizes eram todas parecidas, enquanto cada família infeliz é infeliz à própria maneira. As pessoas demonstraram que cometem erros equivalentes a preferir maçãs a laranjas, laranjas a peras e peras a maçãs, dependendo da relevância das questões apresentadas a elas. A sequência é importante!

Além disso, como vimos com o exemplo da ancoragem, as estimativas do número de dentistas em Manhattan, feitas por pessoas submetidas a estudos, são influenciadas pelo número aleatório que acaba de ser apresentado a elas — a âncora. Dada a aleatoriedade da âncora, teremos aleatoriedade nas estimativas.

Portanto, se pessoas fazem escolhas e decisões inconsistentes, o núcleo central da otimização econômica não funciona. Não se pode mais produzir uma “Teoria Geral”, e sem ela não se pode prever.

Você precisa aprender a viver sem uma teoria geral!

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