Profecias Reversas

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Nassim Nicholas Taleb, no livro “A lógica do Cisne Negro: O impacto do altamente improvável”, lembra que psicólogos estudaram o tipo de erro de predição em relação a eventos agradáveis e desagradáveis. Superestimamos os efeitos dos dois tipos de futuro em nossas vidas. O real processo de habituação é distinto do esperado.

Parecemos sofrer de um contratempo psicológico que faz com que façamos isso. Esse contratempo é chamado de “utilidade antecipada” por Danny Kahneman e de “previsão afetiva” por Dan Gilbert. O ponto não é tanto que tendemos a prever erroneamente a felicidade futura — é mais que não aprendemos recursivamente a partir de experiências passadas. Temos evidências de um bloqueio mental e de distorções na maneira que deixamos de aprender com erros passados, ao projetar o futuro de nossos estados afetivos.

Por exemplo, o segundo casamento é a vitória da esperança sobre a experiência. É também a prova da superação da razão pela emoção – ou paixão…

Superestimamos grosseiramente a duração do efeito de infortúnios em nossas vidas. Você pensa que a perda de sua fortuna ou de sua posição atual será devastadora, mas provavelmente está errado. É mais provável que você se adapte a qualquer coisa, como provavelmente fez depois de infortúnios passados. Você pode sentir uma pontada de dor, mas ela não será tão ruim quanto se espera.

Esse tipo de erro de predição pode ter um propósito: motivar-nos a executar atos importantes (como comprar carros novos ou ficar rico) e evitar que corramos certos riscos desnecessários. E isso é parte de um problema mais geral: nós, humanos, devemos enganar um pouco a nós mesmos ocasionalmente.

Segundo a Teoria da Autoenganação, elaborada por Trivers, isso deveria nos orientar favoravelmente em direção ao futuro. Mas a autoenganação não é uma característica desejável fora de seu domínio natural. Ela previne que corramos alguns riscos desnecessários.

Diferentemente de outros videntes, houve um que era capaz de prever o passado com grande precisão — sem que lhe dessem qualquer detalhe sobre o passado. Ele fazia previsões ao contrário.

Nosso problema não é apenas que não sabemos o futuro — também não sabemos muito sobre o passado. Precisamos muito de alguém como este vidente que faz profecias reversas, se quisermos conhecer a história.

A primeira direção da previsão é chamada de “processo forward” (para a frente). A segunda direção, o “processo backward” (para trás, inverso), é muito, muito mais complicada. O processo forward é geralmente usado na Física e na Engenharia; o processo backward em abordagens históricas não experimentais e não repetíveis.

De certo modo, as limitações que nos impedem de, por exemplo, desfritar um ovo, também nos impedem de aplicar engenharia reversa na História.

Taleb aumenta um pouquinho a complexidade do problema forward-backward, presumindo que há não linearidade. Tomemos o que é geralmente chamado de paradigma do “bater-de-asas de uma borboleta” que provoca furação alhures segundo a Teoria do Caos. Um pequeno estímulo em um sistema complexo pode levar a resultados não aleatórios grandes, dependendo de condições muito especiais.

Uma única borboleta batendo as asas em certo lugar pode ser a causa certa de um furacão longe dali, apesar de o furacão só surgir dois anos depois. Contudo, dada a observação de um furacão nesse lugar, é questionável que se possa decifrar as causas com qualquer precisão: existem bilhões de bilhões de coisas pequenas como borboletas batendo asas em Timbuktu ou cachorros selvagens espirrando na Austrália que poderiam ter causado o furacão. O processo da borboleta ao furacão é muito mais simples do que o processo reverso do furacão até a borboleta em potencial.

Na cultura geral, a confusão entre os dois processos é desastrosamente difundida. Essa metáfora da borboleta na Teoria do Caos enganou muita gente, encorajando as pessoas a se concentrarem nas pequenas coisas que podem mudar a direção de suas vidas.

“Ei, já que um evento pequeno (uma pétala caindo no chão e chamando sua atenção) pode levar você a escolher uma pessoa e não outra como companheira para toda a vida, você deveria se concentrar nesses detalhes muito pequenos”. Ninguém percebe que está lidando com o processo backward — existem trilhões dessas pequenas coisas no decorrer de um único dia, e examinar todas elas está além de nosso alcance.

Pense em um computador pessoal. Você pode usar um programa de planilhas para gerar uma sequência aleatória, uma sucessão de pontos que podemos chamar de história.

Como? O programa de computador responde a uma equação muito complicada de natureza não linear que gera números aparentemente randômicos. A equação é muito simples: se você souber qual é, poderá prever a sequência. No entanto, é quase impossível para um ser humano aplicar engenharia reversa na equação e prever outras sequências.

Taleb está alertando para os bilhões de eventos simultâneos que constituem a história real do mundo. Em outras palavras, mesmo que a história fosse uma série não aleatória gerada por uma “equação do mundo”, e considerando que aplicar engenharia reversa a tal equação não parece estar ao alcance das possibilidades humanas, ela deveria ser considerada aleatória e não ostentar o nome de “caos determinístico”.

Os historiadores deveriam manter distância da Teoria do Caos e das dificuldades da engenharia reversa, exceto para:

  1. discutir as propriedades gerais do mundo e
  2. aprender os limites do que não podem saber.

Isso leva Taleb a um problema maior com o trabalho dos historiadores. Coloca o problema fundamental da prática da seguinte maneira: enquanto, teoricamente, a aleatoriedade é uma propriedade intrínseca, na prática, a aleatoriedade é informação incompleta, o que chama de opacidade.

Um sistema aleatório verdadeiro é realmente aleatório e não possui propriedades previsíveis. Um sistema caótico possui propriedades inteiramente previsíveis, mas é difícil saber quais são.

Na prática, não existe diferença funcional entre os dois, já que nunca conseguiremos distingui-losa diferença é matemática e não prática. Se vejo uma mulher grávida, o sexo da criança é uma questão inteiramente aleatória para mim (uma chance de 50 por cento para cada sexo) — mas não para o médico dela, que pode ter realizado um ultrassom. Na prática, a aleatoriedade é, fundamentalmente, informação incompleta.

O simples fato de que uma pessoa está falando sobre a diferença sugere que ela nunca tenha tomado uma decisão significativa sob condições de incerteza — e é por isso que não percebe que os sistemas são indistinguíveis na prática.

Aleatoriedade, no final das contas, é apenas desconhecimento. O mundo é opaco e as aparências enganam.

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