Média versus Variáveis Extremas ou Teoria versus Prática

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Nassim Nicholas Taleb, em seu livro “A lógica do Cisne Negro: O impacto do altamente improvável”, afirma que lidamos com questões que se relacionam com variáveis extremas, mas que são tratadas como se pertencessem à dominância da média, como uma “aproximação”.

Centenas de milhares de estudantes em Faculdades de Economia e em Departamentos de Ciências Sociais, assim como pessoas no mundo dos negócios, continuam a estudar métodos “científicos”, todos baseados no gaussiano, todos incrustados na falácia lúdica.

Taleb examina os desastres que brotam da aplicação de Matemática fajuta à Ciência Social. O tópico real pode ser os perigos trazidos para a sociedade pela academia sueca que concede o Prêmio Nobel.

Nos últimos cinquenta anos, os dez dias mais extremos nos mercados financeiros representam metade dos retornos. Dez dias em cinquenta anos. Enquanto isso, estamos atolados em futilidades.

Taleb execra qualquer pessoa que fale sobre mercados em termos gaussianos. Mas todo mundo tem dificuldades em dar o salto para compreender as consequências desse conhecimento.

O mais estranho é que as pessoas no mundo dos negócios costumam concordar com Taleb quando lhe escutam ou lhe veem defendendo sua posição. Mas, quando vão ao escritório no dia seguinte, retornam às ferramentas gaussianas que estão tão firmadas em seus hábitos. Suas mentes são domínio-dependentes, de forma que podem exercitar pensamento crítico em uma conferência sem fazer o mesmo no escritório.

Além do mais, as ferramentas gaussianas fornecem números a elas, o que parece ser “melhor do que nada”. A medida resultante de incerteza futura satisfaz o desejo incrustado de simplificar, mesmo que isso signifique espremer em um único número questões que são ricas demais para serem descritas dessa forma.

Taleb concluiu o Capítulo 1 de “A lógica do Cisne Negro: O impacto do altamente improvável” com a quebra do mercado de ações de 1987, o que lhe permitiu perseguir agressivamente a ideia do Cisne Negro. Logo depois da quebra, quando afirmou que aqueles que utilizavam sigmas (ou seja, desvios padrões) como medida do grau de risco e de aleatoriedade eram charlatães, todos concordaram consigo. Se o mundo das Finanças fosse gaussiano, um episódio como a quebra da Bolsa (mais do que vinte desvios padrões) aconteceria uma vez a cada muitos bilhões de vezes o tempo de vida do universo!

As pessoas aceitaram que eventos raros acontecem e são a principal fonte de incerteza. Elas apenas não tinham intenção de desistir do gaussiano como ferramenta central de medição — “Ei, não temos nada além disso”. As pessoas querem um número em que possam se ancorar…

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E, agora, uma breve história do Prêmio “Nobel” de Economia, que foi fundado pelo Banco da Suécia em homenagem a Alfred Nobel, que pode estar agora, segundo sua família, que deseja a abolição do prêmio, rolando de desgosto no túmulo. Um membro ativista da família define o prêmio como um golpe de relações públicas feito por economistas visando colocar seu campo em um nível mais alto do que o merecido.

O comitê adquiriu o hábito de entregar Prêmios Nobel àqueles que “trazem rigor” ao processo com pseudociência e matemática fajuta. Depois da quebra do mercado de ações, premiaram dois teóricos, Harry Markowitz e William Sharpe, que construíram modelos lindamente platônicos com base gaussiana, contribuindo para o que é chamado de Moderna Teoria de Administração de Carteiras. Simplesmente, se você remover as pressuposições gaussianas deles e tratar os preços como se fossem escaláveis, o que resta é apenas fanfarrice.

O comitê não veio a nós, praticantes, para pedir nossas opiniões; em vez disso, contou com um processo acadêmico de avaliação que, em algumas disciplinas, pode ser corrupto até a medula. Depois da premiação, Taleb fez uma previsão: “Em um mundo em que esses dois recebem o Nobel, tudo pode acontecer. Qualquer um pode vir a ser presidente”.

Portanto, o Banco da Suécia e a Academia Nobel são amplamente responsáveis por darem crédito ao uso da Moderna Teoria de Administração de Carteiras gaussiana, pois as instituições a consideraram uma ótima abordagem para se protegerem. Curiosamente, todos no mundo dos negócios sabiam inicialmente que a ideia era uma fraude, mas as pessoas acostumam-se com tais métodos.

O que determina o destino de uma teoria na Ciência Social é o contágio, não sua validade.

Taleb só percebeu mais tarde que professores de Finanças com treinamento gaussiano estavam assumindo o controle das Faculdades de Economia, portanto também dos programas de MBA, e produzindo cerca de 100 mil estudantes por ano apenas nos Estados Unidos, todos vítimas de lavagem cerebral feita por uma teoria de administração de carteiras fajuta. Nenhuma observação empírica poderia impedir a epidemia.

“Para que se tenha uma noção do grau de seriedade intelectual envolvida e para se comparar a economia neoclássica com uma ciência mais honesta, considere a seguinte declaração do pai da medicina moderna do século XIX, Claude Bernard: “Fatos por enquanto, mas com aspirações científicas para mais tarde.” Os economistas deveriam ser enviados para a Faculdade de Medicina.

Assim, a curva gaussiana infiltrou-se na cultura de negócios e na científica, e termos como sigma, variância, desvio-padrão, correlação, R quadrado e a epônima taxa Sharpe, todos ligados diretamente a ela, infiltraram-se no jargão.

Se você ler um prospecto de um fundo mútuo ou a descrição da exposição de um fundo de hedge, é bem provável que forneçam, além de outras informações, algum resumo quantitativo alegando medir “riscos”. Essa medição será baseada em uma dessas palavras de efeito derivadas da curva na forma de sino e de seus parentes.

Hoje, por exemplo, a política de investimento de fundos de pensão e a escolha de fundos são avaliadas por “consultores” que se baseiam na Teoria de Administração de Carteiras. Se houver um problema, eles podem alegar que se basearam em um método científico padrão.

[FNC: é melhor errar junto com outros do que sozinho; isoladamente, você será despedido; da outra forma você alega ter sido mais uma vítima de acontecimento coletivo…]

One thought on “Média versus Variáveis Extremas ou Teoria versus Prática

  1. Reblogged this on nilsonbarcellosnunes and commented:
    Desde a divulgação do “Paradoxo de Godel”, sabe-se que a matemática não pode explicar a Economia em particular nem as Ciências Humanas em geral. Mas a academia e um amontoado de “cabeças de planilha” (Nassif), continuam a fazê-lo. O fazem não só por falta e compromisso intelectual, mas por estarem embotados pelo domínio da síntese neoclássica no particular e pela escola marginalista no geral.

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