Empirismo Cético

DUAS FORMAS DE ABORDAR A ALEATORIEDADE

Empirismo Cético e
a Escola Aplatônica

Abordagem Platônica

Interessado no que jaz fora da dobra platônica Concentra-se no interior da dobra platônica
Respeito por aqueles que têm coragem de dizer “Eu não sei” “Você continua criticando esses modelos. Eles são tudo que temos”
Vê o Cisne Negro como uma forma dominante de aleatoriedade Vê flutuações ordinárias como fonte dominante de incerteza, vendo os saltos como uma reflexão posterior
Caráter prático Dogmática
Normalmente, não usaria ternos (exceto em funerais) Veste ternos escuros e camisas brancas; fala em um tom monótono
Prefere estar certo de maneira geral Precisamente errado
Mínimo de teoria, considera a teoria uma doença a ser resistida Tudo precisa se encaixar em um modelo geral socioeconômico grandioso e no “rigor da teoria econômica”; vê o “descritivo” com desagrado
Não acredita que se pode computar probabilidades facilmente Construiu todo o seu aparato em torno da pressuposição de que podemos computar probabilidades
Modelo: Sextus Empiricus e a escola empírica de Medicina baseada em evidências, com o mínimo de teoria Modelo: Mecânica de Laplace, o mundo e a economia como um relógio
Desenvolve intuições a partir da prática, parte da observação para os livros Baseia-se em artigos científicos e parte de livros para a prática
Não é inspirado por qualquer ciência, usa matemática confusa e métodos computacionais Inspirada pela física, baseia-se em matemática abstrata
Ideias baseadas no ceticismo, nos livros não lidos na biblioteca Ideias baseadas em crenças, no que acredita que sabe
Presume que o ponto de partida é o Extremistão Presume que o ponto de partida é o Mediocristão
Técnica sofisticada Ciência pobre
Procura estar aproximadamente certo, abrangendo uma vasta gama de eventualidades Busca ser perfeitamente correta em um modelo estreito, sob pressuposições precisas”

Os anos pós-quebra do mercado de ações foram intelectualmente divertidos para Nassim Nicholas Taleb, autor de “A lógica do Cisne Negro: O impacto do altamente improvável”. Assistia a conferências sobre Finanças e Matemática da incerteza — e nenhuma vez sequer encontrou um palestrante, premiado ou não com o Nobel, que entendesse sobre o que estava falando quando o assunto era probabilidade, então Taleb podia enlouquecê-los com suas perguntas.

Eles fizeram “trabalhos profundos sobre Matemática”, mas quando perguntados onde obtinham suas probabilidades, as explicações que davam deixavam claro que tinham sido vítimas da falácia lúdica — havia uma coabitação estranha de habilidades técnicas e de ausência de compreensão, do tipo encontrada em idiot savants. Não obteve uma resposta inteligente sequer ou que não fosse ad hominem.

Como Taleb estava questionando todo o seu trabalho, foi compreensível que ele tenha atraído toda forma de insultos: “obsessivo”, “comercial”, “filosófico”, “ensaísta”, “homem ocioso que vive de renda”, “repetitivo”, “mero prático” (um insulto no meio acadêmico) e “acadêmico” (um insulto no mundo dos negócios). “Não é tão ruim ser vítima de insultos irados; você pode se acostumar rápido com isso e se concentrar no que não é dito”.

Taleb sugere: “Apenas mantenha a compostura, sorria, concentre-se em analisar o falante e não a mensagem, e você vencerá a discussão. Um ataque ad hominem contra um intelectual, não contra uma ideia, é altamente lisonjeiro. Ele indica que a pessoa não tem nada de inteligente a dizer sobre sua mensagem”.

Era sintomático que quase todas as pessoas que atacavam seu modo de pensar atacavam uma versão deformada dele, como “é tudo aleatório e imprevisível” em vez de “é altamente aleatório”, ou confundiam-se lhe mostrando como a curva na forma de sino funciona em certos domínios físicos. “Outras pessoas que investiram boa parte da vida nessas ideias recorreram ao vandalismo na Web”.

Economistas invocam com frequência um argumento estranho de Milton Friedman que afirma que modelos não precisam de pressuposições realistas para que sejam aceitáveis — dando-lhes licença para produzir representações matemáticas gravemente defeituosas da realidade. Obviamente, o problema é que essas gaussianizações não têm pressuposições realistas e não produzem resultados confiáveis. Elas não são nem realistas nem preditivas.

Repare também em um viés mental que Taleb encontra às vezes: as pessoas confundem um evento com uma probabilidade pequena, como, por exemplo, uma em vinte anos, com outro de ocorrência periódica. Eles pensam que estarão seguros se só forem expostos a ele por dez anos.

Taleb teve dificuldades em transmitir a mensagem sobre a diferença entre a média e as variáveis extremas — muitos argumentos apresentados a ele eram sobre como a sociedade tem se saído bem com a curva na forma de sino —, embora bastasse olhar para escritórios de crédito…

O único comentário que Taleb considerou inaceitável foi: “Você está certo; precisamos que nos lembre da fraqueza desses métodos, mas não se pode jogar o bebê fora com a água do banho”, querendo dizer que Taleb precisava aceitar a distribuição gaussiana redutiva e aceitar ao mesmo tempo em que grandes desvios pudessem ocorrer — eles não percebiam a incompatibilidade das duas abordagens. Era como se fosse possível estar meio morto. Em vinte anos de debates, nenhum desses usuários da teoria de administração de carteira explicou como poderiam aceitar a estrutura gaussiana e também os grandes desvios. Nenhum.

Todo o ramo da Estatística confundia ausência de prova com prova de ausência. Além do mais, as pessoas não compreendem a assimetria elementar envolvida: basta uma única observação para se rejeitar a curva gaussiana, mas milhões de observações não confirmarão plenamente a validade de sua aplicação.

Por quê? Porque a curva na forma de sino gaussiana não permite grandes desvios, mas as ferramentas relacionadas às variáveis extremas, a alternativa, não deixam de permitir longos períodos de tranquilidade.

Quando a LTCM quebrou, em 1998, quase levou consigo todo o sistema financeiro, pois as exposições foram gigantescas. Como os modelos dela excluíam a possibilidade de grandes desvios, eles se permitiram correr um risco monstruoso. As ideias de Merton e Scholes, assim com as da Moderna Teoria de Administração de Carteiras, começavam a ruir.

Observando a metodologia do conhecimento marcado pelo obscurantismo do academicismo, Taleb vê o seguinte padrão:

  • Ele começa com pressuposições rigidamente platônicas, completamente irrealistas — como as probabilidades gaussianas, entre muitas outras também perturbadoras.
  • Em seguida, gera “teoremas” e “provas” a partir deles.
  • A matemática é enxuta e elegante.
  • Os teoremas são compatíveis com outros teoremas da Moderna Teoria de Administração de Carteiras, que por sua vez são compatíveis com outros teoremas, construindo uma grande teoria de como as pessoas consomem, economizam, encaram a incerteza, gastam e projetam o futuro.
  • Ele pressupõe que conhecemos a probabilidade dos eventos.
  • A abominável palavra equilíbrio está sempre presente.
  • Mas a construção toda é como um jogo que é inteiramente fechado, como o Banco Imobiliário com todas as regras.

Um acadêmico que aplica tal metodologia é parecido com a definição de louco feita por Locke: alguém que “raciocina corretamente a partir de premissas errôneas”.

Agora a Matemática elegante possui a seguinte propriedade: é perfeitamente certa, e não 99% certa. Tal propriedade é atraente para mentes mecanicistas que não querem lidar com ambiguidades.

Infelizmente, é preciso trapacear em algum lugar para fazer com que o mundo se encaixe na Matemática perfeita; e você precisa falsificar suas pressuposições em algum lugar. Mas quem lida com a realidade só quer saber de pressuposições realistas…

Farsantes iniciaram o jogo do “pensamento formal” através da criação de premissas falsas para gerar teorias “rigorosas”. Todos seguidores podem ser seguramente acusados de terem inventado um mundo imaginário, um mundo que se prestava à sua Matemática. Quem disser que um grau de abstração excessiva desses modelos, alguns passos além da necessidade, torna-os completamente inutilizáveis, será ostracizado — destino comum para dissidentes…

Eles estabelecem as regras do jogo, e você ainda precisa respeitá-las!

Vindo de um passado de praticante (operador no mercado financeiro), no qual o principal recurso é ser capaz de trabalhar com Matemática confusa, mas empiricamente aceitável, Taleb não pode aceitar uma pretensa Ciência. Prefere um trabalho sofisticado, centrado em truques, a uma Ciência falida que busca certezas.

O empirismo cético defende o método contrário. Importa-se mais com as premissas do que com as teorias e deseja minimizar a dependência nas teorias, andar com leveza e reduzir as surpresas. Prefere estar certo de modo geral do que precisamente errado.

Elegância em teorias indica, com frequência, platonismo e fraqueza — é um convite para a busca da elegância pela própria elegância. Uma teoria é como um remédio (ou governo): frequentemente inútil, ocasionalmente necessária, sempre autosserviente e de vez em quando fatal. Portanto, precisa ser utilizada com cuidado, moderação e sob a supervisão atenta de um adulto.

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