Concentração na Pauta de Exportações Brasileiras e Especulação com Commodities

concentracao-na-pauta-de-exportacoesOs colunistas cultivadores de mitos, assim como o próprio Ministro da Fazenda, dizem que “a nossa crise decorre de razões domésticas; não se trata de consequência de uma crise externa“. De fato, a causa da atual depressão está no “aqui-e-agora”:  a volta da Velha Matriz Neoliberal em 2015 e seu aprofundamento no ano corrente com o governo golpista!

Sérgio Lamucci (Valor, 13/10/16) informa que um grupo de cinco commodities responde por mais de 40% das exportações brasileiras, mesmo com a forte queda dos preços básicos registrada desde o pico atingido há cinco anos, após a concentração ocorrida como efeito da crise mundial de 2008. Nos primeiros nove meses de 2011 — a explosão da “bolha de commodities” data de setembro de 2011 — e também de 2014, esses cinco produtos haviam respondido por quase 47% das exportações totais.

De janeiro a setembro deste ano (2016), as vendas de minério de ferro, complexo soja, óleos brutos de petróleo, açúcar e complexo carnes foram responsáveis por 41,4% do total destinado ao exterior. Embora os preços tenham caído muito desde 2011, a participação desse grupo de commodities nas vendas externas do país recuou pouco nos últimos anos em parte porque o volume exportado seguiu em alta.

Números da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex) mostram que as cotações dos produtos básicos recuaram quase 48% quando se compara o período de janeiro a agosto de 2011 com o mesmo intervalo de 2016. Ao mesmo tempo, as quantidades vendidas ao exterior desses bens subiram 33,6%.

A concentração diminuiu um pouco pela queda de preços, mas não muito, porque os volumes continuaram a aumentar. Outro motivo é que as exportações de produtos manufaturados tiveram um desempenho decepcionante ao longo desse período. Os preços desse bens caíram 21% entre os oito primeiros meses de 2011 e igual intervalo de 2016, enquanto o volume destinado ao exterior ficou praticamente estável, recuando 0,4%.

resultado ruim das exportações industriais no período explica por que poucas commodities concentram uma fatia expressiva das vendas externas do país.

Os números mostram os problemas de competitividade do setor manufatureiro. As quantidades exportadas desses produtos aumentaram neste ano, mas mostram algum arrefecimento nos últimos meses, um possível reflexo do câmbio um pouco mais valorizado.

A maior concentração da pauta de exportações nesses cinco produtos ganhou força a partir de meados da década passada, quando houve a explosão dos preços de commodities, por causa do fortíssimo crescimento da China. No período de janeiro a setembro de 2005, eles tinham participação de 28,3% no total exportado pelo país, fatia que subiu ano a ano até 2011, quando beirou os 47%. Os preços dos produtos básicos avançaram 159% em cinco anos, enquanto o volume destinado ao exterior desses bens subiu quase 37% destinado ao exterior.

O grande destaque no boom foi o minério de ferro, que viu os preços e os volumes exportados dispararem, especialmente pela importação chinesa. O produto, que respondia por menos de 6% das exportações totais de janeiro a setembro de 2005, pulou para mais de 16% da pauta no mesmo intervalo de 2011.

A queda das cotações do minério, porém, mudou o quadro, fazendo encolher o percentual do produto nas exportações brasileiras totais. Nos primeiros nove meses deste ano, as vendas de minério responderam por 6,6% do total

Em fevereiro de 2011, os preços do produto chegaram na casa de US$ 190 por tonelada, caindo abaixo de US$ 40 em dezembro de 2015. Neste ano, as cotações bateram acima de US$ 60 em agosto e neste mês estão na casa de US$ 55. Com isso, as exportações de minério de ferro, que renderam mais de USS 30 bilhões no período de janeiro a setembro de 2011, totalizaram quase US$ 9,2 bilhões no mesmo intervalo de 2016.

Os preços da soja também caíram desde o pico, mas a queda foi menos abrupta do que a do minério de ferro. Nesse cenário, as exportações do complexo soja (grão, farelo e óleo) ganharam espaço na pauta das vendas externas do Brasil. De janeiro a setembro deste ano, responderam por quase 17% do total; no mesmo período de 2011, a fatia do complexo soja ficou em 10,5%.

A exportação de óleos brutos de petróleo, que chegou a atingir 8,7% em 2012, perdeu participação, e neste ano está apenas um pouco acima de 5%.

Um dos problemas de uma pauta exportada concentrada em poucas commodities é que o balanço comercial fica sujeita às oscilações dos preços de alguns poucos produtos. A situação do Brasil é obviamente diferente de países onde um produto primário tem um peso muito maior nas vendas externas totais, como a Venezuela, mas a concentração do que o Brasil exporta em algumas commodities é desconfortável.

Como há um fraco desempenho das exportações de manufaturados ao longo da última década, o que ocorre há dez anos é um fenômeno sistemático. Não há como colocar o problema apenas na conta do câmbio. Há um problema mais amplo de competitividade do setor industrial.

campeas-do-ibovespa

Enquanto isso, Thais Carrança e Renato Rostás (Valor, 27/10/16) informam que, pela primeira vez em quase uma década, companhias ligadas a commodities minerais lideram os ganhos do Ibovespa no ano. As ações das siderúrgicas CSN, Usiminas e Gerdau, além da Petrobras e da Bradespar, que integra o bloco de controle da mineradora Vale, ocupam as sete primeiras posições entre os ativos mais valorizados do principal índice da bolsa brasileira, com ganhos que variam de 104% a 156% até o dia 14/10/16, frente à alta de 42% da carteira teórica.

A última vez em que essas empresas estiveram em bloco no topo do Ibovespa foi ao fim de 2007, ano de preços das commodities minerais em alta, impulsionados pelo crescimento chinês, e período de ouro da bolsa brasileira, com expressivo aumento de investidores e recorde de aberturas de capital. O levantamento foi feito pela consultoria Economatica e considera a composição atual do índice, replicada aos anos anteriores.

As sete ações que lideram o Ibovespa incluem os papéis ordinários de CSN, preferenciais e ONs da Petrobras, Usiminas PNA, Gerdau PN e Metalúrgica Gerdau PN, além de Bradespar PN.

A recuperação nos preços do petróleo e do minério de ferro, após as fortes quedas no ano passado e início deste ano, a mudança de rumo (do social-desenvolvimentista para o neoliberal) da política macroeconômica e para uma política impopular no Brasil, e alterações no cenário internacional, confluíram para a volta das produtoras de commodities ao topo em 2016 – ainda que muito abaixo das máximas históricas. Para além desses fatores gerais, há particularidades dos setores e das empresas.

A siderurgia, que sofreu muito com a queda da demanda, agora se recupera “diante da expectativa de retomada da economia brasileira”.🙂

Já a Petrobras supera seus pares internacionais pela boa recepção do mercado à guinada na administração da companhia, que chegou ao fundo do poço no ano passado, em meio às investigações sobre corrupção da operação Lava-Jato.

Fora do auge do Ibovespa, a Vale acumula altas de 61% e 38% para suas ações preferenciais classe A e ordinárias, respectivamente, apoiada na sustentação do preço do minério, além de salto recente do carvão.

A Bradespar reflete este movimento, com ganho adicional, pois estava muito descontada, e devido à renegociação do acordo de acionistas da mineradora, do qual é parte no bloco de controle.

Do fim do ano passado para o começo deste ano, o temor internacional quanto ao aumento de juros nos Estados Unidos e de desaceleração do crescimento global, especialmente da China, fez O Mercado precificar um cenário muito pessimista para as commodities em 2016.

A reversão dessas expectativas catastróficas quanto ao desempenho da economia chinesa, combinada a excesso de liquidez no mercado internacional e investidores sedentos por retorno, em meio a juros muito baixos ou negativos nos países desenvolvidos, compõem o quadro da valorização das companhias de commodities brasileiras.

Com alta de cerca de 30% no ano, o minério de ferro tem mostrado resistência nos níveis atuais. A retomada da produção siderúrgica chinesa, em meio a estímulos locais à economia, e uma percepção de disciplina na oferta pelas gigantes Vale, Rio Tinto e BHP Billiton contribuem para segurar as cotações.

O petróleo, com ganho em torno de 40%, desde o fim de 2015 até o dia 14/10/16, para o tipo Brent, tomou fôlego recente, com o anúncio pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) de que seus membros pretendem congelar a produção. Isso apesar da expectativa de que o excesso de oferta perdure por mais tempo do que se acreditava antes.

A alta do petróleo e das commodities em geral favoreceu as empresas brasileiras, mas o que fortaleceu mais O Mercado foi o golpe de Estado no Brasil, favorável aos interesses rentistas e prejudicial aos benefícios sociais, precedida por uma crise política e uma deterioração fiscal, provocada pelo locaute empresarial.

A mudança no cenário político teve impacto nos indicadores de expectativa da economia, como a curva de juros futuros, com efeito sobre as projeções para a empresas de commodities, que são de capital intensivo e, muitas delas, altamente alavancadas. Além disso, a piora das estimativas para oferta de crédito e crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) reverte a expectativa para o consumo de aço em 2017.

Se a perspectiva da siderurgia é de melhora, por que?! Não dá para saber se vai ser muito forte, mas os analistas dizem que acreditam que no ano que vem o mercado de aço deve melhorar simplesmente porque estão comprados nessas ações. Já neste mês, Usiminas, CSN e ArcellorMittal anunciaram um reajuste de 5% para o aço plano, a ser implementado em novembro, na quarta alta de preços no ano.

Além disso, para a Usiminas, por exemplo, pesa a melhora na solvência da empresa. A siderúrgica chegou a ser vista como forte candidata a entrar em recuperação judicial no início do ano, mas mudou de situação após injeção de capital pelos sócios e reestruturação de dívida.

Apesar dessa mudança de cenário, é hora de realizar lucros no setor. Há pressões de custos no curto prazo devido à alta do carvão e risco de choque de oferta com o religamento de alto-fornos e importação em alta. Além disso, o atual nível de preço das ações implica uma expectativa agressiva de melhora nos resultados, não justificadas pelos fundamentos do setor.

Petrobras também já não está mais interessante para compra, diante do ganho acumulado no ano – de 143% para as ações preferenciais e 109% para ordinárias. A mudança de administração e de orientação do governo com relação ao setor de petróleo e gás, além do arrefecimento da Lava-Jato, já estão precificados.

Enquanto isso, o alto endividamento e o ceticismo quando à execução do plano de desinvestimentos da companhia — além da dúvida quanto ao que vai ser da empresa após 2018, ao fim do governo golpista de Michel Temer – justificam a cautela e recomendação neutra para os papéis da estatal.

Para Bradespar e Vale, os analistas dizem que não há nada oficial que justifique a diferença entre a valorização das ações de controladora e controlada. Pode ser O Mercado tentando se colocar na holding, que pode mudar um pouco seus investimentos, talvez adquirir outros ativos. Pode ser também especulação sobre mudança no acordo de acionistas da Vale…

Enfim, os analistas de O Mercado são meros especuladores interesseiros em formar opinião pública ou especializada favorável aos seus interesses — compraram antes o que anunciam como boa compra para os demais “que chegam tarde”.

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