Um Só Caminho, Uma Mesma Humanidade

evolucao

Celso Castro, na apresentação do livro “Evolucionismo Cultural: Textos de Morgan, Tylor e Frazer”, informa que, aplicada à antiga questão da enorme diversidade cultural humana, percebida tanto nas sociedades que existiram no passado como nas que conviviam contemporaneamente no espaço, a Perspectiva Evolucionista em Antropologia baseava-se em um raciocínio fundamental: reduzir as diferenças culturais a estágios históricos de um mesmo caminho evolutivo.

O postulado básico do Evolucionismo em sua fase clássica era, portanto, que, em todas as partes do mundo, a sociedade humana teria se desenvolvido em estágios sucessivos e obrigatórios, em uma trajetória basicamente unilinear e ascendente. A possibilidade lógica oposta, de que teria havido uma degeneração ou decadência a partir de um estado superior — ideia que tinha por base uma interpretação bíblica — precisava ser descartada, como se poderá ver nos textos reunidos nesse livro. Toda a humanidade deveria passar pelos mesmos estágios, seguindo uma direção que ia do mais simples ao mais complexo, do mais indiferenciado ao mais diferenciado.

O caminho da evolução seria, nas palavras de Morgan, natural e necessário: “Como a humanidade foi uma só na origem, sua [dependência detrajetória tem sido essencialmente uma, seguindo por canais diferentes, mas uniformes, em todos os continentes, e muito semelhantes em todas as tribos e nações da humanidade que se encontram no mesmo status de desenvolvimento.”

Um corolário desse postulado era o da unidade psíquica de toda a espécie humana, a uniformidade de seu pensamento. Isso distinguia os autores evolucionistas clássicos da antiga tradição poligenista da Antropologia, que argumentava que as “raças humanas” tiveram origens diferentes, estando assim permanentemente estabelecidas uma desigualdade natural e uma hierarquia entre elas.

[FNC: leia Sapiens: Uma Breve História da Humanidade]

Tylor, numa passagem de seu texto, é especialmente claro ao afirmar ser “tanto possível quanto desejável eliminar considerações de variedades hereditárias, ou raças humanas, e tratar a humanidade como homogênea em natureza, embora situada em diferentes graus de civilização”.

No entanto, mesmo proclamando uma origem única para todas as raças (monogenismo), por vezes esses e outros autores se contradiziam ao tratar das raças humanas. Estas eram geralmente consideradas (não só por eles, como pelo público culto em geral) como desiguais, senão em gênero, ao menos em grau.

Como decorrência da visão de um único caminho evolutivo humano, os povos “não ocidentais”, “selvagens” ou “tradicionais” existentes no mundo contemporâneo eram vistos como uma espécie de “museu vivo” da história humanarepresentantes de etapas anteriores da trajetória universal do homem rumo à condição dos povos mais “avançados”; como “exemplos vivos daquilo “que já fomos um dia”. Para Frazer, “o selvagem é um documento humano, um registro dos esforços do homem para se elevar acima do nível da besta”.

Nas palavras de Morgan: “…as instituições domésticas dos bárbaros, e mesmo dos ancestrais selvagens da humanidade, ainda estão exemplificadas em partes da família humana, e com tamanha completude que, exceto pelo período estritamente primitivo, os diversos estágios desse progresso estão razoavelmente preservados”.

Na medida em que a Arqueologia era então pouco desenvolvida e não havia registros históricos disponíveis para a reconstituição dos estágios supostamente mais “primitivos” — a maior parte da trajetória humana — o estudo dessas sociedades assumia enorme importância, pois assim se poderia reconstituir o caminho evolutivo da humanidade, através de suas diferentes etapas.

Passava-se a dispor de uma espécie de “máquina do tempo” que permitia, observando o mundo dos “selvagens” de hoje, ter uma ideia de como se vivia em épocas passadas. Assim, as informações sobre a sociedade antiga e sobre a mente do homem primitivo, até então dependentes dos relatos da antiguidade greco-romana — Heródoto, Tucídides, Tácito etc. — poderiam ser complementadas por novos relatos.

Nas palavras de Frazer, “…um selvagem está para um homem civilizado assim como uma criança está para um adulto; e, exatamente como o crescimento gradual da inteligência de uma criança corresponde ao crescimento gradual da inteligência da espécie e, em um certo sentido, a recapitula, assim também um estudo da sociedade selvagem em vários estágios de evolução permite-nos seguir, aproximadamente – embora, é claro, não exatamente —, o caminho que os ancestrais das raças mais elevadas devem ter trilhado em seu progresso ascendente, através da barbárie até a civilização. Em suma, a selvageria é a condição primitiva da humanidade, e, se quisermos entender o que era o homem primitivo, temos que saber o que é o homem selvagem hoje”.

A solução para preencher as “lacunas” do longo período “primitivo” de evolução cultural humana era utilizar o método comparativo, aplicando-o ao grande número de sociedades “selvagens” existentes contemporaneamente. O método comparativo não era uma novidade da Antropologia: ele já havia sido utilizado com sucesso na anatomia animal, por Cuvier, e na linguística, por autores que buscavam chegar a uma língua ancestral comum da qual teriam se originado as diversas línguas indo-europeias.

Em relação à sociedade humana, na medida em que condições externas (como isolamento geográfico e influências ambientais) fizeram com que o ritmo de evolução dos grupos humanos fosse diferente (embora seguindo o mesmo caminho), a variedade daí resultante era fundamental para que a reconstrução dos diferentes estágios do processo evolutivo geral, através do uso do método comparativo, fosse possível. Era isso que permitia aproximar as sociedades “selvagens” contemporâneas a estágios anteriores, “primitivos”, do desenvolvimento das sociedades complexas modernas.

Nas palavras de Tylor, “os europeus podem encontrar entre os habitantes da Groenlândia ou entre os maoris muitos elementos para reconstruir o quadro de seus ancestrais primitivos”.

Um trecho do mesmo autor é claro a respeito de como deve ser feita a aplicação do método comparativo na Antropologia. Um primeiro passo no estudo da civilização é dissecá-la em detalhes e, em seguida, classificá-los em seus grupos apropriados. Assim, ao examinar as armas, elas devem ser classificadas como lança, maça, funda, arco e flecha, e assim por diante; “… o trabalho do etnógrafo é classificar esses detalhes com vistas a estabelecer sua distribuição na geografia e na história e as relações existentes entre ele”. Em que consiste essa “tarefa é um ponto que pode ser quase perfeitamente ilustrado comparando esses detalhes de culturas com as espécies de plantas e animais tal como estudadas pelo naturalista”.

A respeito de como ordenar os itens culturais assim classificados, Tylor apela para o senso comum. Para ele, a ideia de progresso estaria “tão inteiramente instalada em nossas mentes que, por meio dela, reconstruímos, sem escrúpulos, a história perdida, confiando no conhecimento geral dos princípios do pensamento e da ação humana como um guia para pôr os fatos em sua ordem apropriada”.

Outra ideia fundamental do Evolucionismo Cultural era a de “sobrevivências”, definidas por Tylor como “processos, costumes, opiniões, e assim por diante, que, por força do hábito, continuaram a existir num novo estado de sociedade diferente daquele no qual tiveram sua origem, e então permanecem como provas e exemplos de uma condição mais antiga de cultura que evoluiu em uma mais recente”. Nas palavras de Frazer, seriam como que “relíquias” de crenças e costumes dos selvagens “que sobreviveram como fósseis entre povos de cultura mais elevada”.

Exemplos de sobrevivências seriam, em nossas sociedades “modernas”, os muitos costumes, superstições e crendices populares dos quais não se percebia a racionalidade ou a função social. Vistos pelo olhar evolucionista, no entanto, eles ganhavam sentido ao se transformarem em “sobrevivências” de um estágio cultural anterior, vestígios através dos quais se poderia, num trabalho semelhante ao de um detetive, reconstituir o curso da evolução cultural humana.

O estudo científico das “sobrevivências” autorizava o antropólogo a recorrer, portanto, não apenas às sociedades “selvagens”, como também à sua própria sociedade. Tal procedimento ampliava enormemente o campo de investigação, permitindo que se incorporasse à Antropologia aquilo que se costumava designar como “folclore”.

Os autores evolucionistas reunidos por Celso Castro, no livro “Evolucionismo Cultural: Textos de Morgan, Tylor e Frazer”, não acreditavam que mesmo a mais “primitiva” sociedade existente — geralmente, os aborígines australianos — fosse equivalente ao estágio inicial da cultura humana, o “ponto zero” da evolução cultural.

Isso, no entanto, não frustrava o sucesso do empreendimento antropológico, pois o que o transformava em uma Ciência — para além daquilo que poderia ser visto como mera especulação histórica sobre as origens culturais do homem — era a possibilidade de se descobrirem leis, a exemplo das Ciências Naturais. Como resumiu Tylor, “se existe lei em algum lugar, existe em todo lugar”.

É interessante observar, aliás, que o título do texto de Tylor reproduzido nesse livro é, justamente, “A Ciência da Cultura”.

Auge e Declínio do Evolucionismo Cultural

Em relação especificamente à necessidade de o antropólogo ter uma experiência direta e prolongada de convívio com seu “objeto” de pesquisa, o grande marco de ruptura com a tradição evolucionista foi a publicação de Argonautas do Pacífico Ocidental, de Malinowski, em 1922, fruto de prolongada pesquisa de campo entre os nativos das ilhas Trobriand.

Ir a campo passava a ser visto como uma experiência existencial fundamental para o conhecimento etnográfico, o meio através do qual o antropólogo se torna apto a observar uma cultura “de dentro”, para poder compreender o “ponto de vista do nativo” e sua “visão de mundo”. Além de pregar uma Antropologia ao ar livre, Malinowski enfatizava a necessidade de se compreender cada cultura em sua totalidade, sem fragmentá-la.

Outros antropólogos, por exemplo, Boas, já tinham criticado o antigo padrão de disposição das peças dos museus etnográficos, com sua classificação por tipo de atividade ou instrumento, misturando peças de povos de todo o mundo. Esse padrão, de inspiração evolucionista, foi sendo substituído pelo ordenamento de conjuntos de elementos relacionados a diferentes culturas.

Nesse sentido, o procedimento fundamental do método comparativo, tal como preconizado por Tylor — “dissecá-la [a civilização] em detalhes e, em seguida, classificá-los em seus grupos “apropriados” com evidências recolhidas em todo o mundo — passava a ser visto como um método equivocado, e o antropólogo evolucionista aproximava-se do modelo de um colecionador de borboletas que classificava seus espécimes em formatos e cores, sem entender-lhes a morfologia e a fisiologia.

Argonautas veio com um prefácio de Frazer. Malinowski, além de atribuir à leitura de O ramo de ouro o despertar de seu interesse pela Antropologia, contava há anos com o estímulo de Frazer para suas pesquisas. No prefácio, Frazer qualificou a pesquisa de seu “estimado amigo” como valiosa e disse que ela prometia tornar-se, com a publicação de outras monografias de Malinowski sobre os trobriandeses, “um dos trabalhos mais completos e científicos já produzidos sobre um povo selvagem”.

Vinte anos mais tarde, Malinowski faria o obituário de Frazer, elogiando suas qualidades de grande humanista e erudito clássico, mas rejeitando sua teoria e método, e enfatizando que sua morte simbolizava o fim de uma época da Antropologia.

De fato, Frazer foi o último dos antropólogos do período “clássico” do Evolucionismo Cultural. Essa tradição não mais atingiria, na disciplina, o prestígio que desfrutou entre os anos 1870 e a Primeira Guerra Mundial. Não é correto, no entanto, pensar que o Evolucionismo Cultural tenha desaparecido com a morte de Frazer.

No caso específico das ideias de Morgan, como Celso Castro mostrou, a admiração que despertaram em Marx e Engels lhes deu grande sobrevida. Vários antropólogos procuraram dar continuidade ao pensamento evolucionista, buscando atualizá-lo em muitas de suas formulações e, em geral, adotando perspectivas multilineares para a evolução cultural humana. Nessa tradição, Celso Castro destaca Leslie White (1900–1975), Julian Steward (1902–1972) e, no Brasil, Darcy Ribeiro (1922–1997), que, em O processo civilizatório (1968), retraça sua linhagem intelectual, passando por esses autores, até Morgan.

Mais recentemente, o Evolucionismo Cultural, em seus aspectos mais deterministas, voltou a ganhar força ao ser englobado (porém modificado) por uma vertente da biologia moderna que passou a ser conhecida pelo nome de Sociobiologia após a publicação do livro com esse título por Edward O. Wilson, em 1975, e que desde então ressurge periodicamente, sob novas roupagens.

Para além desses exemplos do campo acadêmico, muitas ideias introduzidas pela tradição clássica do Evolucionismo Cultural permanecem até hoje disseminadas no senso comum. Celso Castro conclui a Apresentação do livro “Evolucionismo Cultural: Textos de Morgan, Tylor e Frazer” dizendo que “a leitura dos textos que se seguem permitirá, com facilidade, essa constatação”.

Leia maisSapiens: Uma Breve História da Humanidade

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