Complexidade na Economia: Emergência de um Novo Paradigma

Complexidade Gestão

O capítulo Economia como Objeto Complexo de autoria de Orlando Manuel da Costa Gomes, no livro Modelagem de sistemas complexos para políticas públicas (editores: Bernardo Alves Furtado, Patrícia A. M. Sakowski, Marina H. Tóvolli – Brasília: IPEA, 2015), possui um tópico com o título deste post. Vou resumi-lo.

A economia pode ser classificada como um sistema complexo por duas razões complementares:

  • primeiro, porque um grande número de unidades individuais enceta relações sistemáticas a um nível micro;
  • segundo, porque as interações locais geram regularidades globais que envolvem propriedades emergentes, isto é, propriedades :
    • que são únicas no que respeita ao padrão de interação estabelecido e
    • que, consequentemente, não dependem somente das caraterísticas intrínsecas das unidades individuais envolvidas na relação.

O conceito de complexidade envolve muitas dimensões e necessita ser cuidadosamente dissecado. No que se refere à Ciência Econômica, e de modo a ser rigoroso na definição da economia enquanto sistema complexo, as propriedades a seguir emergem como sendo relevantes.

  • Heterogeneidade: a heterogeneidade é o principal motor das relações econômicas; estas relações – por exemplo, as relações de troca – simplesmente não teriam lugar se todos os indivíduos partilhassem:
  1. as mesmas preferências,
  2. a mesma dotação de recursos e
  3. as mesmas competências.

A economia é um sistema constituído por um grande número de componentes, com cada componente detendo as suas próprias caraterísticas.

A tentativa da teoria econômica em construir o seu raciocínio em torno da explicação do comportamento de um agente representativo racional, desta forma negligenciando todas as possíveis fontes de heterogeneidade, é até certo ponto uma fragilidade relevante.

Há uma impossibilidade na abordagem reducionista:

  1. o comportamento da multidão é, na sua essência, diferente do comportamento do indivíduo;
  2. a ação coletiva tem uma lógica que lhe é própria, uma lógica que só pode ser entendida quando se considera heterogeneidade entre agentes.

Descentralização: a economia é um sistema auto-organizado e descentralizado.

O resultado agregado advém da livre iniciativa de cada agente individual que atua com o propósito de servir o seu próprio interesse, e isto ocorre sem que haja necessidade de intervenção de qualquer entidade exterior ou de qualquer planejador central.

A ideia de equilíbrio descentralizado é um conceito antigo da Ciência Econômica que muitos dos seus cientistas mais proeminentes recorrentemente foram recuperando.

Por exemplo, Friedrich von Hayek (1967) referiu-se à existência de uma ordem espontânea, de acordo com a qual as leis de movimento observadas são o resultado da interação estabelecida entre agentes que prosseguem o seu próprio interesse. Do ponto de vista de Hayek, a economia é entendida como uma teia complexa de relações e transações em um ambiente que é semelhante àquilo que se pode definir como uma rede complexa ou como um objeto complexo.

Abordagens contemporâneas sobre a questão da complexidade continuam a destacar a natureza da economia como uma rede descentralizada.

É possível interpretar as relações de mercado como o produto do comportamento das empresas que individualmente procuram potenciar os seus lucros. Cada empresa individual irá agir com o propósito de servir os seus objetivos próprios; no entanto, ao fazê-lo irá emergir um padrão coerente de transações ao nível macro.

As regularidades globais não são o resultado de coordenação central;

  • pelo contrário, ninguém isoladamente irá abarcar a capacidade de reunir o imenso conhecimento e poder que são requeridos para controlar as relações de mercado;
  • em consequência, os padrões agregados que eventualmente emergem estão muitas vezes para além da compreensão de cada agente individual.
  • Evolução: a economia é um sistema dinâmico no interior do qual os indivíduos vão aprendendo e adaptando os seus comportamentos.

O processo de interação molda o modo como os agentes atuam, uma vez que eles evoluem à medida que as relações entre eles se desenrolam.

Um sistema complexo é necessariamente formado através de um processo de evolução. Os organismos simples dão origem a entidades mais sofisticadas por via de adaptação no contexto de um ambiente em constante mutação.

Um processo darwiniano de sobrevivência dos mais aptos tem lugar na economia da mesma forma que ocorre em muitos outros contextos.

O processo evolutivo é um processo moroso que acrescenta camadas sucessivas de complexidade à teia de interações previamente existentes.

Instituições, que assumem um elevado nível de sofisticação na economia contemporânea, são o resultado de uma evolução gradual e incremental:

  1. as instituições de mercado,
  2. as instituições financeiras e
  3. as entidades reguladoras.

Economistas institucionalistas e evolucionários designam o processo de evolução dos sistemas que conduz à sofisticação das redes complexas como replicação generativa. O termo replicação relaciona-se com a ideia de que, de uma etapa para a etapa seguinte, alguma informação é passada, ou seja, um novo sistema possui sempre algumas caraterísticas dos sistemas anteriores que lhe deram origem.

Todavia, um novo sistema raramente se limita a replicar o sistema precedente, normalmente acrescenta-lhe algo novo.

Um processo generativo:

  1. é um processo que se constrói sobre gerações passadas de modo a apresentar uma nova e melhorada versão da realidade;
  2. é um processo que é capaz de introduzir inovação;
  3. é um processo de destruição criativa.

Sob esta perspectiva, pode-se afirmar que a economia é um sistema crescentemente complexo que chegou ao estado atual de complexidade após milhões de anos de evolução.

  • Dependência em face do passado e dinâmica fora do equilíbrio: como implicitamente mencionado no ponto anterior, o sistema econômico é historicamente determinado.

O atual estado de um sistema tem particularidades próprias, que são resultado dos acontecimentos específicos que o promoveram. A história não se repete necessariamente, e, por conseguinte, não haverá razões para crer que um dado cenário econômico observado no passado irá ocorrer no futuro exatamente com as mesmas caraterísticas.

É o conjunto de condições específicas associadas ao caráter dos agentes, ao contexto institucional, à dinâmica de interação e ao ambiente onde a interação tem lugar que irá determinar o desempenho da economia, e é de fato pouco plausível que uma tão grande quantidade de requisitos específicos se reúna de forma recorrente.

Em virtude do anteriormente referido e porque os agentes se adaptam, aprendem e evoluem, a economia não tem tendência a permanecer numa posição de equilíbrio ou de se estabilizar num estado estacionário.

A interação em ambientes complexos raramente irá produzir um estado de equilíbrio.

Mesmo modelos aparentemente simples construídos sobre a noção de interação local entre agentes heterogêneos podem gerar um comportamento dinâmico complexo e irregular, onde o valor das variáveis de interesse flutua para sempre sem que haja qualquer convergência para um estado estacionário.

Adicionalmente, em ambientes complexos, novos padrões de interação podem emergir após milhares de períodos depois de iniciar uma simulação numérica de um destes modelos, mesmo quando nenhum acontecimento externo perturba o sistema.

2 thoughts on “Complexidade na Economia: Emergência de um Novo Paradigma

  1. Análise economicista sem nenhuma objetividade. Mera tautologia, e metodologia formalista.
    Após estudar o livro Contribuicao à Crítica da Economia Política de Karl Marx, percebemos o esforço intelectual dos autores em desvendar por meio de uma visão sistêmica, o modo de produção capitalista, sem resultados. É como ver um mar em pleno deserto; ao tentar mergulhar descobre-se que a realidade observada é irreal.

    1. Prezado Heleno,
      se Marx disse tudo que se tinha a dizer já no século XIX, por que se publicou livros nos séculos XX e XXI?

      Pregar que “está tudo em O Capital” (ou em qualquer outro livro de autoria de Marx), não é similar a afirmar que “está tudo na Bíblia”?

      Com esse dogmatismo, transforma Marx em um ser sobrenatural, pois onisciente, onipresente e onipotente.

      Não despenda esforço intelectual em transformá-lo em um vidente do futuro…
      att.

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