Keynes, o Financista, e a Aproximação do Colapso das Bolsas de Valores

Nas horas vagas, o renomado economista John Maynard Keynes (1883 - 1946) administrava o fundo de dotação da faculdade King’s College, da Universidade de Cambridge.  

Mas comprar ações quando o mercado despenca é muito mais difícil do que se imagina. Novas pesquisas analisam como o grande economista — e igualmente grande investidor — John Maynard Keynes agiu na Grande Depressão de 1929, quando as ações americanas caíram mais de 80% contando o declínio desde o auge até o fundo do poço. Sua experiência deveria ensinar a todos os investidores a importância da preparação, coragem e paciência.

Entre o início dos anos 20 e sua morte em 1946, Keynes escreveu vários livros, revolucionou a política econômica e ajudou a criar o sistema monetário global moderno. Em seu tempo livre, ele administrava o fundo de dotação que mantinha a faculdade King’s College, da Universidade de Cambridge.

De 1922 até 1946, o portfólio de ações em que Keynes investia superou o mercado de ações britânico em uma média de quase seis pontos percentuais por ano — durante um período que atravessou a maior crise de mercado, a mais grave depressão econômica e a pior guerra mundial registrada na história moderna.

Keynes não parecia um grande investidor o tempo todo. Concentrado em comprar ações a preços baixíssimos, ele foi superado no mercado excessivamente altista dos anos 20. Keynes não previu a vinda da Grande Depressão; ele entrou no Crash de 1929 com cerca de 90% dos recursos da faculdade aplicados em ações, mesmo quando a maioria dos outros fundos desse tipo preferia aplicar em títulos de dívida.

No fim de 1929, Keynes registrava um desempenho cumulativo de 40 pontos percentuais abaixo do bolsa britânica nos cinco anos anteriores. Mas ele já estava promovendo uma reviravolta nesse desempenho.

Em uma nova pesquisa da publicação acadêmica “Business History Review”, o professor de finanças David Chambers, da Faculdade de Administração Jurídica de Cambridge, e o economista Ali Kabiri, da Universidade de Buckingham, analisaram como Keynes teve coragem de investir pesadamente em ações de um país devastado pela crise e pela depressão resultante.

Keynes praticamente ignorou totalmente as ações americanas no fundo de dotação da faculdade até setembro de 1930. Que hora para ficar interessado! O mercado de ações dos Estados Unidos havia recuado 38,4% ante os 12 meses anteriores. Mas Keynes estava tão animado pelas pechinchas que via nos EUA que trabalhou com uma pequena corretora de Nova York, a Case Pomeroy & Co., para pesquisar o mercado e suas próprias ideias de investimentos nas bolsas.

Em 1931, quando as ações americanas caíram assombrosos 47,1% e depois, em 1934, quando elas recuaram mais 5,9%, Keynes viajou para os EUA, passando grande parte do tempo em reuniões com gente de Wall Street, do governo e de empresas que poderiam ajudá-lo a pesquisar suas ideias de investimento.

Ele comprou ações americanas durante toda a depressão. Quando elas caíam mais 38,6% em 1937, Keynes, decididamente, comprou ainda mais. Em 1939, ele já havia colocado metade de seu portfólio principal da faculdade em empresas americanas, favorecendo ações preferenciais com pagamento de dividendos elevados, trustes de investimento (portfólios diversificados de ações similares aos fundos mútuos de hoje) e, mais tarde, em empresas de serviços públicos. Ele se concentrou em um pequeno número de ações que eram negociadas a um valor muitas vezes mais baixo que seu valor como empresas, frequentemente mantendo-as por oito anos ou mais até que os preços finalmente se recuperassem e refletissem o valor real dos ativos.

O capítulo 12 do livro “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda” (edição em português, Editora Saraiva, 2014), escrito há 80 anos, permanece uma das explosões de brilhantismo mais potentes sobre investimentos da história. Suas palavras ainda ressoam com a determinação que deve ter sido necessária para comprar ações quando sangue corria nas ruas:

“O espetáculo dos mercados modernos de investimento às vezes tem me levado à conclusão que tornar a compra de um investimento permanente e indissolúvel, como um casamento, exceto por motivo de morte ou outra causa grave, pode ser um remédio útil para nossos males contemporâneos. Porque isso forçaria o investidor a direcionar sua mente nas perspectivas de longo prazo e apenas nelas.”

Keynes entendeu, assim como seu contemporâneo, o caçador de pechinchas americano Benjamin Graham, que os mercados baixistas são tão imprevisíveis que evitá-los é praticamente impossível — e que a dor de perder dinheiro é quase insustentável.

Ainda assim, Keynes sabia que entrar nos mercados baixistas para comprar, em vez de tentar evitá-los, é a melhor forma de triunfar. Como, no longo prazo, as ações tendem a subir mais do que a cair, uma das grandes vantagens que um investidor pode ter é o bom senso de comprar ações agressivamente quando os mercados recuam.

Para isso, são necessários dinheiro e coragem.

Com as ações não muito distantes de seus picos recordes hoje, segurar o dinheiro é uma ótima ideia.

E — ao menos que você esteja aposentado ou perto de se aposentar, e já esteja reduzindo seu portfólio de ações — fortaleça sua coragem. Escreva uma obrigação contratual com você mesmo, com um amigo ou membro da família de testemunha, comprometendo-se a comprar mais ações quando elas caírem 25%, 50% ou mais.

Daqui a alguns anos, você ficará feliz de ter feito isso.

Riva GoldGeorgi Kantchev (WSJ, 17 de Outubro de 2016) anunciam que o enfraquecimento da globalização está forçando gestores de ativos a repensar suas estimativas para a direção futura das bolsas.

As cotações das ações nos mercados de todo o mundo vêm há quase 30 anos sendo impulsionadas pela aceleração do comércio global e o fluxo mais livre de capitais, que estimulam o crescimento econômico e permitem que as empresas tenham acesso a novos mercados e tirem proveito de economias de escala.

Mas em vista da desaceleração no comércio mundial e agitações políticas que vão desde a decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia até a conflituosa eleição presidencial americana, alguns gestores de recursos temem que a freada da globalização seja a próxima pedra no caminho do mercado global de ações.

 Esse receio é evidente na gestora britânica Barings, que todo ano, no inverno europeu, reúne seus principais gestores em sua sede, em Londres, para elaborar previsões de investimentos para os próximos dez anos.

A firma, que administra US$ 275 bilhões em ativos, prevê para 2017 outra queda no que chama de “prêmio de globalização” sobre o valor das ações — ou até mesmo a anulação desse prêmio.

Acreditam que a globalização provavelmente atingiu o auge. O Mercado não vai gostar…

Com políticas protecionistas ganhando força e iniciativas de incentivo ao comércio emperradas, o comércio global vai registrar neste ano seu crescimento mais baixo desde 2007, segundo a Organização Mundial do Comércio. Recentemente, o Fundo Monetário Internacional alertou que as tendências contra o comércio, como alta de impostos, poderiam causar danos duradouros à economia mundial.

Alguns receiam que os efeitos possam atingir os lucros das empresas.

 A MSCI, provedora de índices globais de ações, estima que, se as políticas protecionistas e os déficits orçamentários no mundo em desenvolvimento aumentarem consideravelmente nos próximos dois anos, o valor das ações pode recuar mais de 17% nos Estados Unidos e quase 20% na Europa.

Os investidores têm pela frente um cenário “pós-globalização”. Para os mercados, a desaceleração da globalização significa ainda mais incerteza.

Empresas de todo o mundo, de transportadoras até o setor manufatureiro, já apontaram a desaceleração do comércio e o aumento do protecionismo como fatores que estão corroendo os lucros.

A americana Deere & Co., por exemplo, maior fabricante do mundo de tratores e colheitadeiras, afirmou neste ano que medidas protecionistas e as restrições ao comércio poderiam afetar seus resultados.

Não era para ser assim.

As cotações das ações saltaram nas bolsas do mundo no início dos anos 90, depois da queda do Muro de Berlim e do fim da Guerra Fria. O comércio mundial teve forte crescimento, o McDonald’s Corp. começou a vender mais hambúrgueres na China e a Ford Motor Co. pôde fabricar carros a um custo menor na Tailândia.

O valor das ações nos EUA, por exemplo, saltou acima da média dos 120 anos anteriores, sob a premissa de que o comércio global continuaria se expandindo e o fluxo de mercadorias, serviços e capitais através das fronteiras se tornaria cada vez mais fácil.

O prêmio de globalização significa que as ações nos EUA são coletivamente negociadas a um índice preço/lucro quase uma unidade inteira maior do que teriam na ausência da globalização. O índice preço/lucro, obtido pela divisão da cotação das ações pelo lucro por ação, é um parâmetro comum para avaliar se as ações estão caras ou baratas.

Amparada por dados econômicos, previsões e pesquisas, a Barings calcula o prêmio com base numa análise do histórico das cotações, fazendo ajustes para o impacto de fatores como inflação e política monetária.

A equação, porém, está mudando.

A Barings já cortou o prêmio de globalização pela metade nos últimos dez anos, e as previsões das empresas para o valor das ações estão caindo com ele. Outros gestores de fundos afirmam que estão ficando mais seletivos, evitando setores e países que veem como mais propensos a sofrer com a desaceleração.

A globalização está sob um ataque cada vez maior.

Há uma boa correlação entre o ciclo de lucros dos EUA e o comércio global. Nos últimos dois anos, os lucros estiveram em queda e houve desaceleração no comércio.

As receitas fora dos EUA respondem por mais de 30% do faturamento total das empresas que compõem o índice de ações S&P 500.

As transportadoras globais de contêineres, que estão enfrentando o pior ano do setor desde a crise financeira de 2008, já mencionaram que a fraqueza do comércio é a grande culpada pelos lucros em queda.

O número de medidas protecionistas implementadas no mundo todo neste ano subiu para 338, segundo o Global Trade Alert, grupo britânico que monitora o comércio global. É o maior número registrado até este ponto num ano desde que o grupo começou a coletar os dados, em 2009, quando houve só 61 medidas no mesmo período.

Investidores argumentam que, mesmo que a globalização esteja em declínio na maior parte do Ocidente, outras regiões continuarão se abrindo para o comércio, criando oportunidades de investimento. Cita-se a Argentina como exemplo de país que pode se beneficiar de uma abertura comercial mesmo que outros, como os EUA, tornem-se mais protecionistas.

Para se proteger do recuo da globalização no longo prazo, os investidores podem migrar das multinacionais para campeãs nacionais, como empresas de internet da China ou as companhias aéreas da América Latina.

Os gestores da Barings favorecem outra estratégia: migrar das ações para os ativos de renda fixa, como títulos de dívida, que são supostamente mais resistentes a turbulências.

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