Adolescentes na Bolsa: Lá Vem O Crash…

Em 2000, o então presidente Bill Clinton alardeou em um discurso que “o fermento da rápida mudança tecnológica” era um dos “principais motores” de crescimento dos EUA.

A lacuna entre o boom tecnológico prometido e aquele entregue é outra fonte de descontentamento nos EUA que levou à ascensão este ano de candidatos de fora da elite política, como Donald Trump e Bernie Sanders.

O desapontamento causado pela tecnologia é mais discreto que a ira provocada pelo impacto esmagador da invasão de importados da China e pelo que é visto como um fracasso de instituições do governo como o Federal Reserve, o banco central americano, em endireitar a economia.

Em vez disso, ele vem da ideia de que os americanos esperavam que esses novos instrumentos e as empresas que os criaram gerassem ganhos econômicos maiores, não uma ampliação da desigualdade.

“Há um sentimento crescente de frustração, de que as pessoas não estão vendo o progresso que seus pais e avós viram”, diz Erik Brynjolfsson, economista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts cujo trabalho descreve como a tecnologia amplia a diferença de renda entre os riscos e pobres. “Essa frustração contamina a arena política.”

Ben Steverman (Bloomberg, 17/10/16) afirma que “investir já foi divertido nos EUA”. Dava para ouvir a voz da ganância soprando no ouvido dos americanos: “Confie no seu taco! Encare um risco!”. Mas tudo isso foi arruinado por dois baques:

  1. o estouro da bolha de tecnologia e
  2. a pior recessão em décadas.

De repente, os americanos precisaram ficar sóbrios. Tinham de se perguntar se dava mesmo para apostar o dinheiro da aposentadoria comprando e vendendo ações diariamente na bolsa. Tinham de manter a calma.

A seguinte abordagem de investimento em ações — tão sensata e tão chata — basta para milhões de pessoas prejudicadas pela crise financeira:

  1. colocar as economias em fundos de índices,
  2. esperar algumas décadas e
  3. torcer para que tudo dê certo até a aposentadoria.

Mas o que pensa a próxima geração de investidores? Para eles, Pets.com e Lehman Brothers são memórias da infância.

Um aplicativo de rápido crescimento chamado Stash tenta ganhar dinheiro ao tornar a prática de investir divertida outra vez. Seus fundadores, Brandon Krieg e Ed Robinson, dizem que dá para fazer isso sem incitar a clientela – a maioria da Geração Y – a fazer grandes besteiras. O Stash comemorou seu primeiro aniversário no dia 14/10/16.

São 215 mil os usuários cadastrados – e cerca de 10 mil se cadastram toda semana. Neste ritmo, a base de usuários vai dobrar nos próximos seis meses. Muitos deles são novatos sem muito dinheiro sobrando. Enquanto outras opções de investimento exigem aplicação mínima de milhares de dólares, é possível abrir uma conta no Stash com US$ 5.

As corretoras tradicionais geralmente presumem que o cliente sabe a diferença entre uma ação e um título de renda fixa, entre uma “large cap” e uma “small cap“. O Stash presume que seus novos clientes não sabem praticamente nada. O aplicativo oferece somente 36 investimentos, a maioria fundos negociados em bolsa, e que tiveram os nomes trocados para facilitar a vida dos iniciantes.

O “Delicious Dividends” (dividendos deliciosos) é o nome mais atraente que o Stash deu para o Schwab U.S. Dividend Equity ETF. Já “Roll With Buffett” (ganhe com Buffett) oferece uma fração da Berkshire Hathaway, permitindo que os usuários do Stash – com idade média de 28 anos, sendo 80% com menos de 34 anos de idade – invistam junto com Warren Buffett, o presidente da Berkshire, de 86 anos.

O Stash incentiva as pessoas a investir em temas que compreendam ou com os quais se importam: “Clean & Green” (limpo e verde) foi o apelido dado ao iShares Global Clean Energy ETF. Já “Social Media Mania” (mania de mídias sociais) dá acesso ao Global X Social Media Index ETF, que acompanha Facebook, Twitter e LinkedIn.

Com capital inicial de US$ 12,25 milhões e 25 funcionários, a sede do Stash é uma única sala em um prédio próximo ao Edifício Flatiron, em Nova York. O aplicativo ganha dinheiro cobrando uma taxa mensal dos usuários de US$ 1 ou 0,25% ao ano sobre contas com mais de US$ 5 mil. Os primeiros três meses são gratuitos.

O dinheiro chega ao Stash em blocos de US$ 20 ou US$ 30, mais ou menos como as doações a Bernie Sanders, que tentou ser candidato à Casa Branca pelo Partido Democrata e tem grande popularidade entre o público jovem. A companhia afirma ter recebido 750 mil transferências bancárias individuais ao longo do último ano, mas se negou a revelar a quantia em ativos sob gestão. O usuário médio do Stash tem renda de US$ 45 mil por ano.

Muitos são funcionários da varejista Wal-Mart, motoristas do Uber e soldados, sendo que um em cada oito usuários é militar. O aplicativo parece conquistar espaço por meio de conversas entre soldados nas bases, navios e até em submarinos, diz Robinson.

 Darrin Graham, de 25 anos, coloca cerca de US$ 25 por semana em sua conta no Stash e tem dois colegas de Exército que também usam o aplicativo. Ele tem uma conta separada para a aposentadoria, por meio das Forças Armadas. Ele pensa na conta no Stash, atualmente com US$ 620, como “dinheiro para brincar”, uma maneira de aprender a investir. No começo, ele diz que cometeu erros, escolhendo ETFs do Stash apenas considerando desempenho passado, vendendo quando estavam em queda e não aproveitando a recuperação. Agora, conta, está aprendendo a ter “paciência”. “Eu desisti rápido demais”, diz.
alfa-positivo
Curiosamente, um analista do mercado brasileiro, Marcelo d’Agosto (Valor, 19/10/16) diz que existem três maneiras fundamentais para rentabilizar as aplicações:
  1. escolher a composição da carteira de modo eficaz,
  2. arriscar nos momentos certos e
  3. controlar os custos.

    Os investidores de maior sucesso buscam pinçar as estratégias mais eficientes para cada alternativa. E cada vez mais podem contar com os gestores de recursos profissionais que se dedicam a elaborar instrumentos variados e empacotá-los com nomes chamativos.

    São alguns exemplos de estratégias que estão à disposição dos clientes produtos como:

    “alfa portátil”,

    “beta esperto” e

    carteiras indexadas com baixo custo administrativo.

    Foram lançados nos mercados desenvolvidos e, aos poucos, como aqui tudo se imita ou copia, começam a crescer no Brasil.

    Para entender o conceito, imagine um fundo de ações ideal que possua correlação perfeita com o Ibovespa e consistentemente supere o indicador. A consequência é que o ganho desta carteira hipotética será sistematicamente maior do que a variação da própria bolsa, mas mantendo o nível de risco.

    Para conseguir esse desempenho, o gestor do fundo teria que escolher sempre as ações mais rentáveis a cada intervalo de tempo. Nos períodos de alta da bolsa, a carteira seria composta pelos papeis que mais subiram. Nos momentos de baixa, pelos que menos caíram.

    Ainda no campo teórico, é possível descrever, matematicamente, o comportamento deste fundo, separando o retorno em dois componentes.

    O primeiro é dado pelo multiplicador sobre a variação do índice Ibovespa.

    O segundo é um adicional inerente ao fundo, mas sem vinculo com o comportamento do mercado.

    O primeiro parâmetro é chamado de “beta” e o segundo de “alfa“.

    O retorno da carteira em determinado período é igual ao beta multiplicado pelo retorno do índice Bovespa somado ao parâmetro alfa.

    Se o beta da carteira for igual a 1, significa que o risco do fundo é igual ao risco da bolsa. Isso porque as oscilações da carteira e da bolsa são iguais. É o caso do exemplo hipotetico.

    Se o beta for maior do que 1, a explicação é que a carteira varia mais do que o mercado acionarios. Como resultado, a aplicação é mais agressiva, com ganhos e quedas mais acentuados.

    Se o beta for menor do que 1, esse fundo é conservador. Ele não acompanha os altos e baixos da bolsa de valores com a mesma intensidade.

    O fundo ideal possui beta igual a 1 e alfa positivo. Significa que assumindo o mesmo risco de mercado o investidor consegue retorno acima do índice de referência.

    O alfa também pode ser negativo. Isso ocorre, por exemplo, se a taxa de administração do fundo é muito alta. Os fundos DI oferecidos pelos bancos de varejo são exemplos de carteiras com alfa negativo.

    O fundo tem uma correlação perfeita com o parametro de referencia, a variação do certificado de depositos interfinanceiros (CDI). Mas rende consistentemente menos.

    A estrategia “alfa portatil” foi criada com o objetivo de combinar as oportunidades da gestão ativa com a maior previsibilidade dos fundos indexados a um determinado índice do mercado. A ideia básica é transportar para a carteira indexada o alfa obtido em outro mercado.

    Considere um gestor extremamente eficaz em operações de renda fixa. Por meio da administração dos prazos de vencimento dos título e do risco de credito dos papeis em carteira, esse gestor consegue ganhos consistentemente acima da taxa básica de juros.

    O gestor pode usar o mercado de derivativos com o objetivo de trocar a rentabilidade de seu fundo de renda fixa para o índice Bovespa, por exemplo. Na prática, a carteira de renda fixa é transformada em um fundo de ações.

    No entanto, o ganho adicional obtido na renda fixa é mantido no fundo. Como resultado, o rendimento total da carteira é igual à variação do Ibovespa mais o ganho extra nas operações de renda fixa.

    A estratégia “beta esperto”, por sua vez, envolve combinar as ações que compõem um indice de maneira mais eficiente. O argumento é que os indicadores que levam em conta a participação do valor de mercado da companhia na ponderação do índice tendem a dar peso maior para as ações mais caras e pesos menores às ações mais baratas.

    Existem formas de rearranjar os papeis, de modo a evitar a concentração nas ações com menor potencial de ganho (mais caras), mas mantendo mesmo nível de risco do índice original. No longo prazo, seria possível obter ganhos mais elevados, sem aumentar o risco demasiadamente.

    A ideia comum das estrategias de investimento mais elaboradas é conciliar o retorno potencial adicional com o risco assumido. Se isso não for possível, o mais sensato para o investidor é reduzir o custo da gestão das aplicações, mantendo a diversificação. A compreensão precisa da estratégia adotada é uma tendência no Brasil e fundamental para o sucesso dos investimentos.

    Lido esse colunista, defendendo a gestão ativa, é engraçado “virar a página” e no mesmo jornal ler que:

    Selecionar ações está virando profissão do passado

    Em Wall Street, bilhões de dólares migram para fundos de investimentos passivos

    Fundos de pensão, dotações, planos de aposentadoria e investidores de varejo estão migrando para os fundos de investimentos passivos, que operam em piloto automático ao imitar o comportamento de um índice. Os profissionais que analisavam e selecionavam ações, arquétipos da Wall Street do século XX, estão sendo deixados de lado.

    Nos três anos encerrados em 31 de agosto, investidores adicionaram quase US$ 1,3 trilhão a fundos mútuos passivos e suas extensões — fundos passivos negociados em bolsa — ao mesmo tempo em que drenaram mais de US$ 250 bilhões de fundos ativos, segundo a empresa americana de pesquisa Morningstar Inc.

    Defensores dos fundos passivos, ou fundos de índice, costumam citar seu desempenho superior no longo prazo, tarifas menores e simplicidade. Hoje, essa crença foi efetivamente institucionalizada, com reguladores, advogados de defesa de clientes que se dizem prejudicados e dados de desempenho afastando os investidores da seleção ativa de ações.

    Nos mercados desenvolvidos, “a pressão ficou tão intensa que os [fundos] passivos se tornaram o padrão”, diz Philip Bullen, ex-diretor de investimento da poderosa gestora ativa de investimentos Fidelity Investments. Ele e outros dizem que a gestão ativa pode ter êxito com ativos de negociação mais restrita.

    A mudança está agitando Wall Street. Gestores de fundos de hedge, os clássicos investidores ativos, estão enfrentando saques vultosos, já que têm dificuldade para justificar suas tarifas. Como um grupo, os fundos de hedge, que apostam a favor e contra ações e mercados em todo o mundo e geralmente cobram tarifas mais elevadas que os fundos mútuos, não registram um desempenho superior à bolsa americana desde 2008.

    Gigantes do investimento passivo como a Vanguard Group e a BlackRock Inc. estão atraindo muito dinheiro e conquistando poder entre os acionistas de empresas de capital aberto.

    Embora 66% dos ativos de fundos mútuos e de fundos negociados em bolsa, ou ETFs, ainda sejam investidos ativamente, informa a Morningstar, esse volume era de 84% há dez anos. E a queda tem sido acelerada.

    O desempenho está alimentando a nova tendência. Nos dez anos encerrados em 30 de junho, entre 71% e 93% dos fundos mútuos ativos de ações dos EUA, dependendo do tipo, ou fecharam ou tiveram um desempenho inferior aos fundos de índice que tentavam superar, segundo a Morningstar.

    Além disso, como igualar o desempenho dos índices de ações é bem mais barato que tentar superá-los, as despesas dos fundos de índice são significativamente menores que a tarifa cobrada pelos fundos ativos. Com os juros perto de zero, as tarifas são cada vez mais importantes.

    Há uma desvantagem, segundo defensores dos investimentos ativos. Os fundos passivos são criados apenas para igualar os mercados, então os investidores estão desistindo da possibilidade de superá-los. E se menos gerentes estão estudando relatórios financeiros para selecionar as melhores ações e evitar as piores — os fundos de índices compram ações às cegas — isso pode acabar prejudicando a capacidade do mercado de precificar as ações de forma eficiente.

    O argumento não está impedindo uma das maiores migrações de dinheiro da história.

    “Está na hora de reconhecer a verdade”, disse uma carta para acionistas escrita em março pela gestora de ativos Cohen & Steers Inc., especializada em fundos ativos. A seleção de ações no seu atual formato “não é mais um setor em crescimento”. As empresas de fundos ativos que não “se prepararem para uma mudança de maré” serão “relegadas à lata de lixo da história”.

    Este mês, a gestora ativa Janus Capital Group Inc. concordou em ser vendida para uma rival britânica para se diversificar e ajudar a competir com firmas de serviços financeiros de custo menor.

    Nos EUA, os planos de aposentadoria patrocinados pelo empregador hoje aplicam 25% de seus ativos em fundos de índice, ante 19% em 2012, segundo a empresa de consultoria em investimento Callan Associates Inc. Nos planos de previdência públicos, 60% das alocações de ações americanas estavam em fundos de índice em 2015, comparado com 38% de 2012, segundo a empresa de pesquisa Greenwich Associates. Nas gestoras de dotações e fundações, a fatia dos fundos de índice cresceu de 40% para 63% no mesmo período.

    O maior portfólio passivo de ações dos EUA, o Vanguard Total Stock Market Index Fund, agora tem US$ 469 bilhões em ativos, quase o mesmo volume que os quatro maiores fundos ativos combinados. O fundo 500 Index da Fidelity, com US$ 103 bilhões, pode logo ultrapassar a maior carteira ativa da firma, a Contrafund, que possui US$ 108 bilhões.

    Bob Chesner recentemente migrou de fundos ativos para fundos de índice os US$ 7,5 milhões em planos de aposentadoria que supervisiona como diretor de operações da firma de advocacia Giordani, Swanger, Ripp & Phillips LLP, do Texas.

    “Eu acreditava muito na administração ativa”, disse ele. “Eu achava que os mercados eram ineficientes a um ponto em que a gestão ativa fazia diferença.”

    Anos atrás, ele notou que cerca de 40 fundos ativos da carteira da firma estavam se recuperando da crise financeira de 2008 e 2009 mais lentamente que as referências do mercado e os fundos de índice que as seguiam.

    Em meados de 2014, Chesner e os dois outros membros do comitê executivo do plano de aposentadoria decidiram mudar de estratégia. Ao migrar para uma carteira só de fundos de índice, os empregados da firma economizariam uma média de 1,59 ponto percentual em despesas anuais.

    “Quando você leva em consideração que as pessoas hoje estão vivendo mais tempo, isso faz uma diferença enorme” na poupança da aposentadoria, diz Chesner. “Não há o que discutir.”

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