Política nos EUA e na Europa se latino-americaniza: Fim do Complexo de Vira-Lata

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Stephen Fidler (WSJ, 21/10/16), deixa de ser eurocêntrico e afirma que os políticos dos EUA e da Europa estão cada vez mais se comportando como se fossem da América Latina [FNC: “o quintal do Ocidente” (argh): abaixo do Rio Grande (ou abaixo da linha do Equador) “não existe pecado”!].

  1. O culto à personalidade está em ascensão, assim como a ideia de que uma figura carismática ou um caudilho podem resolver os problemas econômicos e políticos de um país.
  2. Ao mesmo tempo, ganha força a exigência de que a velha ordem corrupta seja derrubada.
  3. E como a corrupção está se tornando cada vez mais a moeda do discurso político, os oponentes são retratados como pessoas que pensam apenas em ganhos pessoais.

As instituições estão sendo politizadas e os líderes de alguns países europeus estão atacando a independência do Judiciário, que eles veem como um obstáculo aos seus governos. O próprio processo eleitoral está em xeque, inclusive nos EUA, algo inédito no país.

Claro que esses atributos “latino-americanos” não são visíveis em toda a Europa, onde a história e a experiência política variam bastante entre países. Nem essas características estão presentes em todos os lugares da América Latina — e em muitos países onde eram presentes, já deixaram de existir. Os políticos latino-americanos, em geral, também nunca foram obrigados a lidar com a imigração, um tema atualmente importante na política europeia e americana.

Uma alegação comum feita pelos perdedores em eleições latino-americanas [FNC: tipo Aecinho ou Marina] é a de fraude. E, ao contrário das eleições americanas, frequentemente eles têm razão [FNC: não foi o caso, mas usaram como (falsa) justificativa para se tornarem golpistas].

Mas o foco dos derrotados nas fraudes eleitorais teve uma consequência maior: os políticos de oposição nunca puderam aceitar o resultado. Dessa forma, eles e seus eleitores ficaram alijados de um sistema político que consideravam injusto, sendo também excluídos da elaboração das políticas.

Em meados da década de 90, o então presidente mexicano Ernesto Zedillo admitiu esse problema no México, que na época era o país há mais tempo no mundo governado por um único partido. “O problema com o sistema político do México é que, cada vez que temos eleições, um lado declara antecipadamente a natureza ilegítima das regras e, assim, se recusa a aceitar os resultados”, disse ele à época.

Zedillo fez mudanças para resolver o problema e, hoje, partidos diferentes se revezam no poder.

Além das insinuações sobre a legalidade das eleições presidenciais de novembro nos EUA, o candidato republicano, Donald Trump, também tem desafiado a legitimidade ou a competência de instituições outrora consideradas fora da jurisdição dos políticos, incluindo o banco central americano (Federal Reserve), os serviços de inteligência e os principais generais americanos.

Para os EUA, isso representa uma virada em relação a 30 ou 40 anos atrás, quando o debate político era geralmente educado.

“Trinta anos atrás, você falaria sobre domínio ideológico na política latino-americana, enquanto os Estados Unidos buscavam um meio-termo. Agora, é o contrário”, diz Victor Bulmer-Thomas, historiador econômico da América Latina e ex-diretor do centro de estudos britânico Chatham House.

A recente campanha para o referendo em que Reino Unido decidiu sair da União Europeia, em junho, marcou uma mudança semelhante no tom político. Os defensores da Brexit, como foi chamada a decisão de sair da UE, acusaram várias instituições do governo de serem parciais. Entre elas estavam o banco central e o Tesouro britânicos, atacados por fazerem projeções econômicas pessimistas caso o Reino Unido deixasse a UE, e até mesmo a Comissão Eleitoral, que supervisiona eleições. E os ataques foram feitos por pessoas que diziam querer trazer o poder de volta de Bruxelas para as instituições britânicas.

Em outras partes da Europa, os governos da Polônia, Hungria e Grécia estão confrontando o Judiciário, que eles descrevem como um obstáculo ao desejo democrático do povo.

Os partidos nacionalistas de oposição na França, Holanda e, agora, até na Alemanha estão todos exigindo mudanças radicais em políticas que há muito são um consenso. Esses partidos devem ter um papel importante nas eleições desses países no próximo ano, mesmo que não vençam. Grandes empresas e bancos também estão na berlinda, com o poder deles considerado uma subversão à democracia.

Os políticos dos dois lados do Atlântico estão canalizando as frustrações de um grande número de pessoas que — como muitos latino-americanos antes deles — estão decepcionadas com os políticos e não valorizam as instituições políticas e econômicas de seus países. Mesmo que não cheguem ao poder, elas estão deslocando o centro de gravidade do debate político.

As políticas apoiadas por essas pessoas raramente levam à criação de valor, o que apresenta um desafio para as economias desenvolvidas, cujo sucesso depende de interações complexas entre instituições, regras e mercados. E, ao contrário da América Latina do século 20, essas economias são o núcleo do sistema econômico global.

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