Sociologia Estrutural e Teoria da Escolha Racional

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No capítulo sobre Análise de Redes Sociais: Avanços Recentes e Controvérsias Atuais, cuja autor é Mark S. Mizruchi, no livro Redes e Sociologia Econômica, organizado por Ana Cristina Braga Martes (São Paulo: EdUFSCar; 2009), uma questão relevante, para economistas e sociólogos, é a respeito da relação entre os modelos de rede e os modelos econômicos em geral. A sociologia estrutural se desenvolveu durante a década de 1970 como alternativa ao modelo normativo que dominara o campo durante as décadas de 1950 e 1960.

Este modelo normativo, elaborado por Talcott Parsons (1951), sugeria que a base da ordem social estava em crenças generalizadas compartilhadas (valores) e em expectativas de comportamento (normas). Tais valores e normas, segundo o modelo normativo, eram interiorizados predominantemente por meio da socialização na infância. Na medida em que essa socialização fosse bem-sucedida, a ação humana prosseguiria voluntariamente de acordo com os valores e as normas sociais.

A sociologia estrutural, com sua ênfase sobre as restrições e oportunidades que influenciam o comportamento, tende a reduzir a importância ou desconsiderar totalmente o papel das normas interiorizadas. As pessoas podem se comportar de acordo com as normas não por as terem interiorizadas, mas porque temem sanções a que poderiam estar sujeitas se as infringissem.

Uma vez que a sociologia estrutural e a análise de redes podem ser vistas como alternativas à sociologia normativa, seria útil considerar a relação entre a sociologia estrutural e uma alternativa bastante usada à sociologia normativa: a Teoria da Escolha Racional.

individualidade

Os teóricos da escolha racional também se preocupam com a dificuldade em distinguir entre a interiorização da norma e o medo da sanção. Eles tendem a supor que é este último e não a primeira que move o comportamento normativamente prescrito. Na falta de evidências claras de que os agentes interiorizam as normas, há pouco benefício analítico em admitir que o façam.

Os dois modelos se preocupam com as oportunidades e restrições com que se deparam os agentes. A Teoria da Escolha Racional presume que, em geral, as variações do comportamento individual são explicadas por diferenças entre as estruturas de oportunidade com que se deparam os agentes e não por variações da sua composição interna.  Essa ideia também se aplica na sociologia estrutural.

O ponto de divergência entre a Sociologia Estrutural e a Teoria da Escolha Racional é a análise que fazem dos determinantes do comportamento. Os teóricos da escolha racional normalmente presumem que os indivíduos adentram situações sociológicas dotados de preferências formadas de maneira exógena e que se mantêm constantes pela duração do encontro social. Com essa premissa, desenvolvem modelos lógico-formais para obter resultados sociais, mas empiricamente suspeitos, devido a essas premissas simplificadoras adotadas em sua geração.

A sociologia estrutural não traz em seu bojo premissas inerentes quanto à racionalidade dos agentes humanos, embora não exclua essa hipótese – ou eventual possibilidade.

As principais diferenças entre o modelo estrutural e o modelo de escolha racional são que, no primeiro, as preferências humanas são consideradas endógenas, ou seja, a formação das preferências é tida como algo a ser explicado; no segundo, a ação humana é tida como sendo afetada por estruturas sociais explicitamente definidas.

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Como os teóricos das redes argumentam que todos os interesses são endógenos, usam como principal ferramenta analítica o conceito de interesses individuais.

  • Um interesse individual é uma preferência de um agente na ausência de restrições externas.
  • Um interesse estrutural é uma preferência de um agente sujeito a restrições sociais, que pode diferir do que seria essa preferência se ausentes tais restrições.

Por exemplo, a ação racional de uma empresa é considerada dentro de um sistema de restrições identificado pelas estruturas sociais em que a empresa está imersa.

global

No caso de tomadas de decisões políticas, o agente pode estar inserido em uma rede de relações de dependência em que os outros de que o agente depende mantêm posições políticas opostas. Se o agente determinar que a necessidade de manter relacionamentos positivos com os outros de quem depende supera a importância dada à questão, poderá decidir mudar para a posição do outro agente. Portanto, os resultados políticos podem ser afetados até mesmo por pequenos níveis de dependência na rede.

Embora o modelo contenha determinados elementos decisórios de escolha racional, a estrutura social altera sistematicamente os resultados políticos. Esses resultados não podem ser compreendidos sem um exame da estrutura.

padroes-teoricos

As formas organizacionais das sociedades modernas assemelham-se umas às outras não porque sejam necessariamente as mais eficientes, mas porque a necessidade de legitimidade exige isso delas.

Há três tipos desse “isomorfismo”:

  1. o coercitivo, em que as organizações desenvolvem estruturas para se adequarem às expectativas de outras organizações das quais são dependentes;
  2. o mimético, em que as organizações, sob condições de incerteza, simplesmente, adotam as estruturas de seus pares; e
  3. o normativo, em que experiências de socialização semelhantes levam a visões de mundo que geram tipos semelhantes de soluções prescritas organizacionais.

A análise de redes é capaz de suprir uma ausência nesse raciocínio com uma concepção detalhada dos processos pelos quais se transmite o isomorfismo.

  • O isomorfismo coercitivo tende a ocorrer em situações de relacionamento direto e coeso entre organizações.
  • O isomorfismo mimético tende a ocorrer quando as organizações observam e tentam acompanhar seus pares em equivalência estrutural ou de papéis.

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A Teoria das Redes não é capaz de nos dizer por que há símbolos e mitos específicos que as organizações procuram reforçar. Mas pode explicar por que algumas formas e não outras são adotadas, independentemente de serem ou não mais eficientes em termos objetivos.

Nesse sentido, embora a Teoria das Redes possa exigir uma perspectiva institucional ou outra semelhante para explicar completamente um fenômeno, a Teoria Institucional também pode precisar da Teoria das Redes, a qual pode tornar mais concretos e rigorosos os conceitos da primeira.

A análise de redes é uma das abordagens que mais crescem no âmbito das Ciências Sociais. Acumulam-se evidências de que a ação humana é afetada pelas relações sociais em que os agentes estão imersos.

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