Desglobalização

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Simon Nixon (WSJ, 10 de Outubro de 2016) afirma que um dos principais quebra-cabeças da economia global no momento é a desaceleração do comércio internacional.

Desde 2012, o comércio global cresce só 3% ao ano, menos da metade da taxa dos 30 anos anteriores. Entre 1985 e 2003, ele avançou a um ritmo duas vezes mais rápido que o produto interno bruto global. Nos últimos quatro anos, ele mal conseguiu manter o passo, segundo o Fundo Monetário Internacional.

E essa desaceleração tem sido generalizada, afetando tanto países desenvolvidos como os emergentes, o comércio tanto de serviços como de bens.

A Organização Mundial do Comércio agora prevê que o comércio mundial crescerá apenas 1,7% este ano, a primeira vez em 15 anos que seu crescimento será menor que o da economia mundial.

Essa desaceleração é preocupante pelo que ela pode provocar no longo prazo na saúde da economia global. A globalização das últimas décadas tem sido um grande condutor da elevação do padrão de vida no mundo. Os cidadãos dos países desenvolvidos se beneficiaram da queda dos preços e os das economias emergentes se beneficiaram de empregos com salários melhores.

Tem sido um princípio do pensamento econômico por 200 anos que o comércio beneficia as duas partes graças ao incremento da especialização, maior eficiência, troca de ideias e no fim um aumento da inovação e produtividade. É o aumento da produtividade que acaba conduzindo os salários e o crescimento.

A “boa notícia” é que até o momento 75% da desaceleração parece ser fruto do colapso no investimento em vez de ações deliberadas de governos, segundo análise do FMI no mais recente Fórum Econômico Mundial.

A este respeito, a desaceleração do comércio mundial é principalmente um sintoma do mal econômico mais amplo que o mundo enfrenta desde o início da crise financeira global: se os formuladores de políticas podem achar um meio de reavivar os investimentos — seja impulsionando a demanda ou acabando com impedimentos de oferta —, então o comércio deve aumentar também.

Mas o FMI também concluiu que o restante da desaceleração foi largamente explicado pela redução do ritmo da liberalização do comércio e pelo crescimento do protecionismo. Entre 1985 e 1996, as tarifas globais diminuíram a uma taxa de cerca de 1 ponto percentual por ano; entre 1995 e 2008, a redução caiu para 0,5 ponto percentual por ano; desde 2008, ela praticamente estancou.

O ritmo dos novos acordos de livre comércio passou de 30 por ano na década de 90 para 10 por ano desde 2011. E houve um grande aumento no número de novas barreiras comerciais — seja na forma de medidas antidumping ou em impostos retaliatórios — nos últimos dois anos, com o alerta de comércio global da OMC registrando um recorde de medidas prejudiciais em 2015.

O risco agora é que política, economia e finanças se combinem de forma a criar um movimento inverso da globalização, ameaçando a economia mundial.

Anos de crescimento lento, salários estagnados e aumento da desigualdade estão impulsionando o fortalecimento de uma repercussão política negativa em países desenvolvidos do que alguns dizem ser uma concorrência injusta com empresas e trabalhadores estrangeiros. Isso é visto de forma mais clara na campanha eleitoral americana e na Brexit, a decisão dos britânicos de deixar a União Europeia.

Isto, por sua vez, amplia os temores entre as empresas que novas barreiras comerciais entre fronteiras irão surgir, não apenas entre o Reino Unidos e a UE. E instabilidade política está tornando mais difícil para os governos promoverem as reformas estruturais necessárias para incentivar investimentos e impulsionar crescimento e produtividade.

É alarmante que a atual hostilidade ocorra em um momento em que os bancos centrais estão sem ferramentas para defender a economia.

Até hoje, eles reagiram a momentos de fraco crescimento global derrubando os juros para incentivar investimentos. Mas com os juros já perto ou abaixo de zero no mundo desenvolvido e as curvas de rendimento estáveis, muitos agora temem que o afrouxamento excessivo da política monetária gere mais prejuízos que benefícios — especialmente ao enfraquecer os modelos de negócios dos bancos de tal forma que eles possam acabar restringindo o crédito ou cobrando mais por empréstimos. No caso do Deutsche Bank, dúvidas sobre seu modelo de negócio levou alguns até a questionarem sua sobrevivência.

Nesse ambiente frágil, todo choque político que crie ainda mais dúvidas sobre o futuro da globalização ameaça levar a economia mundial para mais perto do precipício, já que toda redução nas previsões de crescimento global reduz as expectativas de inflação.

Isto pressiona os juros reais para cima, levando a um aperto monetário indesejado, ao qual os bancos centrais acreditam que devem responder. E a Brexit tem tornado esse risco ainda maior.

O mundo pode estar tendo dificuldades para conviver com a globalização, mas ele não sabe viver sem ela.

Fraqueza do comércio global veio para ficar

Martin Wolf é editor e principal analista econômico do FT. Publicou artigo sobre o mesmo tema (Valor, 26/10/16).

Será que a globalização está em retrocesso? Não, mas perdeu o dinamismo, notadamente no caso do comércio, o motor da integração econômica mundial por décadas. A pergunta, no entanto, é por que o crescimento do comércio caiu.

  1. Seria porque a economia mundial desacelerou?
  2. Seria devido ao esgotamento de determinadas oportunidades?
  3. Ou seria por causa do protecionismo?

A resposta, pelo que sugere o Fundo Monetário Internacional (FMI) em seu mais recente Panorama Econômico Mundial, é “sim” para todas as três hipóteses, em variados graus.

Entre 1960 e 2015, o comércio mundial cresceu à taxa média de 6,6%, em termos reais, enquanto a produção se expandiu à taxa média de 3,5%. Entre 2008 e 2015, no entanto, o crescimento anual médio do comércio mundial foi de apenas 3,4% em termos reais, enquanto a produção mundial aumentou 2,4%. Não apenas houve uma desaceleração da expansão do comércio como a diferença entre o crescimento do comércio e o da produção caiu significativamente.

O FMI conclui que a fragilidade do crescimento dos volumes do comércio internacional é, em grande medida, resultado da desaceleração econômica sincronizada vivida pelas economias avançadas e emergentes. Acrescenta ainda que, “no caso dos bens, o crescimento do comércio caiu em 85% das linhas de produtos, com a desaceleração mais acentuada tendo sido observada no comércio de capital e de bens intermediários”.

Contribuições ao emprego caíram com o recuo persistente da indústria nos EUA. Nenhuma política de comércio reverteria a tendência, comandada pelas mudanças da demanda e da tecnologia.

A desaceleração dos investimentos foi, portanto, especialmente significativa no pós-crise, argumenta o FMI, porque esse setor é relativamente intensivo em importações. Essa guinada na composição da produção mundial ajuda a explicar por que a desaceleração do comércio mundial foi proporcionalmente maior que a da produção. No total, “nada menos que 75% da queda do crescimento real das importações de bens entre 2003-2007 e 2012-2015 podem ser atribuídos à maior fragilidade da atividade econômica”.

Essa análise sugere que o comércio mundial vai se recuperar, desde que o mesmo aconteça com a economia e o investimento mundiais. A situação, no entanto, não é tão simples assim. O FMI também foca em dois outros fatores que demonstra serem importantes:

  1. o protecionismo e
  2. a paralisação no pós-crise da tendência de mais longo prazo em rumo à intensificação do comércio dentro das “cadeias de valor”.

A divisão do trabalho entre as economias, pela qual algumas fabricam os componentes que são montados em outras, criou um comércio maior dentro dessas cadeias de produção desde a década de 1990. Isso pode ser medido pelo conteúdo de produtos importados nas exportações de um país, juntamente com o conteúdo local dos produtos exportados usados, subsequentemente, pelos parceiros comerciais em suas próprias exportações, tudo dividido pelas exportações brutas.

Essa relação subiu até 2008, mas entrou em estagnação desde então. Isso marca, pelo menos, a interrupção de uma forma significativa de integração transnacional da produção.

A questão do protecionismo pode não ser totalmente independente da das cadeias de valor. Nessa esfera, também, a história é cheia de nuances. A queda da média das tarifas se paralisou no início da década de 2000, enquanto se completavam as reduções pactuadas nas negociações da Rodada Uruguai de comércio multilateral e o ingresso da China na

Organização Mundial de Comércio (OMC).

Além disso, há provas de um recente aumento das barreiras não tarifárias. Ao mesmo tempo, o alcance dos acordos de livre-comércio continuou a se ampliar, embora a uma taxa ligeiramente mais lenta. O destino dos acordos mais ambiciosos, a Parceria TransPacífico (TPP, pactuada, embora não ratificada) e a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimentos (TTIP, muito distante de ser pactuada) continua bastante incerto.

Por esses motivos, observa o FMI, as taxas de crescimento das importações, entre 2012 e 2015, ficaram cerca de 1,75 ponto aquém, em média, do que se poderia esperar com base na relação histórica entre os fluxos comerciais e o nível de atividade mundial. Também é possível que a desaceleração do comércio, por sua vez, tenha contribuído para a fragilidade do crescimento, inclusive o crescimento da produtividade.

Em vista disso, o que pode ocorrer no futuro?

Os obstáculos políticos a grandes novos acordos de liberalização do comércio – sejam eles multilaterais (no âmbito da OMC) ou plurilaterais – ficaram elevados. Isso se deu, em parte, porque o entusiasmo pela liberalização do comércio é fraco. Mas também porque os acordos comerciais atuais trazem consigo um bom volume de bagagem regulatória em grande medida extrínseca: os direitos de propriedade intelectual são um exemplo; a proteção pactuada a investidores é outro.

Em especial, muitos argumentam hoje que os trâmites de “encerramento com acordo das disputas investidor- governo” incluídos em muitos acordos desse tipo representam violação da soberania democrática.

O que constitui uma ameaça ainda maior do que essa relutância em liberalizar é a ascensão das formas primitivas de protecionismo nu e cru. Donald Trump, o candidato republicano à Presidência dos EUA, é um expoente nessas discussões. De fato, ele sugere que barrar as importações recriaria milagrosamente os postos de trabalho na indústria de transformação que existiam quando os EUA eram, na sua opinião, “grandes”. No entanto, como observa Jagdish Bhagwati, da Universidade de Columbia, “a queda do nível de emprego na manufatura está em curso há meio século”.

As contribuições ao nível de emprego caíram com o recuo persistente da indústria de transformação na produção total dos EUA, embora a um ritmo mais acelerado, dada a rápida expansão da produtividade nesse setor. Nenhuma política de comércio conseguiria reverter essa tendência, que é comandada pelas mudanças da demanda e da tecnologia. A indústria manufatureira simplesmente está seguindo o caminho percorrido no passado pela agricultura.

Com sorte, esse protecionismo ingênuo fracassará do ponto de vista político, já que certamente não conseguirá resolver os problemas dos angustiados ex-trabalhadores e aspirantes a trabalhadores. Mas uma nova explosão de liberalização do comércio está distante. O comércio começaria a crescer mais rapidamente se a expansão econômica mundial se acelerasse.

Mas um mundo no qual o comércio crescia muito mais rápido que a produção provavelmente pertença hoje ao passado,

  • em parte porque as oportunidades de expansão do comércio de processamento diminuíram e
  • em parte porque a era da liberalização do comércio em grande escala acabou.

Além disso, se ele for revitalizado, provavelmente o será pelos gigantes da Ásia — a China e a Índia. O tempo da liderança ocidental no comércio parece, infelizmente, ter ficado para trás. 

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