Diferença entre a Lava-Jato e a Mãos Limpas: Golpe e Criminalização de Um Único Partido

moro-x-pietro

A Operação Lava Jato pode passar para a história:

  1. como uma operação que fez o Brasil dar um salto qualitativo em termos de combate institucional à corrupção, ou
  2. como mais um episódio de instrumentalização da Justiça, cujo objetivo seria ferir tão gravemente quanto possível o PT e, tão logo essa missão estivesse concluída, os procuradores deveriam passar a pegar leve com o grupo no poder.

É para assegurar que seja o primeiro cenário e não o último o que prevalecerá, segundo Hélio Schwartsman (FSP, 25/10/16) que “os membros da força-tarefa precisam manter abertas as portas para colaborações premiadas que ampliem os horizontes da investigação. Eduardo Cunha, por tudo o que testemunhou e por ter sido muito próximo dos atuais cardeais do PMDB que comandam o país, não pode ser descartado como uma figura com a qual não se negocia por princípio”.

O que está em jogo, afinal, é definir:

  1. se a Lava Jato veio para mudar de verdade a corrupção sistêmica brasileira ou
  2. se é mais um caso de lei só para os inimigos.

 

vergonha

Autor do livro de quase 900 páginas, que chega às livrarias, sobre a Operação Mãos Limpas, na Itália, inspiradora da Operação Lava-Jato, no Brasil, o jornalista Gianni Barbacetto é um especialista na investigação que devastou o sistema político italiano, a partir de 1992, mas ainda procura elementos para formar opinião sobre a versão brasileira da “Mani Pulite”.

Durante a viagem ao Brasil, ouviu muitas versões contraditórias sobre a Lava-Jato e gostaria de saber se procede a ideia de que a operação ajudou a provocar um golpe. Na Itália, em contraste, a Mãos Limpas era quase unanimidade.

Embora diga que conhece pouco a Lava-Jato, o jornalista afirma que a principal diferença no Brasil é a existência do foro privilegiado, que atrapalha uma maior eficácia da operação, cujo resultado está longe do terremoto que marcou a passagem da Primeira para a Segunda República italiana.

À essa altura, depois dos dois primeiros anos, a Mani Pulite havia demolido o sistema político do país, ao cumprir quase 3 mil mandados de prisão e ter investigado 438 parlamentares (dos quais quatro ex-primeiros-ministros) e 872 empresários, entre eles o quarto e o sexto italianos mais ricos à época: Carlo De Benedetti, do grupo de comunicação L’Espresso, e o empreiteiro Salvatore Ligresti, espécie de Marcelo Odebrecht da operação italiana.

berlusconi

O autor lembra que a Mãos Limpas desvendou um sistema de corrupção “perfeito e científico”, no qual as cotas de propina à Democracia Cristã (DC), maior legenda governista, eram sempre superiores ao do Partido Socialista (PSI), mas foi o líder deste, o primeiro-ministro Bettino Craxi, que personificou e simbolizou um regime movido a corrupção e que desmoronou depois da Guerra Fria — quando perdeu o mandato, Craxi fugiu para a Tunísia, onde morreu em 2000, aos 65 anos.

As cinco siglas que formavam a coligação majoritária desde 1980 – o “pentapartito” – desapareceram como reação dos eleitores. Três tinham mais de cem anos. No Brasil, o efeito mais notável da Lava-Jato foi provocar a desidratação do PT nas eleições municipais.

Barbacetto — autor do livro com os colegas do jornal “Il Fatto Quotidiano” Peter Gomez e Marco Travaglio — vê semelhanças entre Bettino Craxi e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, alvo-principal da Lava-Jato. “Olhando de fora, aparece só Lula. Não sabemos ninguém de outro partido”, afirmava, pouco antes da prisão do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB).

Barbacetto conta que um fator que contribuiu para o avanço da operação na Itália foi a formação de um pool de repórteres, que divulgavam juntos o desenrolar do trabalho do Judiciário. O artifício, no entanto, não impediu que a Mãos Limpas tivesse um retrocesso quando o maior magnata da mídia italiana, Silvio Berlusconi, tratou de combatê-la, depois de chegar ao poder como um arauto da operação. “Ou a política se reforma ou se pode fazer mil Lava-Jatos que volta tudo de novo”, alerta.

silvio_berlusconi

A seguir leia os principais trechos da entrevista:

Valor: A Mãos Limpas já foi classificada como um sucesso no curto prazo, mas um fracasso no longo prazo. O sr. concorda?

Gianni Barbacetto: Sim. Por um breve período, dois anos, a política italiana se livrou da corrupção. Cerca de 90% dos italianos se envolveram e apoiaram a operação, num clima de grande torcida. Aqui, no Brasil, vejo apoio de alguns que são favoráveis, mas outra parte que considera um golpe. Na Itália, não havia isso, nos primeiros anos. Depois, houve as consequências políticas.

Valor: Que consequências?

Barbacetto: No começo, os promotores fizeram a investigação e descobriram um sistema de corrupção perfeito, que incluía até partidos da oposição, como o Comunista. Com isso, os cidadãos deixaram de votar naqueles partidos. Depois, a partir de 1994, o sistema político se fecha e se recria.

Valor: Como?

Barbacetto: Começam a nascer novas legendas, como a Liga Norte, partido separatista, e sobretudo a Força Itália, de Berlusconi. Ele controlava as três redes de TV privadas e dominava a opinião pública. Em pouco tempo, ele se apresenta como defensor da Mãos Limpas e vence as eleições, dizendo-se um empreendedor, e não um político. Depois disso, ele reconstruiu o velho sistema, reciclando os antigos políticos. Berlusconi era o maior amigo do maior protagonista da Mãos Limpas, o ex-primeiro-ministro Bettino Craxi, seu grande protetor. Berlusconi conseguiu o monopólio da TV privada italiana graças a Craxi.

Valor: A população não fazia essa ligação?

Barbacetto: Metade sim, mas metade, que estava apaixonada por Berlusconi, não – o defendeu e votou nele por quase 20 anos.

Valor: A ascensão de Berlusconi marca a decadência da operação?

Barbacetto: O sistema antigo de corrupção, com os tesoureiros recolhendo e distribuindo as propinas para o partido, não existe mais. Mas se criou um novo sistema. São vários políticos e cada um se serve. É um self-service da corrupção. Por meio de correntes e grupos partidários.

O foro privilegiado atrapalha. Na Itália, o juiz normal, que julga traficante de drogas, julga o político

Valor: Que lições a operação teria para o Brasil?

Barbacetto: Ou a política se reforma, ou se pode fazer mil Mãos Limpas ou Lava-Jatos que volta tudo de novo. O cidadão tem que assumir esse papel, de não votar, de não votar em corruptos ou de criar um novo partido. Não é um sistema judiciário que pode reformar o país, nem na Itália, nem no Brasil. A opinião pública junto com a política é que deve reformar o sistema. Na Itália não conseguimos.

Valor: Hoje seria possível uma nova Mãos Limpas?

Barbacetto: Provavelmente não porque não há um sistema unitário de corrupção, que por meio de um se chegue aos demais envolvidos. É uma corrupção sistêmica, mas com vários sistemas, não são conectados. E a corrupção se modernizou, com os paraísos fiscais.

Valor: Quais foram as condições que propiciaram uma operação tão grande quanto a Mãos Limpas?

Barbacetto: Foram basicamente quatro. Começando pela menor, por acaso, havia um promotor como Antonio di Pietro que tinha uma visão, uma cabeça de policial. Ele havia sido policial. Houve ainda uma reforma do Judiciário, em 1989, que dá ao Ministério Público o poder de dirigir as investigações da polícia. Antes não era assim. Isso é importante porque o MP é independente da política; a polícia, não, depende do governo. O segundo ponto é que havia uma grave crise econômica. Com menos dinheiro e contratos, os empresários não tinham a mesma disposição de corromper, e estavam mais dispostos a delatar.

Valor: E os outros dois motivos?

Barbacetto: O terceiro é que se criou uma opinião pública muito hostil aos partidos. Eles dominavam cada detalhe da vida política italiana. Decidiam quem era professor na universidade e até quem poderia ser um cantor famoso a aparecer na RAI. As pessoas se cansaram. A última razão é o fim da Guerra Fria. Até 1989 o sistema político italiano estava bloqueado por razões geopolíticas. A Democracia Cristã e seus aliados eram improcessáveis, porque a Itália era o país que tinha o maior Partido Comunista do Ocidente.

Valor: Como ocorria a proteção?

Barbacetto: Nesse período na Itália havia o terrorismo e aconteceram vários atentados com mortes e havia praticamente uma intervenção americana por meio da CIA. Os americanos e também a maioria dos italianos estavam dispostos a tudo para manter os comunistas fora do poder.

Valor: Por que Bettino Craxi, do Partido Socialista, se tornou o símbolo da corrupção e não a Democracia Cristã?

Barbacetto: Por razões mais simbólicas do que reais. O Partido Socialista tinha muito menos indiciados do que a Democracia Cristã, numa proporção de 30 para 100. Mas, no clima que se criou, Bettino Craxi virou o símbolo midiático. A Democracia Cristã era um grande partido, com muitos intermediários, da base à cúpula. No Partido Socialista, a propina era direta para Craxi.

Valor: A Lava-Jato ajudou a derrubar Dilma Rousseff e o PT, mas o novo governo, de Michel Temer, é apoiado por uma maioria parlamentar com políticos e partidos também envolvidos em esquemas de corrupção. Esse resultado é muito diferente ao da Itália, não?

Barbacetto: Sim, na Itália a população foi às urnas e como forma de protesto derrubou os grandes partidos em 1994. A mudança não ocorreu dentro do Parlamento, mas fora.

Valor: No Brasil, há grupos muito críticos à Lava-Jato. Isso aconteceu na Itália?

Barbacetto: Durante dois anos ninguém criticou quase nada. Os italianos amavam a Mãos Limpas, mas Berlusconi conseguiu convencer, pelo menos a metade da população, de que a operação foi manipulada e politizada. Ele e a direita italiana ainda dizem que a Mãos Limpas acabou com o antigo sistema, mas salvou o Partido Comunista, chamava os juízes de comunistas, de “toga vermelha”.

Valor: Que diferença o sr. vê entre a Lava-Jato e a Mãos Limpas?

Barbacetto: Há um foro privilegiado para os políticos que está atrapalhando as investigações. Na Itália, durante e como consequência da operação Mãos Limpas, foi abolida a imunidade parlamentar. Parlamentares puderam ser investigados sem que se pedisse autorização ao Parlamento. Na Itália, o juiz normal, que julga o traficante de drogas, julga também o político. Este não vai preso, mas o processo continua. E se for condenado há uma lei que o faz perder o mandato. Berlusconi era senador e perdeu o mandato porque foi condenado. Não foi preso, mas recebeu uma pena alternativa, de serviço comunitário, social.

Valor: Qual é a visão da Lava-Jato na Itália?
Barbacetto: Olhando de fora, aparece só Lula. Na Itália, sabemos apenas que Lula é investigado. Não sabemos ninguém de outro partido.

Valor: Houve reação legislativa para podar a operação?

Barbacetto: A política tentou mudar as regras já em 1993. Mas os promotores foram à frente da TV e leram um comunicado no qual diziam: se mudarem as regras, não podemos garantir Justiça igual para todos, e nos demitiremos.

Houve reação popular e o presidente da República não ratificou a lei. Tentaram outras vezes, com algumas “leis esponjas” para limpar os crimes. No começo não conseguiram, mas depois, devargazinho, sim.

Valor: Qual foi o papel da imprensa na operação?

Barbacetto: Os jornais contavam o que acontecia. Às vezes até contra a vontade dos proprietários. Muitos eram empresários envolvidos na Mãos Limpas, como Carlo De Benedetti, do “La Repubblica”, e o dono do “Il Messaggero”, Gaetano Caltagirone, também construtor. Mas repórteres que trabalhavam no Tribunal de Justiça criaram um pool, um time, e disseram aos patrões que se eles não publicassem as matérias, elas sairiam na concorrência. Isso evitou ainda problemas de vaidade ou de ameaças que os repórteres poderiam sofrer.

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4 thoughts on “Diferença entre a Lava-Jato e a Mãos Limpas: Golpe e Criminalização de Um Único Partido

  1. Foi em 1996/1997 que ouvi de italianos que Mani Pulite não acabou com a corrupção e tampouco resolveu alguma coisa, muito pelo contrário. Muito pelo contrário, serviu para criar clima de terra arrasada posto que muitíssimas pequenas e médias empresas fecharam em razão dela.

    O Partido Comunista Italiano praticamente foi exterminado (isso agrada mto aos EUA) e das cinzas nasce uma nova estrela – Berlusconi, e com ele um sistema de corrupção muito mais sofisticado e difícil de ser apurado.

    Cabe ainda lembrar um detalhe importantíssimo. A Democracia Cristã andava de mãos dadas com a mafia, com a P2, Banco Ambrosiano e outros…Di Pietro e Moro têm algo bastante em comum. A quem servem…

    É admissível sim que lá tenha havido participação dos EUA tb posto que até então a Itália tinha um verdadeiro Partido Comunista, do tipo soviético. Tudo que os EUA têm horror e que precisavam combater.

    Sabe-se que naquela época foi criada pela OTAN a Gládio, que nada mais eram do que organizações clandestinas do tipo stay-behind, “para defender os países de uma tomada pela URSS”. Gládio é citado pelo historiador brasileiro e cientista político Moniz Bandeira em Desordem Mundial.

    Por que cito a Gladio? Porque o entrevistado fala de terrorismo que muito provavelmente na Itália esse ocorreu por conta daquela, com o objetivo de sempre, a estratégia de criar tensão.

    E aqui continuamos no de sempre. Desprezando nossa história verdadeira, já que a que consta do livros oficiais escolares está próxima de uma fraude. Sem conhecer a verdadeira história e sem dela tirar as devidas lições para não repetir os erros do passado no presente e no futuro. E ainda somamos a isso maus exemplos.

    1. Prezada Regina Maria,
      só observo que o PCI não era do “tipo soviético”, mas sim pregava o “eurocomunismo” a partir da doutrina de Antonio Gramsci. Este renovou o marxismo vulgar, dando ênfase a novos conceitos como sociedade política / sociedade civil, consenso, coesão/coerção, bloco de poder, alianças, aparelhos ideológicos, mudança de superestrutura, etc.
      att.

  2. Prezado Fernando,

    a operação Lava Jato é mais profunda do que podemos imaginar, é um verdadeiro jogo de dominó que não tem prazo para acabar, e ainda, foram inseridos coringas (peças chaves), que dão origem a uma nova fileira desse dominó chamado corrupção institucionalizada.

    Quem for condenado nessa operação estará recebendo pena máxima, não importam os bilhões que possuam como aconteceu com Marcelo Odebrecht. Esse fato coloca uma pedra na capacidade dos corruptos e políticos de receberem apoio de empresas, todas as empresas estão revendo os contratos vinculados a governos, prefeituras e instituições por prevenção.

    As 10 medidas contra a corrução que já está nas mãos das comissões de análise do congresso e deverá ser aprovada rapidamente, será um duro golpe aos corruptos, vamos torcer para que sejam aprovadas logo. Abs.

    1. Prezado Reinaldo,
      quem faz delações premiadas está obtendo um período de férias remuneradas em sua casa em aprazível condomínio como os situados em Angra do Reis, onde naturalmente a plataforma continental é contada como seu “quintal”…

      Sendo assim, eles denunciam “sob encomenda” até a mãe!
      abs

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