Expectativa de Sobrevida: Como Mentir com Estatística

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Especialistas e técnicos do governo golpista e temeroso alegam que o indicador utilizado para se desenhar a reforma da Previdência é a expectativa de sobrevida, ou seja, quantos anos a pessoa vai vivendo a mais a cada ano após atingir uma idade determinada – 65 anos, por exemplo.

Edna Simão e Lucas Marchesini (Valor, 21/10/16) informam que os brasileiros viverão, em média, outros 17,4 anos depois que atingirem entre 65 e 69 anos de idade, de acordo com estimativas das tábuas de mortalidade do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base em dados de 2010. Essa realidade, no entanto, é muito diferente quando se olha para as regiões e Estados.

Enquanto nas regiões Norte e Nordeste, a expectativa de sobrevida ao se atingir a idade de 65 a 69 anos é de 16,3 anos e 16,7 anos, respectivamente, no Sul e Sudeste esse número chega a 17,9 anos. O dado evidencia que, dependendo do local onde se nasceu, a quantidade de anos vividos pode variar consideravelmente.

Quando a avaliação é feita por Estados, a expectativa de sobrevida mais baixa é de Rondônia e Roraima com 15,2 anos. O Estado com taxa mais alta é o Espírito Santo (18,7 anos), seguido por Minas Gerais (18,3 anos) e Santa Catarina (18,2 anos).

Segundo fonte do governo golpista e temeroso envolvida nas negociações da reforma da Previdência Social, as diferenças entre municípios, assim como dentro de uma mesma cidade, podem ser ainda maiores do que a vista por regiões e Estados. Mas essas desigualdades não serão consideradas na reforma pretendida pelo governo golpista e temoroso que, dentre várias propostas, prevê a fixação de uma idade mínima de 65 anos para aposentadoria tanto dos trabalhadores da iniciativa privada quanto dos servidores públicos.

O entendimento do governo golpista e temeroso é que regras diferenciadas por regiões, por exemplo, poderiam provocar migração de pessoas para locais em que as regras são mais benéficas. Além disso, a reforma da Previdência Social não deve ser feita pensando em resolver desigualdades regionais que devem ser tratadas com a melhora da renda via mercado de trabalho e políticas de saúde e de segurança. Então, no Norte e Nordeste, onde 3/4 ou mais dos trabalhadores (cerca de 38% são informais) só obtém a aposentadoria por idade, poucos vivem após 65 anos.  Essa reforma agravará a desigualdade social das regiões!

As regras do Regime Geral de Previdência Social, especialmente a que permite a aposentadoria por tempo de contribuição, sem exigência de idade mínima, cria distorções entre as regiões mais ricas e mais pobres do país.

Os dados do regime urbano do INSS sinalizam que há uma correlação negativa, quando as variáveis se movimentam em direções opostas, entre idade média de aposentadoria, PIB per capita e expectativa de vida no Brasil.

  • Na região Sul, por exemplo, onde a expectativa de sobrevida de um indivíduo com 60 anos é de 22,57 anos e o PIB per capita, de R$ 30,4 mil, a idade média de aposentadoria, pelos mesmos critérios, é de 58,4 anos.
  • No Nordeste, onde o PIB per capita é menos da metade, R$ 12,9 mil, e a expectativa de sobrevida é dois anos menor (20,85), a idade média de aposentadoria é maior do que no Sul, ficando em 60,5 anos.

Os habitantes das regiões mais ricas não apenas se aposentam mais cedo, mas recebem o benefício por mais tempo. A distorção acontece porque a aposentadoria por tempo de contribuição, hoje com idade média de ingresso de 54,7 anos, é mais acessível aos trabalhadores de alta renda. Com maior nível de formalização, eles conseguem mais cedo atingir os 30 anos mínimos de contribuição exigidos para as mulheres e os 35 para os homens, explica o pesquisador. Os mais pobres dificilmente têm a carteira de trabalho assinada durante todo o período em que trabalham, sendo mais difícil, portanto, atingir o tempo mínimo de contribuição.

Assim, eles acabam dando entrada na aposentadoria por idade, ao completarem 60 anos (mulheres) ou 65 (homens), quando conseguem cumprir os 15 anos mínimos de contribuição. A parcela mais vulnerável da população busca instrumentos como o BPC (Benefício de Prestação Continuada (BPC) e a Lei Orgânica da Assistência Social (Loas), aos 65 anos. Argumenta-se, então, se há idade mínima para os trabalhadores urbanos de menor rendimento e não há para aqueles de maior rendimento.

A reforma da Previdência Social é mesmo urgente ou apenas oportunismo por o governo golpista usufruir de uma base subordinada no parlamento, pois está temerosa de investigações criminais sobre o financiamento ilícito de campanhas eleitorais?

Alega-se que, com os brasileiros vivendo mais e a taxa de fecundidade caindo, as despesas com aposentadorias e saúde são crescentes. Para conter um aumento explosivo, o governo golpista e temeroso quer ajustar as regras para concessão de aposentadorias e pensões à nova realidade demográfica. Ora, para o Bem-Estar social, o que deveria providenciar é a expansão das fontes de arrecadação de Previdência, via crescimento do PIB e do emprego, além da tributação progressiva sobre rendas e riquezas mais elevadas.

No caso do INSS, o déficit da deve ficar próximo aos R$ 150 bilhões neste ano e atingir algo em torno de R$ 180 bilhões em 2017. Para conter a escalada, além da fixação da idade mínima de 65 anos para homens e mulheres, o governo golpista e temeroso deve rever as regras de pensão por morte para acabar, por exemplo, com benefícios integrais. Em outras palavras, a mãe que se dedicou exclusivamente à criação de seus filhos, inclusive por motivo de doença de algum deles, quando seu marido morrer terá apenas 50% de seu direito à pensão! Cortará seu padrão de vida pela metade!

A expectativa de vida tem a ver com a falta de qualidade de vida que as pessoas têm. O governo golpista e temeroso esquece que no meio de números e médias tem gente, pessoas com as quais o país precisa ter altruísmo — amor desinteressado ao próximo, seja via filantropia, seja via abnegação.

Quem é pobre, miserável, mesmo que esteja em região com longevidade melhor, vai ter dificuldade de se aposentar. Porque ele começou a trabalhar muito cedo, foi explorado durante toda a vida sem carteira de trabalho assinada, i.é, com a informalidade, então, vai ter dificuldade de se aposentar por tempo de contribuição.

As centrais sindicais pedem outro caminho para a discussão. “A grande preocupação da CUT é que o governo não vê a Previdência como seguridade social, vê como um custo e como mais uma conta da economia”, apontou Wagner Freitas. “Queremos discutir a seguridade social, não só a conta da Previdência. O problema é não ver a Previdência como seguridade, tratar tudo como igual e esquecer que tem tratar de forma peculiar as diferenças. Não reconhece que tem gente que começou a trabalhar com 15 anos“, disse o presidente da CUT.

Diante disso, a solução para as centrais não passaria por uma reforma da Previdência, mas por medidas que aumentem sua eficiência.

  1. Por que o governo golpista e temeroso não fiscaliza a regulação do mercado de trabalho para que não tenha mercado informal?
  2. Por que não cobra os maiores devedores da Previdência, os sonegadores?
  3. Por que não atua para que Previdência funcione, adequadamente, face à perspectiva demográfica, e não fazer medidas para acabar com ela?

Se não tem nenhuma competência, não devia ter golpeado um governo legítimo!

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Darrell Huff, em seu livro “Como Mentir com Estatísticas”, cita: “O raciocínio estatístico será um dia tão necessário à cidadania eficaz como a capacidade de ler e escrever” (H. G. Wells).

Há uma espécie de numerozinho cuja ausência pode ser danosa na mesma intensidade. É o que nos informa a faixa de variação, ou seu desvio da média que é dada. Geralmente uma médiamédia aritmética ou mediana, especificada ou não – é uma simplificação tal que é pior do que inútil. Nada conhecer sobre um assunto é, frequentemente, mais sadio do que saber o que não é verdade, e um pouquinho só de conhecimento pode ser coisa muito perigosa.

Muito do que se tem feito recentemente a respeito da habitação americana, por exemplo, foi planejado para ajustar-se à família estatisticamente média de 3,6 pessoas. Traduzido para a realidade, isto significa 3 ou 4 pessoas, o que, por sua vez, significa habitação com dois dormitórios. E a família deste tamanho, embora seja “média”, na verdade é uma minoria entre as famílias.

“Construímos casas médias para famílias médias”, dizem os construtores – e deixam de lado a maioria, que são as famílias acima e abaixo da tal média. Algumas áreas, por consequência, foram super construídas com residências de dois dormitórios, e sub construídas quanto a residências de um e de três dormitórios. Aqui está uma estatística cuja enganosa parcialidade teve consequências extremamente caras.

A Associação Americana de Saúde Pública diz, a respeito desses casos: “Quando olhamos para além da média aritmética, para as faixas verdadeiras, que tais médias representam enganosamente, verificamos que as famílias de três e de quatro pessoas constituem apenas 45% do total; 35% são de uma ou duas pessoas; 20% possuem mais de quatro pessoas“.

O bom-senso falhou, em face da convincente precisão e autoridade do 3,6 em média. De alguma maneira, o número fracionário fez-nos esquecer o óbvio, que todos conhecemos, da simples observação: muitas famílias são pequenas, e algumas são grandes.

A falha está no processo de filtragem, desde o pesquisador, através do redator sensacionalista ou mal informado, até o leitor, que deixa de notar os numerozinhos que foram sendo abandonados no processo de dar à luz a um número só. Muito da má informação poderia ser evitado se à média fosse adicionada uma indicação da faixa de variação.

Muitos, vendo que se encontram dentro de determinada faixa, deixarão de preocupar-se com diferenças pequenas e de pouca importância. É extremamente difícil que um indivíduo seja exatamente normal em qualquer ponto, exatamente como uma moeda que, jogada 100 vezes, rarissimamente cairá exatamente 50 vezes de um jeito e 50 de outro.

O que é enganoso, quanto ao numerozinho que não está lá – o desvio-padrão ou a margem-de-erro –, é que sua ausência geralmente passa despercebida. Aqui, claro, está o segredo de seu sucesso. Os críticos do jornalismo, como praticado atualmente, deploram a economia atual da sola dos sapatos dos repórteres e redatores.

Em geral, o repórter passa por cima de algumas palavras, sem preocupar-se com seu significado, e espera que você leia a noticia também sem o menor senso critico, pela feliz ilusão de achar que aprendeu alguma coisa!

Tudo isso lembra uma velha definição do método de ensino tradicional nas salas de aula (Atenção, professores!):

“Um processo pelo qual o conteúdo do livro-texto do professor transfere-se para o caderno do aluno sem passar pela cabeça de nenhum dos dois”.

🙂

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