Política Monetária de Juros: Concentradora de Riqueza Financeira

taxa-de-juro-real-no-brasil-comparada-com-outros-paises-out-2016

A quem beneficia esta política de juros (nominais e reais) disparatados em relação aos vigentes em todos os demais países? Obviamente, à casta de financistas que se apoderou do COPOM, cujos representantes não têm a postura ética de se declararem impedidos de beneficiar a si próprio, não podendo fixar o juro por “conflito de interesses“. Aliás, juro é interest em inglês, interés em espanhol, intérêt em francês, e falta-de-vergonha em português-brasileiro…🙂

Antonio Delfim Netto (Valor, 01/11/16) ressalta que, “a despeito do propalado “formidável progresso da Ciência Monetária”, os Bancos Centrais (independentes, autônomos ou “farsantes”) jamais entregaram as suas promessas, o que recomenda um ceticismo cauteloso”.

Ele lembra que “a história da criação dos Bancos Centrais é longa. Há pelo menos 350 anos, por diversos motivos (em geral problemas fiscais), alguns governos decidiram dar apoio à criação de instituições bancárias.

O primeiro foi o Swedish Riskbank, em 1668. O Bank of England foi criado em 1694, para ajudar a financiar a guerra contra a França! O Banque de France, em 1800, para facilitar o financiamento das guerras napoleônicas. O Austrian National Bank foi criado em 1816 “para restabelecer o valor da moeda destruído pelo financiamento da (mesma) guerra”.

Dois exemplos mostram outra faceta dessa história. O famoso Federal Reserve, o Fed americano, foi criado em 1913, depois da grave crise financeira de 1907, “para garantir a estabilidade financeira”. Sua função foi expandida em 1978 para “assegurar o pleno emprego, a estabilidade dos preços e a moderação da taxa de juros de longo prazo”. Depois da Segunda Guerra Mundial, a absoluta estabilidade monetária tornou-se um dogma religioso na Alemanha, com a criação do Bank Deutscher Land em 1948. Foi entronizado na Lei do Bundesbank, em 1957.

Um fato interessante com relação ao papel dos Bancos Centrais é que foi o avanço da teoria – de H. Thorton (1802) a W. Bagehot 1866) – que lhes atribuiu a tarefa primordial de garantir a “liquidez do sistema financeiro”, com a criação da doutrina do “emprestador de última instância”, infelizmente esquecida em 2008!

Toda essa discussão tem pouca importância diante de um fato concreto e incontornável: a política monetária não pode ser independente da política fiscal por motivos técnicos (como se vê em Sims, C.A. – “Fiscal Policy, Monetary Policy and Central Bank Independency“, que tanta confusão causou em Jackson Hole, no dia 26 de agosto deste ano) e por motivos políticos: o regime democrático a rejeita, pelo enorme custo que impõe aos “perdedores” majoritários.”

Acrescento eu (FNC): quando a casta dos comerciantes-financistas se apropria do poder discricionário de fixar o juro básico de referência, este passa a ser a variável-determinante de todas as demais rendas. Esta casta passa a ter o privilégio único de determinar sua própria renda. As demais ficam submetidas à dura Lei do Mercado. Em última análise, o Banco Central do Brasil se transformou em uma instituição extrativista, pois o juro arbitrário e ilimitado retira renda dos trabalhadores pelo desemprego e tributação, demanda dos comerciantes, venda e aluguel dos imóveis, tudo isso em favor apenas da renda do capital financeiro.

private-banking-jun-2016

Resultado deste arbítrio na concentração da riqueza financeira: no primeiro semestre de 2016, os ativos sob administração no Private Banking cresceram 7% (R$ 50 bilhões), em média per capita (por cada um dos 109.894 clientes)  de R$ 6,483 milhões em dezembro de 2015 para R$ 6,864 milhões, para cada um dos 111.094 clientes, em junho de 2016. Cada qual acumulou mais R$ 481 mil, ou seja, quase 1/2 milhão de reais em um semestre que o juro básico (Selic) permaneceu em 14,25% aa!

Isto contemplando 1.200 novos clientes Private, o que diminuiu um pouco essa média de capitalização.

Desde dezembro de 2013, há dois anos e meio, quando o AuM (Ativo sob Administração) somava R$ 577.177,22 milhões, passando para R$ 762.640,36 milhões em junho de 2016, o Private Banking, acumulou mais R$ 185 bilhões!

Curiosamente, este valor é próximo do déficit primário de R$ 190,5 bilhões do governo central em 12 meses, em setembro de 2016, o que evidencia que o problema fiscal pode ser visto como a contrapartida do enriquecimento desta casta privilegiada…

rendimentos-aplicacoes-financeiras-ate-out-2016 PS:

Sob o ponto de vista das operações de swap cambial, programa que visa dar proteção ao mercado e garantir estabilidade financeira, não há incentivo para o BCB abaixar juros. No ano, a conta está positiva para o BCB em R$ 77,047 bilhões. O swap cambial é um derivativo que relaciona as variações no câmbio com a taxa de juros em um determinado período. De forma simplificada, o BCB é ganhador quando a cotação do dólar cai e perdedor quando a moeda americana sobe de valor ante o real. O estoque de contratos em mercado está ao redor dos US$ 25 bilhões, depois de ter chegado a US$ 104 bilhões em agosto de 2015.

Leia maisTrocar os swaps cambiais pelas reservas cambiais

5 thoughts on “Política Monetária de Juros: Concentradora de Riqueza Financeira

  1. Mais uma Excelente Postagem de Autoria do Professor Dr. Fernando da Costa. Nesta oportunidade, vai no Núcleo, na Origem da Problemática-Brasil!

    Em 2015, o “mainstream” inundou na Mídia que existia Dominância Fiscal e que era preciso restabelecer o Papel do Banco Central, pois só através da Política Monetária: seria possível tirar o País da Crise.

    Então, decorridos mais de um Ano, o que está Evidenciado é o Agravamento da Crise, logo os Instrumentos utilizados pela Equipe Econômica do Presidente Temer que é referendada pelo Mercado: não entregou o que prometeu!

    Sendo assim, observo que para o Brasil voltar a crescer e as Contas Públicas apresentarem Resultados Satisfatórios: é preciso uma Mudança Real na Política Econômica.

    Ciente de que devo ser Objetivo, visto que este Consagrado Blog oferta Múltiplas Matérias, gostaria de – Data Vênia – ressaltar que existe um Erro de Diagnóstico da Atual Equipe Econômica que insiste nos Velhos e Padronizados Mecanismos de Política e Administração Monetária. Vou me deter somente na seguinte Sugestão e que peço ao Owner deste Blog se possível, aprofundasse numa Postagem Específica a Questão que focalizo a seguir.

    Temos um Déficit (Resultado Primário) de R$ 190 Bilhões nas Contas Nacionais – União. Por outro lado, as Reservas Internacionais somam mais de US$ 175 Bilhões! Ora, por que não procurar abater a Dívida Bruta com a Venda das Reservas Internacionais?

    Atualmente, não existe Risco de Ataque Especulativo, então o que justifica a manutenção de um Montante tão Expressivo, já que poderia ser utilizado para abater a Dívida Bruta, consequentemente, poderia haver no curtíssimo prazo a Geração de Caixa no Governo Central e o melhor, voltar a crescer já em 2017.

    Para tanto, sou de opinião que existe uma inversão de lógica no Diagnóstico da festejada Equipe Econômica do Temer, uma vez que impuseram Instrumentos de Política Monetária na expectativa de que a Inflação, bem como o Déficit Primário cairia com estas Medidas. Mas, isto não se concretizou, pois o Correto seria ter reduzido gradualmente (há mais de 1 Ano!) a Taxa Selic para o nível da Inflação, pois estimo que se daria num horizonte máximo de 6 meses.

    Portanto, estamos assistindo a tão Renomada e Avalizada Equipe Econômica do Presidente Temer: desperdiçar o Ano de 2016 com a utilização de uma Política Monetária Dominante que é equivocada e ineficaz para tirar o Brasil da Crise!

    Enfim, renovo a minha Sugestão/Solicitação ao Professor Fernando Nogueira da Costa, se for possível com a sua Diferenciada Expertise em Economia Brasileira para desenvolver uma Análise em Postagem Específica sobre a utilização das Reservas Internacionais em Poder do Banco Central como uma alternativa para tirar o Brasil dessa Situação, pois no meu entendimento não é com PEC 241, Aumentos de Impostos e Reforma da Previdência que serão resolvidos os desajustes das Finanças Públicas no Brasil.

    Agradeço Antecipadamente a Atenção que for Dada.

    Saudações!

    1. Prezado Wilson,
      agradeço seus pertinentes comentários. Concordo contigo que sempre há soluções alternativas e o papel dos “heterodoxos” é, sempre e em todo lugar, enriquecer o debate dessas alternativas. Porém,nos jornalecos brasileiros, só têm colunas — com raras exceções para escamotear a regra geral — os seguidores do pensamento único dominante. Com isso, a Nação sofre!

      A alternativa de redução das reservas internacionais (próximas de US$ 380 bilhões) e/ou a de troca de operações compromissadas por depósitos voluntários remunerados no BCB mais baratos, o que reduziriam substantivamente a dívida bruta brasileira, deveriam ser submetidas ao debate da opinião especializada de forma plural, recebendo contribuições e aperfeiçoamentos para serem implementadas.

      Leia também outra alternativa, embora o estoque de swaps cambiais já tenha sido reduzido de US$ 104 bi para US$ 25 bi e no ano corrente o BCB esteja ganhando com a queda da cotação do dólar: https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2015/08/18/trocar-os-swaps-pelas-reservas-cambiais/

      Dada a falta de democracia, o governo golpista é também temeroso do debate público. E a Nação sofre por isso!
      att.

  2. Caro Professor Dr. Fernando Nogueira da Costa!

    Mais uma vez, lhe Parabenizo pela acurácia dos seus Comentários acerca do Tema que lhe pedi para Opinar.

    Concordo integralmente, com o Papel bastante negativo patrocinado nos principais Jornais e Revistas de circulação no Brasil, onde predomina a Reprodução daquilo em que anteriormente apontei como sendo uma Política Econômica ineficaz para tirar o País da Crise. Isto é Fato!

    Adicionalmente, agradeço-lhe pela correção, pois na verdade deveria ter consignado como Volume de Reservas Internacionais o equivalente a US$ 375 Bilhões, uma vez que atualmente a trajetória é atingir o que Você, discriminou, ou seja: US$ 380 Bilhões.

    Verifiquei a Postagem do seu Blog de 18/08/2015, onde constato que já naquela Oportunidade, existiam Economistas que avalizavam suas Proposições no que se refere a utilização das Reservas Internacionais como Alternativa para combater os Desequilíbrios Fiscais das Contas Públicas do Governo Federal.

    Ressalto ainda, sua importante advertência notadamente ao Custo de manutenção nestes Níveis das Reservas Internacionais.

    Enfim, gostei Especialmente das suas Observações no Final do seu Comentário, no atinente a Falta de Debate Público e Especializado acerca de Temas que impactam os destinos da Nação, tais como os relativos às implementações das Políticas Públicas!

    Finalmente, movido pelos “insights” das suas Postagens, sugiro que seria interessante a realização de um Evento com Especialistas em Economia Monetária e Finanças Públicas com a Participação de Representantes de Entidades de Classe Diversificadas, onde Segmentos da População estivessem Representados e houvesse a Discussão deste Tema no qual estamos Comentando, com o objetivo de Elaborar no Final deste Evento, um Documento que fosse encaminhado como uma Proposta Alternativa para a Política Econômica adotada no Governo Temer. Por fim, a Ideia é disseminar por Diversos Canais esta e Demais Alternativas, que provavelmente surgiriam neste e Outros Eventos Similares.

    Por último, reitero meus Agradecimentos pela Atenção que me foi Dada.

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