Padrão Político da América Latina

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Ernesto Talvi é professor visitante do programa Mundial de Economia e Desenvolvimento do Brookings Institution e diretor da Iniciativa Latino-Americana Brookings Global-Ceres de Política Econômica e Social. Publicou interessante artigo (Valor, 01/11/16) sobre um suposto padrão político pendular, mecanicista e economicista na América Latina. Confira abaixo. Depois, leia também:

Entrevista de Pedro Dutra da Fonseca à Carta Capital sobre Risco de Destruição do Legado Varguista

“A hegemonia dos governos de centro-esquerda e populistas na América Latina durante a maior parte dos últimos dez anos parece agora estar chegando ao fim, com a ascensão ao poder de partidos de centro-direita na Argentina, Brasil, Guatemala, Paraguai e Peru.

Não deveríamos nos surpreender com o refluxo da “maré vermelha” da América Latina. Evidências históricas dos últimos 40 anos mostram que:

  1. os ciclos políticos na região são altamente sincronizados e
  2. tendem a refletir surtos de crescimento e desaquecimento econômicos.

De 1974 a 1981, a economia da América Latina cresceu à taxa média anual de 4,1%, comparativamente à sua média histórica anual de 2,8%, devido ao pico dos preços do petróleo da década de 1970. Os petrodólares que inundaram a região financiaram enormes aumentos dos gastos públicos e surtos de crescimento imobiliário que sustentou as ditaduras militares do continente. À época, regimes autoritários reivindicaram os louros pelo “boom” econômico.

Mas esse período mostrou ser a proverbial calma antes da tempestade. A festa foi interrompida no início da década de 1980, quando o então presidente do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA), a encerrou bruscamente, ao planejar uma repentina alta das taxas de juros a fim de conter a inflação.

O “choque Volcker” criou uma tripla maré de azar:

  1. os EUA entraram em profunda recessão;
  2. os preços das commodities despencaram; e
  3. os ingressos de capital na América Latina sofreram uma reviravolta abrupta, ao migrar para instrumentos denominados em dólar, que ofereciam melhores rendimentos.

O que se seguiu foi uma “década perdida” de depressão econômica, estagnação do crescimento e crises monetárias, da dívida e do setor bancário, em vista da contração ou da falência da produção dos países latino-americanos. Essa grave desaceleração criou insatisfação social generalizada, e, com a queda do Muro de Berlim e o fim do apoio dos EUA a regimes militares na região, todas as ditaduras latino-americanas, com exceção da de Cuba, caíram.

Na maior parte, governos de centro-direita, democraticamente eleitos, substituíram as ditaduras militares, e trocaram o paradigma econômico anterior – substituição de importações, intervenção estatal e super-regulamentação – pelo Consenso de Washington, que defendia disciplina fiscal, estabilidade dos preços, liberalização do comércio exterior e financeira, privatização e desregulamentação.

No início de 1990, o Plano Brady, de 1989, tinha solucionado a crise da dívida da América Latina ao aliviar a dívida em troca de reformas econômicas, e as taxas de juros tinham caído nos EUA.

A democracia e as políticas econômicas sensatas e confiáveis, parecia ter finalmente surtido o efeito desejado. Mas sobrevieram então a crise asiática de 1997 e a do rublo de 1998, quando o governo russo deixou de honrar sua dívida.

No começo da década de 2000, o mal-estar econômico da América Latina voltou a gerar insatisfação social e os governos de centro-direita começaram a cair como dominós, sendo substituídos por governos de centro-esquerda ou populistas. Os novos governos de centro-esquerda mantiveram os compromissos anteriores com a disciplina fiscal, a baixa inflação e a abertura dos mercados e erigiram pródigos programas de bem-estar social e de redistribuição econômica.

Mais uma vez, os preços elevados das commodities e o capital barato e abundante alimentaram um “boom” da economia que durou uma década. E, mais uma vez, os governos da região atribuíram seu sucesso econômico ao paradigma em vigor, que, desta vez, associava a ortodoxia econômica a políticas redistributivas. Os governos de centro-direita tinham transferido pacificamente o poder para os governos de centro-esquerda recém-eleitos, o que levou muitas pessoas a acreditar que desta vez seria diferente.

Elas estavam enganadas. A partir de 2012, as economias latino-americanas passaram por um desaquecimento significativo, devido:

  1. à crise da dívida europeia,
  2. à desaceleração da China,
  3. ao colapso dos preços das commodities e
  4. à evasão de capital dos mercados emergentes, diante de investidores perplexos que buscavam refúgio em ativos seguros.

Os governos latino-americanos tinham, mais uma vez, convencido não apenas a si mesmos como também os eleitores de que foram suas políticas as responsáveis pelo surto de crescimento anterior. Quando as expectativas dos eleitores entraram em choque com a nova realidade socioeconômica, saíram às ruas para protestar. E foi eleita uma nova safra de governos de centro-direita.

Os 40 anos de história de oscilações políticas da América Latina entre governos de centro-direita e de centro-esquerda são evolutivos: cada novo estágio se alicerça no anterior. Praticamente a exemplo da destruição criativa, a evolução

  1. preserva o que funciona,
  2. descarta o que não funciona e
  3. às vezes acrescenta características novas, desestabilizantes.

Pressupondo-se a permanência desse modelo, o que podemos esperar da nova safra de governos latino-americanos primordialmente de centro-direita, tradicionais?

Eles, mais provavelmente, darão prosseguimento ao processo evolutivo, ao preservar alguns dogmas básicos do Consenso de Washington, ao mesmo tempo em que seguirão novas políticas de redistribuição, quando viável. Mas os recursos serão escassos, e eles precisarão, portanto, redesenhar os programas de gastos sociais e os projetos de infraestrutura a fim de maximizar a eficiência e obter maior retorno do investimento. Chamo esse novo paradigma de “austeridade inteligente“. Se os governos latino-americanos a implementarem com sucesso, eles merecerão, de fato, reivindicar o mérito pelos ganhos econômicos resultantes.”

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