Bolha OnLine: Viés Heurístico da Auto Validação Ilusória

economia-dos-eua-out-2016

Há tempos, seja no Brasil, seja nos EUA,  apresenta-se uma divisão política não tão alinhada com a desigualdade social na apropriação da renda. Lá está separando republicanos e democratas, conservadores de liberais. Cá, separando tucanos e petistas e aguçando a clivagem entre a direita e a esquerda.

Mas as divisões que apareceram em 2016, nos EUA, não apresentam “precedentes”, diz Bill McInturff, pesquisador republicano e um dos coordenadores da pesquisa realizada para o “Wall Street Journal”/NBC News. As rupturas deste ano foram de natureza mais fundamental, quase primitiva, ocorrendo ao longo das linhas mais básicas da sociedade: gênero, raça e educação. Um olhar detalhado na pesquisa pré-eleitoral do “WSJ”/NBC, concluída neste fim de semana, ilumina essas linhas.

Mais notavelmente, uma nova lacuna educacional foi aberta. Quando foi apresentada aos eleitores a opção dos dois principais candidatos, Hillary apareceu na liderança com 51% das intenções de voto entre os brancos com diplomas universitários ante os 41% de Trump. Ele liderou entre brancos sem ensino superior com uma proporção de 2 para 1.

Ele conseguiu o apoio de 3 em cada 5 americanos moradores de áreas rurais, enquanto ela conquistou 3 em cada 5 habitantes de zonas urbanas. E as divisões mais tradicionais são agora como abismos escancarados. Ela liderou entre os eleitores não brancos por uma margem de 75% a 15%.

Além disso, esta foi uma eleição em que os eleitores de Trump e de Clinton não discordaram apenas sobre quem escolher. Muitos eleitores de um candidato sequer podem imaginar como cidadãos poderiam escolher o outro!

Talvez o mais alarmante seja que 90% dos eleitores de Hillary disseram na pesquisa que não se sentiriam confortáveis em apoiar Trump como presidente, enquanto pouco mais de 90% dos eleitores de Trump expressaram os mesmos sentimentos em relação a Hillary como presidente. Mais de 50% dos eleitores de Trump e Hillary disseram que o país permaneceria dividido após as eleições.

rede-social

Virgilio Almeida é professor visitante na Universidade de Harvard e foi secretário de política de informática no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação no período 2011-2015. Danilo Doneda é professor da Escola de Direito da UERJ, doutor em Direito Civil e especialista em privacidade e proteção de dados. São coautores de um artigo (Valor, 08/11/16) sobre o que em Economia Comportamental se denomina viés heurístico de auto validação ilusória. É tipo “eu só converso com minha turma, vá procurar sua turma!”

Com esse sectarismo o ser humano erra, pois não conversa com quem poderia lhe mostrar seus equívocos. Só troca ideias com quem concorda a priori. Nunca é alertado do risco de estar errado. Quando levanta uma hipótese, só pesquisa dados que a confirmam, “varrendo prá debaixo do tapete” aqueles que a desmentem!

Reproduzo o pertinente artigo abaixo.

“Trata-se de um aparente paradoxo: de um lado, nunca se teve tanto acesso à informação. Na internet, se encontra de tudo. Nunca se imaginou que pudéssemos ter tantas alternativas globais de comunicação, por plataformas como Skype, WhatsApp ou tantas outras, franqueando a comunicação em qualquer parte do mundo com um custo mínimo. Ao mesmo tempo, assiste-se a uma forte onda de polarização política e extremismo ideológico, são democratas versus republicanos nos Estados Unidos, esquerda versus direita no Brasil, nacionalistas versus globalistas na Europa, xiitas versus sunitas no Oriente Médio.

As explicações passam por questões como:

  1. a excessiva concentração de riqueza,
  2. os efeitos perversos da globalização no emprego e na renda,
  3. problemas na implementação das democracias representativas e
  4. crenças religiosas sectárias.

Mas há também um outro fenômeno de relevo, que contribui significativamente para a polarização das ideias e posições políticas, afetando a democracia e os processos eleitorais em vários países. Trata-se da personalização dos serviços oferecidos nas grandes plataformas como Google, Facebook, Apple, Microsoft, Amazon e outras.

Através desse mecanismo, as pessoas acabam sendo expostas prioritariamente a opiniões e ideias similares às suas próprias visões de mundo. O efeito disso é conhecido como “bolha online“‘ (i.e., filter bubble) ou “câmara de ecos” e ultimamente tem chamado a atenção até de líderes globais. Recentemente, o presidente americano Barack Obama e a chanceler alemã Angela Merkel expressaram publicamente sua preocupação com o impacto dessas bolhas ideológicas para as sociedades democráticas.

Tecnologias digitais permitem que as plataformas de serviço e informações na internet abordem de maneira individualizada cada um dos seus bilhões de usuários. A personalização desses serviços é possível pela ação de algoritmos que filtram as informações que são apresentadas aos usuários, seja em consultas feitas ao Google, nas recomendações dos filmes do Netflix, na seleção dos “posts” que são mostrados a cada usuário no Facebook, na priorização de alguns dos tweets que aparecem no Twitter e até na seleção de músicas e aplicativos.

Nenhuma dessas informações chega ao usuário por acaso. Por um lado, a personalização desses serviços traz inúmeros benefícios e facilidades para as pessoas. Por outro lado, os algoritmos de personalização apresentam aos usuários aquelas informações e notícias tidas como as mais apropriadas aos seus respectivos perfis sociais, econômicos e políticos. Isso pode acarretar uma excessiva concentração de ideias e pontos de vista similares.

Ao homogeneizar as informações expostas a grupos de pessoas, as plataformas na internet podem criar certos reflexos no debate político e um deles é a possibilidade de que o discurso de determinados candidatos seja modelado conforme a plateia a ser abordada. Através de dados permanentemente coletados na internet, os algoritmos podem direcionar mensagens de campanha para indivíduos ou grupos determinados, com base em perfis políticos inferidos pelas próprias plataformas.

Uma parcela cada vez maior da população informa-se através das plataformas, como Google, Facebook ou Twitter. Uma pesquisa recente do instituto de opinião pública Pew Research mostra que nos EUA 62% dos adultos obtém suas notícias em mídias sociais, em plataformas nas quais a personalização está sempre presente. Estudos têm mostrado que na internet as pessoas acabam cada vez se relacionando mais com aqueles que seriam seus “iguais”, compartilhando assim as mesmas ideias, crenças e aspirações.

Como consequência da criação dessas bolhas online, ocorre uma intensa fragmentação entre tendências políticas. Como as pessoas têm acesso prioritário às notícias e opiniões que tendem a reforçar suas próprias concepções, a consequência desse fenômeno é uma maior polarização política. À medida que a comunicação e interação na internet restringe-se a grupos que possuem as mesmas ideias, pesquisas têm mostrado que nesses grupos os indivíduos se tornam mais dogmáticos e extremados, favorecendo o isolamento ideológico.

Estas novas conotações que a internet pode proporcionar ao processo eleitoral no Brasil não devem ser consideradas apartadas da contribuição que a rede é capaz de trazer ao fluxo de informações, que é fundamental ao processo eleitoral. Através de ações dos próprios usuários das plataformas ou mesmo a partir de um impulso regulatório, é possível introduzir maior diversidade no acesso à informação.

Ao possibilitar o amplo embate de ideias, propostas e projetos entre candidatos e eleitores, a internet, com sua natureza descentralizada, proporciona que opiniões e críticas suplantem as possibilidades das mídias tradicionais. Exatamente por isso, tais características da internet devem ser cultivadas e protegidas de interferências, inclusive através da consideração de que as comunicações pela internet, por envolverem muitas vezes cidadãos comuns como fontes de informação, não devem se submeter a um crivo tão rigoroso aos olhos da legislação eleitoral, como ocorre com as comunicações realizadas por meios tradicionais.

A bem da verdade, não se está diante de uma situação totalmente nova. A diversidade no acesso à informação em mídias tradicionais, como rádio e TV, é uma preocupação constante em regimes democráticos. No caso da internet, a metáfora da “bolha” é comunicativa e poderosa para explicitar potenciais efeitos danosos.

A situação atual certamente é complexa e não há alternativas muito claras acerca de qual sistema de contrapesos deve ser elaborado diante de uma eventual consolidação de espaços polarizados a partir das mídias sociais. Um sistema desta natureza deverá partir de diagnósticos concretos sobre o real alcance desta homogeneização e polarização ideológica, para que possa estabelecer se, e quando, é necessária maior diversidade no acesso à informação e a melhor forma de alcançá-la.”

2 thoughts on “Bolha OnLine: Viés Heurístico da Auto Validação Ilusória

  1. Professor, boa noite!

    O senhor já escreveu algo sobre LCIs/LCAs feitos em bancos “médios”?

    Fiquei na dúvida pelo seguinte: tenho uma quantia em CDBs no BB, banco do qual sou funcionário.

    Andei lendo sobre alternativas de das aplicações acima mencionadas, e encontrei bancos (que aparentemente não têm agências abertas ao público) , por exemplo, que pagam bem mais em porcentagem do CDI do que o BB. ( 96% contra 80%, me parece).

    Considerando a garantia do FGC, é de fato uma alternativa a se considerar? Ou há mais algum risco?

    Como tenho pouco (o equivalente a uns 5 salários meus mensais), às vezes me pergunto se essas pequenas diferenças realmente importem e no fim das contas o problema não seja mesmo psicológico (rs).

    Lembro de ter lido um artigo da sua autoria, em que dizia que a renda do trabalhador vem do trabalho, daí se investir em educação, etc. Que os rendimentos financeiros, propriamente, seriam para assegurar renda na aposentadoria. É isso mesmo? Tenho tentado ler bastante coisa, mas confesso que me perco na maré de números. Haveria espaço, por exemplo, para algum investimento em ações? Digamos que eu possa reservar ao mês 1000 reais, no total, para investimento, faria sentido aplicar parte disso em renda variável, ações, por exemplo? Ou fundos delas?

    Peço perdão pela extensão, sigo lendo seus artigos, e gostei bastante da sua entrevista mais recente, disponibilizada no youtube, sobre finanças comportamentais. Espero que venham mais desse tipo! Faz muita falta essa opinião fundamentada, de quem tem lastro científico e compromisso social – e democrático!

    O youtube (e a rede, de modo geral), tá infestada de gente do tipo “fique rico em pouco tempo”, que parecem charlatões (entre uma ou outra dica para ficar milionário, gravam vídeos exaltando as qualidades da PEC 341/55).

    Há um amplo campo carente de conhecimento de qualidade, principalmente para a classe trabalhadora que está começando a poder pensar no futuro (ainda que com as incertezas nesses tempos golpísticos…)

    Obrigado, desde já!

    1. Prezado Thiago,
      você está certo em seus comentários sobre meus aconselhamentos:
      1. não se deixe enganar por pequenos percentuais em CDI sobre baixos valores nominais: faça a conta de quanto representa em reais, i.é, no absoluto e não no relativo, para avaliar a relação retorno/risco.

      2. pela minha experiência vivenciada, ganhei mais investindo na minha carreira profissional, i.é, com renda do trabalho, do que em renda do capital, pois aquela sendo investida é a origem da acumulação desta.

      3. tendo disciplina de investir sempre de maneira a proteger a sobra de renda do trabalho em relação à corrosão do poder aquisitivo pela inflação — e não maximizar o ganho tomando mais risco –, dada a alta taxa de juro real no Brasil, estimo que em 30 anos se consegue uma renda do capital financeiro capaz de substituir a renda do trabalho, portanto, torna-se capaz de aposentar e manter o padrão de vida.

      4. leia mais na Cartilha de Finanças Pessoais de minha autoria cujo link está junto ao vídeo citado — ver a categoria ao lado: “Entrevistas”.
      att.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s