Era da Virulência: Atentados Direitistas contra a Democracia

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Edward Luce (Financial Times apud Valor, 07/11/16) publicou uma longa reportagem intitulada Era da Virulência ameaça a Democracia. Edito-a abaixo, destacando as passagens mais universais. Antes, lembro que virulência significa “qualidade ou estado do que é ou está virulento”. Refere-se à capacidade de um vírus ou bactéria de se multiplicar dentro de um organismo, provocando doença, adquirindo o sentido figurativo do caráter daquilo ou daquele que está carregado de violência ou de ímpeto violento.

Agressões verbais cotidianas na rede social são acobertadas por serem postadas sem o nome ou a assinatura do criador. Aparentemente sem autoria  daquele que não revela o seu nome, revela a covardia do autor que não assina a sua obra com seu próprio nome, adotando substituinte. Quando assina, é porque ele é obscuro, desconhecido, não tem nome ou renome, ou seja, nem reputação profissional a zelar.

Não dimensionando o mal que fazem a si e aos outros, faz horríveis postagens no Twitter ou no feicebuque (sic). Tem a clara intenção de insultar todas as vítimas de sua “caça às bruxas”. Quando tuíta, usando seu nome real, ele se exulta com a indignação criada.

A provocação é a meta da assim chamada “direita alternativa” (“alt-right“), o universo amorfo de grupos de extrema direita que floresceram na Era de Donald Trump. Os memes são suas armas. A notoriedade é seu oxigênio. O último período de um ou dois anos marca o auge de seu divertimento. “Independentemente do que acontecer, serei profundamente grato a Trump pelo resto da minha vida”, diz o fulano direitista.

À semelhança de outras eleições na Era da Rede Social, esta parece ser a eleição presidencial americana mais furiosa de todos os tempos. A história poderá vir a recordar 2016 como:

  1. o ano em que os EUA finalmente escolheram uma mulher para comandá-los, ou
  2. o ano em que a ordem global americana do pós-guerra começou a ruir.

Outros o relembrarão como o ano da eleição em que um outsider truculento — ainda por cima um astro de reality show da TV — furou o cerco e mudou as regras do jogo político nos EUA.

[FNC: Nestas eleições norte-americanas, assim como no processo do golpe parlamentarista no Brasil, “o cimento do respeito mútuo”, que é tão vital a qualquer sociedade livre, se quebrou ao sabor dos conflitos ideológicos. Com a predominância deles, a população se afasta da ideologia democrática que produz a coesão nacional e a convivência civilizada de polos antagônicos.]

Este é o ano em que o senso de contenção da democracia pareceu desaparecer. As pessoas não se dão mais ao trabalho de tentar convencer umas às outras. Elas simplesmente atiram as suas opiniões — senão apenas a sua mera identidade — na cara dos outros. Ou então simplesmente o xingam. Quanto mais retuítes, melhor…

Apesar de todas as suas vantagens, as redes sociais afogaram a política no sarcasmo. As novas tecnologias abriram uma galáxia de pensamentos que no passado ficavam confinados às bibliotecas, mas também possibilitaram que antigos preconceitos voltassem a se infiltrar na cultura dominante — o antissemitismo, por exemplo, ou o ódio às mulheres. Nos últimos meses, as hashtags #whitegenocide (o ideia de que os brancos estão sendo ameaçados pelo multiculturalismo) e #repealthe19th (a 19a emenda da Constituição americana, que deu às mulheres o direito ao voto) figuraram entre os tópicos mais comentados do Twitter.

A repugnância contaminou todo o espectro político, mas foi a direita que melhor aprendeu a lidar com ela. Em parte por estar se rebelando contra o politicamente correto, ela opera com menos limites ou absolutamente sem limite.

O nível de confiança entre os eleitores e os eleitos cai há anos. Em 2016 o eleitorado começou a se voltar, viciosamente, para si mesmo. Será isso um movimento momentâneo ou uma guinada permanente?

O futuro da sociedade livre pode depender dessa resposta. A democracia não consegue prosperar por muito tempo em um lodaçal de desprezo mútuo.

Uma das principais características das redes sociais é o anonimato. Quando a pessoa se dirige a alguém diretamente, é mais difícil manter o tom raivoso. Tudo o que o fulano sabe sobre o sicrano sugere que a conversa será breve. Mas pode se transformar em uma interlocução mais longa do que o sicrano previra.

Houve, nos EUA, a fundação do grupo nacionalista branco American Renaissance, é enquadrada dentro de mais um grupelho relacionada à criação da “direita alternativa”.

[FNC: No Brasil, em certa medida, há muitos anciãos saudosos “da lei e da ordem ditatoriais”, quando provavelmente achavam que tinham mais status social, entre os jovens ativistas neoliberais da “alt-right” tipo Partido Novo.]

Trata-se de um movimento que existe há décadas nos EUA. “Trump é um despertar”, assim como foi a ascensão de Hitler em um contexto de profunda crise econômica, em 1932, em que se privilegiava apenas o ajuste fiscal. “Aconteça o que acontecer, a guerra [ideológica] vai continuar”, anunciam os militantes direitistas neoliberais.

Mesmo se os EUA suspenderem toda a imigração hoje, os brancos se tornarão minoria até 2055. Na ausência dessa suspensão, os EUA chegarão a isso dez anos antes. A direita acredita que o politicamente correto está destruindo a sociedade americana. “Ao destacar as diferenças de cada um, a sociedade instilou nos brancos a consciência de sua identidade étnica – e de ser ressentimento”, diz. “Os EUA rumam para um grande colapso, e acho que isso vai acontecer ainda durante a minha vida”, afirma um seu militante.

A meta da “direita alternativa” é “criar um sentimento nacional americano em um mundo cosmopolita”, diz ela. A questão é como conseguir isso. Ao contrário do que a esquerda esperava, a direita também tem cultura livresca. Forma-se em Universidades privadas de segunda linha com grande rancor em relação às Universidades públicas. Por exemplo, Friedrich Nietzsche pode ser sua grande primeira influência, seguido por Martin Heidegger, o filósofo alemão da década de 30 festejado pelos nazistas, e depois escritores contemporâneos como o conservador inglês Roger Scruton.

A exemplo de boa parte da “direita alternativa”, o militante direitista repudia guerras no exterior se travadas por motivos humanitários. Daí sua identificação dos que, segundo seu arbítrio, são culpados pelas guerras escolhidas pelos EUA. Pergunta: o que essas pessoas têm em comum? A resposta, claro, é o fato de serem judias. FNC: A ideia de “raça pura” do nazismo está de volta.]

A cada intervalo de poucos dias, um grupo de membros da “alt-right” grava um podcast chamado a Shoah (a palavra em hebraico para o Holocausto) Diária. Os participantes são conhecidos como “membros da equipe da morte”. Muitas vezes cumprimenta seus “colegas góis” (palavra em hebraico para “não judeu”). A coisa não fica menos sutil que isso. E eles dão importância ao estilo. Muitas de suas hashtags começam com #fash, que mistura “fashion” (moda) com “fascista”. Assim, Mussolini era #fasharapper.

Toda vez que um de seus seguidores neofascistas tuíta sobre um judeu ou sobre alguém que consideram filossemita, eles põem três parênteses em volta de seu nome. É a versão da Twitteresfera para a estrela amarela. Para subverter o símbolo, jornalistas judeus começaram eles mesmos a fazer isso, (((assim como muitos outros))).

Perguntando-se a um neofascista por que ele faz isso, ele parece capaz de argumentar racionalmente, apesar de suas opiniões causarem asco. Mas opta por não fazê-lo. “Vivemos em uma Era Pós-Letrada“, diz ele. Durante o Iluminismo as pessoas defendiam suas ideias por meio de livros — tudo era mediado pela palavra escrita, diz. Estamos rumando para a Era Pré-Iluminismo. As pessoas não liam a Bíblia naquele tempo; olhavam para ela. Um meme inteligente pode conter texto, mas é essencialmente uma imagem, ou um vídeo, que fala às emoções das pessoas – “como um hieroglifo ou um vitral”, diz ele. Quanto mais se apossar delas, melhor.

A exemplo de outros movimentos, a “direita alternativa” realiza simpósios, faz pronunciamentos e alimenta o mundo “on-line”, e em metástase, de sites de notícias nacionalistas brancos. Mas seu verdadeiro combustível é a trolagem anônima. Dar uma olhada na seção de comentários [FNC: constate isso ao ler comentários em qualquer notícia referente ao PT no Brasil] é curar-se de qualquer ilusão quanto à democracia socrática. Alguém brincou que a candidatura de Trump era como “a seção de comentários disputando a Presidência”. O Twitter é a seção de comentários enlouquecida. É também o lugar em que os memes mais rendem.

“Eles fazem as pessoas sentirem, em vez de pensarem”, diz o militante direitista. “Esse é seu poder natural.”

Diante disso, uma foto postada inúmeras vezes por humanistas liberais para arregimentar apoio para a intervenção militar dos EUA na Síria é motivo para destacar a imagem antissemita dos neoconservadores: “Pode ser que nem todos os judeus sejam neoconservadores, mas todos neoconservador é judeu”, afirma o militante neonazista.

Diante disso, como ele define o limite? O comportamento on-line tem consequências off-line. Ele sabe que as imagens criam sentimentos capazes de desencadear atos no mundo real. É essa, certamente, a intenção do que ele faz. Quem o contesta é brutalmente ameaçado por neonazistas on-line. Eles postam o endereço e o número do telefone de sua casa – prática conhecida como “doxing” em inglês. Alguns “hackeam” sua conta e mandam entregar um caixão em sua casa. Um outro encomenda serviços de limpeza pós-homicídios.

Além das ameaças de morte explícitas, a vítima é bombardeada por meio do Twitter e por outras redes sociais com arrepiantes lembretes do Holocausto. Ela é alvo, também no EUA, do Breitbart News, o site de extrema direita cujo ex-diretor, Stephen K Bannon, chefia a campanha de Donald Trump.

Os piores ataques vêm do Daily Stormer, um site abertamente nazista. A vítima recebe ainda uma caneca pelo correio com uma foto sua tratada no Photoshop e inserida no corpo de alguém usando um uniforme com uma estrela amarela. Na caneca estava escrito: “Bem-vinda ao Campo Trump”.

A maior parte desse dilúvio é anônimo e a vítima tem estar acostumada a lidar com trolagens cruéis. Ela enfrenta muito abuso, cuja linguagem é abertamente nazista.

É puro ódio ancestral e biológico. Ela é chamada de “judia russa imunda” e coisas piores. Isso também afeta não só os judeus, mas todos os democratas, que deixam a rede social para escapar das barreiras invisíveis que os judeus e eles enfrentam. O que se viu, recentemente, abala sua fé nos EUA. Eles não esperavam ser seguidos por esse ódio antissemita no Novo Mundo.

Depois, houve o atrevimento com que os “trolls” da internet responderam. Dois anos atrás, eles teriam se encolhido se confrontados por uma reação democrática. Mas agora os militantes direitistas revidam em dobro. “Não parecem mais envergonhados de seus posições.”

Mesmo assim, o temor de que muitos americanos possam ter, de repente, abraçado o antissemitismo é exagerado. Um pequeno grupo de neonazistas descobriu como ampliar sua mensagem por meio do Twitter, Breitbart News e 4chan (uma fábrica de memes da direita alternativa). No mês passado, a Anti-Defamation League (Liga contra a Difamação, ou ADL, na sigla em inglês), um grupo judeu, divulgou um estudo sobre o antissemitismo. Ele constatou que 68% dos tuítes antissemitas direcionados a jornalistas vieram de apenas 1.600 contas. “Será que elas vão desaparecer se Trump for derrotado?”, pergunta-se um democrata. “Duvido. Mas, de certa forma, é tranquilizador saber que se trata basicamente de um grupo de homens tristes que ficam em casa descontando suas frustrações nas pessoas.”

Portanto, nossos medos são exagerados? Não será o Twitter apenas um monte de gente frustrada arruinando um modelo de negócios que já foi promissor? Há alguma verdade nisso. Mas duas coisas nos fazem refletir.

A primeira é que o Twitter foi o propulsor da candidatura de Trump. Mesmo hoje, às vésperas das eleições, com uma pequena equipe de mídia, Trump anuncia medidas políticas pelo Twitter, frequentemente de madrugada e às vezes em contradição com tuítes anteriores. Conforme tuitou ele: “Adoro o Twitter – é como ter seu próprio jornal – sem o prejuízo!”.

A segunda coisa é que, com 313 milhões de usuários ativos, o universo do Twitter é maior que o de todos os jornais de língua inglesa juntos. Ele quase dobrou o total de usuários ativos nos últimos quatro anos. Se isso é uma mídia moribunda, o que dizer dos jornais?

Infelizmente para de seus membros educados, o Twitter parece confuso em relação ao que quer ser. Ninguém quer adquiri-lo. Ele poderia se limpar anunciando uma política clara para desativar usuários abusivos. Ocasionalmente ele bane pessoas. Mas menos de um quinto dos usuários antissemitas identificados pela ADL foram banidos. O Twitter também poderia acabar com as “bot accounts” (contas-robô), criadas por softwares. Por enquanto, porém, optou por sofrer com a Lei de Gresham. Os maus estão expulsando os bons. Pensando bem, pode-se dizer o mesmo da democracia ocidental.

Mesmo que o Twitter desaparecesse, um novo avatar surgiria em seu lugar. “A tecnologia é um facilitador”, diz Jean Twenge, autora de “The Narcissism Epidemic” (A Epidemia do Narcisismo), que trata da ascensão de uma juventude mais egocêntrica. “O problema vem da sociedade.” Há sinais perturbadores de que os millennials mais novos — nascidos após 1995, os primeiros a cresceram com a internet — são mais propensos a praticar o ódio na internet do que os outros.

Apenas 3% dos americanos com mais de 65 anos sofrem de narcisismo clínico, contra 10% entre os que têm menos de 30 anos. É um salto extraordinário que Twenge credita, em parte, à criação moderna dada pelos pais aos filhos. “Os pais dizem o tempo todo para os filhos que eles são especiais e os alimentam com fantasias de que poderão ser tudo o que quiserem se se esforçarem”, diz. “Quando esses jovens percebem que isso não é verdade, alguns ficam furiosos.”

Pesquisas mostram ainda que quanto mais tempo passamos na internet, menos capacidade temos de simpatizar com os sentimentos das outras pessoasum clássico traço narcisista. Muita coisa do que hoje viro comportamento normal (expor sua vida a estranhos, transformar sua vida em mercadoria para parecer mais feliz do que realmente é) é algo tido como aceitável pelo que Twenge chama de “superpromotores de celebridades“. Para mulheres jovens, pode ser Kim Kardashian, estrela da reality TV que fez do exibicionismo num modelo de negócios. Para os homens brancos indignados de qualquer idade, é Trump, que jogou o politicamente correto na fogueira.

“Todos os tipos de preconceito que achávamos que estavam desaparecendo estão de repente de volta pois o candidato republicano à Presidência disse que não há nada de errado com eles”, diz Twenge. “Trump deu sinal verde para eles.”

Isso não significa que o ódio vai desaparecer se Trump pegar um sinal vermelha nesta eleição. Algumas pessoas, incluindo todas as que entrevistei para este artigo, preveem que vai crescer se Trump for derrotado, ainda que ele aceite o resultado, o que é duvidoso.

“Quando alguém é desagradável, sei que no fundo essa pessoa é infeliz”, diz uma analista crítica. “São pessoas solitárias que estão dando coices. Sempre tenho esperança de poder alcançar alguma coisa melhor dentro delas.”

Seria tentador ver nisso um presságio promissor para a nossa era. Infelizmente, ódio não deverá desaparecer. As forças offline que vêm conduzindo a candidatura Trump são reais. Algumas delas são compreensíveis — entre elas, o grande ressentimento que a América rica tem pela admiração sem limites de si mesma.

Essas características da América moderna não desaparecerão se Trump sofrer uma derrota esmagadora. Na verdade, a eleição da primeira mulher presidente poderá até mesmo aumentar o ódio. Se há uma constante nos insultos públicos, é que as mulheres são atingidas mais dura.

Para o bem ou para o mal, a tecnologia tornou mais fácil colocar velhos vinhos em novas garrafas. Muito dele é vinagre puro. Talvez o melhor que possamos fazer é cuspi-lo, dar ao mundo um sorriso e insistir em uma qualidade melhor.

2 thoughts on “Era da Virulência: Atentados Direitistas contra a Democracia

  1. Professor …. o trump ganhou… estou em choque. Sei que o odio continuaria de qualquer forma mas acho que o processo esta acelerado.😧

    1. Prezada Ana Elisa,
      anteontem, vi um vídeo de época mostrando como Hitler ganhou eleição após a hiperinflação alemã e o brutal ajuste fiscal implementado em época da Grande Depressão mundial pós 1929. Parece que a história se repete como tragédia!

      Lembremos que o nazismo e o fascismo, que provocaram a II Guerra Mundial, foram apoiados pela maioria em seus países. A verdade é que o populismo de direita — adotado por “celebridades” midiáticas, religiosos conservadores, coxinhas milionários e bilionários — está ganhando todas as eleições democráticas no ano corrente… Snif, snif…

      Curiosamente, muitos pregam contra o que representam: concentração de riqueza e desigualdade social. Falsas promessas — ser “gestor e não político” — atraem a esperança dos desesperados. É o resultado do discurso de ódio ao establishment composto por políticos profissionais. Aparentes “outsiders” ganham eleição.
      att.

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