Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o Caos

antifragil

Nassim Nicholas Taleb, depois de publicar o best-seller “A Lógica do Cisne Negro”, escreveu o livro “Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o Caos” (tradução Eduardo Rieche; 1. ed. – Rio de Janeiro: Best Business, 2015).

A aleatoriedade, a incerteza, o caos: você quer usá-los, e não fugir deles. Isso resume a atitude insubmissa deste autor diante da aleatoriedade e da incerteza. Queremos sobreviver à incerteza e, além disso, ter a última palavra. O objetivo é saber domesticar, até mesmo dominar e conquistar o invisível, o opaco e o inexplicável.

Como?

Algumas coisas se beneficiam dos impactos; elas prosperam e crescem quando são expostas à volatilidade, ao acaso, à desordem e aos agentes estressores, e apreciam a aventura, o risco e a incerteza. No entanto, apesar da onipresença do fenômeno, não existe uma palavra para designar exatamente o oposto de frágil. Taleb o chama de antifrágil.

A antifragilidade não se resume à resiliência ou à robustez. O resiliente resiste a impactos e permanece o mesmo; o antifrágil fica melhor. Essa propriedade está por trás de tudo o que vem mudando com o tempo: a evolução, a cultura, as ideias, as revoluções, os sistemas políticos, a inovação tecnológica, o sucesso cultural e econômico, a sobrevivência das empresas, as boas receitas, o surgimento de cidades e culturas, os sistemas jurídicos, as florestas equatoriais, a resistência bacteriana… até mesmo a nossa própria existência como espécie neste planeta.

E a antifragilidade determina o limite entre:

  1. o que é vivo e orgânico (ou complexo), como o corpo humano, e
  2. o que é inerte, digamos, um objeto físico qualquer.

O antifrágil aprecia a aleatoriedade e a incerteza, o que também significa — acima de tudo — apreciar os erros, ou pelo menos certo tipo de erro. A antifragilidade tem uma propriedade singular de nos capacitar a lidar com o desconhecido, de fazer as coisas sem compreendê-las — e fazê-las bem.

Somos muito melhores agindo do que pensando, graças à antifragilidade. Taleb preferiria ser ignorante e antifrágil a extremamente inteligente e frágil, em qualquer ocasião.

É fácil perceber coisas em torno de nós que apreciam um pouco de estressores e de volatilidade: sistemas econômicos, seu corpo, sua nutrição (diabetes e muitas doenças modernas similares parecem estar associados à falta de aleatoriedade na alimentação e à ausência de um agente estressor, a fome ocasional), sua psique. Há até mesmo contratos financeiros que são antifrágeis — explicitamente projetados para se beneficiar da volatilidade do mercado.

A antifragilidade nos faz entender melhor a fragilidade. Da mesma forma que não podemos melhorar a saúde sem reduzir a doença, ou aumentar a riqueza sem, primeiro, diminuir os prejuízos, antifragilidade e fragilidade são graus em um espectro.

Ao apreender os mecanismos da antifragilidade, podemos construir um guia amplo e sistemático da tomada de decisões não preditiva, dominado pela incerteza e aplicável nos negócios, na política, na medicina e na vida em geral:

  • onde quer que reine o desconhecido,
  • em qualquer situação em que haja aleatoriedade, imprevisibilidade, opacidade ou a compreensão incompleta das coisas.

É muito mais fácil descobrir se algo é frágil do que prever a ocorrência de um evento capaz de prejudicá-lo. A fragilidade pode ser medida; o risco, não (à exceção de cassinos ou da mente de pessoas que se dizem “especialistas em risco”).

Isso oferece uma solução para o que Taleb chama de o problema do Cisne Negroa impossibilidade de calcular os riscos de importantes e raros acontecimentos e prever sua ocorrência.

A sensibilidade aos danos causados pela volatilidade é remediável, mais ainda do que a predição do evento que poderia causar o dano. Portanto, propomos que nossas abordagens atuais para predições, prognósticos e gerenciamento de risco sejam mantidas em sua mente.

Em cada domínio ou área de aplicação, propomos regras para conduzir o frágil na direção do antifrágil, reduzindo a fragilidade ou aproveitando a antifragilidade. E quase sempre conseguiremos detectar a antifragilidade (e a fragilidade) usando um teste simples de assimetria: tudo o que surgir a partir de eventos aleatórios (ou de certos impactos) e que apresentar mais vantagens do que desvantagens será antifrágil; o inverso será frágil.

Basicamente, se a antifragilidade é uma propriedade de todos aqueles sistemas naturais (e complexos) que sobreviveram, privar esses sistemas de volatilidade, aleatoriedade e agentes estressores os prejudicará. Eles enfraquecerão, morrerão ou serão destruídos.

Viemos fragilizando a economia, nossa saúde, a vida política, a educação, quase tudo, ao suprimir a aleatoriedade e a volatilidade. Assim como passar um mês na cama causa atrofia muscular, os sistemas complexos se enfraquecem e até mesmo morrem quando são privados de agentes estressores.

Grande parte do nosso mundo moderno e estruturado tem nos prejudicado com políticas de cima para baixo e mecanismos (apelidados neste livro de “ilusões soviéticas de Harvard”) que fazem precisamente isto: ofendem a antifragilidade dos sistemas.

Essa é a tragédia da modernidade: assim como os pais neuroticamente superprotetores, aqueles que estão tentando ajudar são, muitas vezes, os que mais nos prejudicam.

Se quase tudo aquilo que vem de cima para baixo fragiliza e bloqueia a antifragilidade e o crescimento, tudo que vai de baixo para cima prospera sob a quantidade certa de tensão e desordem. O processo de descoberta (ou de inovação, ou de progresso tecnológico) em si depende de ajustes antifrágeis e da assunção agressiva de riscos, mais do que da educação formal.

Taleb nos leva ao que mais fragiliza a sociedade e à maior geradora de crises, a ausência da “pele em jogo”. Alguns se tornam antifrágeis à custa dos outros, obtendo vantagens (ou ganhos) da volatilidade, das variações e da desordem, e expondo as outras pessoas aos desvantajosos riscos das perdas ou dos danos.

E tal antifragilidade-à-custa-da-fragilidade-dos-outros encontra-se oculta — devido à cegueira em relação à antifragilidade por parte dos “círculos intelectuais soviéticos de Harvard”, essa assimetria raramente é identificada, e (até agora) nunca foi ensinada.

[FNC: Taleb aqui demonstra bem sua aversão à casta dos sábios da academia, que considera “esquerdista”, desde que se situa melhor entre a casta dos comerciantes, pois foi durante muitos anos operador do mercado financeiro].

Além disso, conforme descobrimos durante a crise financeira iniciada em 2008, esses surtos de riscos-aos-outros ficam facilmente escondidos, devido à crescente complexidade das instituições modernas e das questões políticas. [Daron Acemoglu e James Robinson as denominam de instituições extrativistas: extraem renda de uma maioria em favor da minoria da casta dominante.]

Enquanto, no passado, as pessoas de certo nível ou status eram aquelas — e somente aquelas — que assumiam riscos, que sofriam as desvantagens por suas ações, e os heróis eram aqueles que o faziam para o bem dos outros, hoje está ocorrendo exatamente o contrário.

Estamos testemunhando o surgimento de uma nova classe de heróis ao reverso, ou seja, os burocratas, os banqueiros, os membros da Associação Internacional de Pessoas que Citam Nomes de Indivíduos Importantes para Impressionar os Ouvintes que Frequentam Davos e os acadêmicos com muito poder e nenhuma desvantagem real e/ou responsabilidade. Eles negociam o sistema, enquanto os cidadãos pagam o preço.

Em nenhum momento da história tantas pessoas que não assumem riscos, ou seja, aquelas sem qualquer exposição pessoal, exerceram tanto controle.

A principal regra ética é a seguinte: não terás a antifragilidade à custa da fragilidade dos outros.

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