O Antídoto para o Cisne Negro

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Nassim Nicholas Taleb, no livro “Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o Caos” (RJ: Best Business, 2015), afirma: “quero viver feliz em um mundo que não compreendo”.

Cisnes Negros (com letra maiúscula) são acontecimentos imprevisíveis e irregulares em larga escala, com grandes consequências — imprevistas por determinado observador, e esse não preditor é, normalmente, chamado de “peru”, quando é, ao mesmo tempo, surpreendido e prejudicado por tais eventos.

Taleb sustentou o argumento de que a maior parte da história tem origem em acontecimentos do tipo Cisne Negro, enquanto nos preocupamos em afinar nossa compreensão do trivial, e, portanto, desenvolvemos modelos, teorias ou representações que não conseguem acompanhá-los ou mensurar a possibilidade desses impactos.

Os Cisnes Negros capturam nosso cérebro, fazendo-nos sentir “como se” ou “quase” os tivéssemos previsto, pois são retrospectivamente explicáveis. Não percebemos seu papel em nossa vida por causa desta ilusão de previsibilidade.

A vida é muito mais labiríntica do que lembramos em nossa memória — nossa mente está ocupada em transformar a história em algo suave e linear, o que nos faz subestimar a aleatoriedade. No entanto, quando a identificamos, temos medo e reagimos de forma exagerada.

Por causa desse medo [de arrependimento] e dessa necessidade de ordem, alguns sistemas humanos, ao alterarem a lógica invisível ou não tão visível das coisas, tendem a ser expostos a:

  • danos causados por Cisnes Negros e a
  • quase nunca se beneficiarem.

Chega-se à pseudo-ordem quando se busca a ordem; só se consegue alguma ordem e controle quando se aceita a aleatoriedade.

Os sistemas complexos estão cheios de interdependências — difíceis de se detectar — e de respostas não lineares. “Não linear” significa que, quando se dobra a dose de, digamos, um medicamento, ou quando se dobra o número de funcionários em uma fábrica, não se obtém o dobro do efeito inicial, mas sim muito mais ou muito menos.

Dois fins de semana no Rio de Janeiro não são duas vezes tão agradáveis quanto apenas um — falo por experiência própria. Quando a resposta é colocada em um gráfico, não se apresenta como uma linha reta (“linear”), e, sim, como uma curva. Neste cenário, associações causais simples são equivocadas; é difícil perceber como as coisas funcionam observando as partes isoladas.

[FNC: E assim é treinada a maioria dos economistas: buscando extrapolar da microeconomia os fenômenos macroeconômicos, ou seja, recaindo no sofisma da composição: macro não é mera agregação dos fenômenos microeconômicos!]

Sistemas complexos criados pelo homem tendem a desenvolver cascatas e cadeias descontroladas de reações que fazem diminuir e, inclusive, eliminam a previsibilidade, além de gerarem um superdimensionamento dos acontecimentos. Assim, o mundo moderno pode estar se aprimorando em conhecimento tecnológico, mas, paradoxalmente, tem tornado as coisas muito mais imprevisíveis.

Agora, por razões relacionadas ao aumento do que é artificial, ao afastamento de modelos ancestrais e naturais e à perda de robustez devido a complicações na concepção de tudo, o papel dos Cisnes Negros está crescendo. Além disso, somos vítimas de uma nova doença, chamada, neste livro, de neomania, que nos faz construir sistemas vulneráveis ao Cisne Negro — o “progresso”.

Um aspecto desagradável do problema do Cisne Negro — na verdade, o ponto principal e, em grande parte, desconsiderado — é que as probabilidades de acontecimentos raros, simplesmente, não são computáveis. Sabemos muito menos sobre as inundações centenárias do que sobre as de cinco anos atrás — o erro do modelo se amplia quando se trata de pequenas probabilidades.

Quanto mais raro o acontecimento, menos remediável, e menor nosso conhecimento sobre a frequência de sua ocorrência — ainda assim, quanto mais raro o acontecimento, mais confiantes têm se tornado os “cientistas” envolvidos na previsão, na modelagem e no uso do PowerPoint em conferências, com equações desenhadas em fundo colorido. :)

É de grande valia que a Mãe Natureza — graças à sua antifragilidade — seja a maior especialista em acontecimentos raros, e a melhor administradora dos Cisnes Negros; em seus bilhões de anos, ela conseguiu chegar até aqui sem muitas instruções de comando e controle de algum diretor formado em alguma universidade da Ivy League e nomeado por um comitê de seleção. :)

A antifragilidade não é apenas o antídoto para o Cisne Negro; compreendê-la nos torna menos temerosos intelectualmente em aceitar o papel desses acontecimentos como necessários para a história, a tecnologia, o conhecimento e tudo mais.

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