Guia de Escrita – Como Conceber um Texto com Clareza, Precisão e Elegância

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Luiz Antônio Giron (Valor – Eu&Fim-de-Semana, 04/11/16) resenhou o último livro de Steven Pinker, linguista e psicólogo canadense naturalizado americano, produziu o “Guia de Escrita – Como Conceber um Texto com Clareza, Precisão e Elegância” (editora Contexto, tradução de Rodolfo Ilari; 256 págs., R$ 49,90).

capa-guia-de-escritaManuais de estilo estão por toda parte. Eles são tanto fontes de consulta como de equívocos. Boa parte das lições desse tipo de guia para melhorar a qualidade da escrita já se revelou inútil, como usar frases e parágrafos curtos e cortar palavras “desnecessárias” – porque o que importa realmente é escrever com fluência e lógica. Os manuais vêm sendo publicados desde meados do século XIX. Como cada vez mais se faz necessário escrever com nitidez e graça, os escritores, acadêmicos e outros profissionais precisam de orientação para se livrar do “academiquês”, do “corporativês” e da literatice.

Foi pensando em quem já escreve que Pinker disse: “Confesso que gosto de ler manuais de estilo. Mas, apesar de divertidos, eles contêm falhas. Por isso, percebi a necessidade de um guia para o escritor do século XXI, baseado nas últimas aquisições da linguística da psicologia cognitiva.”

Não adianta, segundo Pinker, tentar impor regras às pessoas que escrevem hoje como no passado, pois elas costumam ser céticas e questionar a autoridade. Ele diz que a humanidade dispõe de conhecimento suficiente para distinguir procedimentos que favorecem clareza e lógica de mitos construídos por velhos gramáticos.

Steven Pinker, de 62 anos, é professor na Universidade Harvard e um dos maiores pesquisadores em ciência cognitiva da atualidade. Ele é autor de “Os Anjos Bons da Nossa Natureza” (2011), que provocou polêmica ao afirmar que os seres humanos se tornaram crescentemente pacíficos e acomodados.

Em seu lançamento original no exterior, em 2014, o “Guia de Escrita” desagradou a gramáticos e professores que fazem carreira na mídia distribuindo regras de bom escrever. Além de não perdoar excesso de monitoramento sobre o comportamento verbal das pessoas, Pinker:

  1. remodelou a noção de expressão escrita e
  2. refutou ideias preconcebidas sobre a decadência da escrita por causa da tecnologia.

Segundo Pinker, escrever não implica a observância de dogmas infalíveis. “A língua não é um protocolo imposto por uma autoridade, mas um sistema que reúne as contribuições de milhões de escritores e falantes que submetem o idioma continuamente às suas necessidades e que, fatalmente, envelhecem, morrem e são substituídos pelos filhos, que modificam a língua por sua vez.”

Por isso, ele rejeita a ideia de que a internet está colaborando para que os jovens destruam a língua e, com ela, a própria civilização. Pinker cita o arqueólogo inglês Richard Lloyd-Jones (1873-1963), que decifrou nos anos 70 tabuletas sumérias datadas de cerca de 3,5 mil anos a.C., em que constavam queixas sobre a deterioração da habilidade de escrita dos jovens.

As mídias faladas cedem lugar às escritas, diz Pinker. “Surfando um pouco, vê-se que muitos usuários da internet valorizam a linguagem clara, gramatical, em boa ortografia e pontuação, não só nos livros impressos e nas mídias tradicionais, mas também nos ‘zines’ eletrônicos, nos blogs, nos verbetes da Wikipedia, nas avaliações de consumidores e mesmo em boa parte dos e-mails.”

[FNC: eu! eu! eu!]🙂

“O especialista fica tão imbuído de seu conhecimento que acaba criando textos ininteligíveis”, diz Steven Pinker, autor de “Guia de Escrita

Ele menciona pesquisas que demonstram que estudantes universitários estão escrevendo mais do que seus colegas de gerações anteriores e que não fazem um número de erros maior por página. “Os membros da geração da internet, como todos os usuários da língua, juntam a formulação de suas frases ao contexto e à audiência e têm uma boa noção do que é adequado na escrita formal“, escreve Pinker.

Seu argumento fundamental é que, ao escrever, o indivíduo deve se despir de preconceitos e excessos e se fixar em um aspecto apenas: o código escrito serve para informar e comentar, mas, principalmente, mostrar as coisas do mundo com a maior clareza possível.

Ele acredita na prática de uma nova prosa clássica nascida da transparência, construída:

  1. na lógica da linguagem,
  2. no conhecimento da sintaxe e
  3. na busca constante pela coerência.

Seu guia esmiúça a defesa do classicismo em cinco capítulos:

  1. “Escrever Bem”,
  2. “Uma Janela para o Mundo”,
  3. “A Maldição do Conhecimento”,
  4. “A Rede, a Árvore e a Sequência” e
  5. “Arcos de Coerência”.

Nos dois primeiros, sugere uma “engenharia reversa” dos bons exemplos, para chegar à elaboração de uma Teoria da Escrita Pura. No terceiro capítulo, mostra que a especialização causa mais problemas que soluções ao exercício da escrita. “O especialista fica tão imbuído de seu conhecimento que acaba criando textos ininteligíveis“, diz. “Ele deveria buscar a simplicidade de suas primeiras experiências na área.”

[FNC: por isso, a maior parte da literatura acadêmica econômica é ilegível e/ou ininteligível…]

Pinker condena os gramáticos profissionais, mas é um apreciador da gramática como sistema linguístico. Para ele, trata-se de um dispositivo extraordinário. O domínio dela, em especial da sintaxe, ajuda quem escreve a potencializar o estilo. A gramática não passa de um aplicativo básico de compartilhamento. “Ela deve ser considerada uma das mais extraordinárias adaptações que ocorreram no mundo dos seres vivos: a solução dada por nossa espécie ao problema de transferir pensamentos complicados de uma cabeça para outra.”

A memória humana, segundo Pinker, funciona como uma rede de nós, em que interrelações se expandem ao infinito e sistematizam o conhecimento. Para definir o que dizer, o escritor precisa conhecer o que há por trás de uma sentença. Nela, “uma sequência linear de frases transmite uma rede de ideias cheias de nós“.

[FNC: nesse raciocínio, Pinker se utiliza da Ciência da Complexidade.]

Nesse sentido, a sintaxe é um aplicativo fundamental, pois usa uma árvore de frases para traduzir uma rede de pensamentos numa sequência de palavras. Ideias complexas e simultâneas precisam ser coordenadas em uma sequência linear de palavras e frases, da esquerda para a direita, seguindo uma hierarquia de sentidos.

Dessa forma, o estilo continua sendo importante por três razões:

  1. garante que o escritores conseguirão transmitir mensagens,
  2. dá confiança em quem escreve e
  3. traz beleza ao mundo.

“Para um leitor culto, uma sentença concisa, uma metáfora surpreendente, um aparte espirituoso, uma formulação elegante estão entre os maiores prazeres da vida“, afirma Pinker.

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