Fragilidade Perdida com o Tempo

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A ideia de que a fragilidade é perdida com o tempo faz com que este livro Nassim Nicholas Taleb, “Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o Caos” (RJ: Best Business, 2015), seja seu trabalho central. Teve apenas uma ideia mestra, cada vez levada a um passo seguinte, sendo que o último passo — este livro — se assemelhando mais a um grande salto.

Está reconectado ao seu “eu prático”, à sua alma de profissional, pois essa é a fusão de toda a sua história como profissional e “especialista em volatilidade”, combinada aos seus interesses intelectuais e filosóficos em aleatoriedade e incerteza, que, antes, seguiram caminhos distintos.

Seus escritos não são ensaios autônomos sobre temas específicos, com começos, fins e datas de vencimento; ao contrário, são capítulos não sobrepostos a partir daquela ideia central, um corpus principal focado na incerteza, na aleatoriedade, na probabilidade, na desordem e em o que fazer em um mundo que não compreendemos, um mundo com elementos e propriedades invisíveis, o aleatório e o complexo; ou seja, a tomada de decisão sob a opacidade.

O corpus é chamado de Incerto e é constituído (até agora) por uma trilogia, acrescida de adendos filosóficos e técnicos. A regra é que a distância entre um capítulo aleatório de um livro, digamos, “Antifrágil”, e um capítulo aleatório de outro, digamos, “Iludido pelo Acaso”, deve ser como a distância entre os capítulos de um grande compêndio. A regra possibilita que o corpus transponha domínios (deslocando-se entre segmentos de Ciência, Filosofia, Negócios, Psicologia, Literatura e Autobiografia), sem cair na promiscuidade.

[FNC: tal como se propõe o meu Curso no Doutoramento: Economia Interdisciplinar.]

Assim, a relação deste livro com “A Lógica do Cisne Negro” seria a seguinte: apesar da cronologia (e do fato de que este livro leva a ideia do Cisne Negro à sua conclusão natural e prescritiva), Antifrágil seria o volume principal, e A Lógica do Cisne Negro, sua cópia de qualidade inferior e teórica, talvez até mesmo seu menor apêndice. Por quê?

Porque A Lógica do Cisne Negro (e seu antecessor, Iludido pelo Acaso) foi escrito para nos convencer de uma situação terrível, e ambos foram arduamente elaborados para tal fim; o presente livro parte do pressuposto de que não é preciso convencer ninguém de que:

(a) os Cisnes Negros dominam a sociedade e a história (e as pessoas, por causa da racionalização ex post, se julgam capazes de compreendê-los);

(b) como consequência, não sabemos bem o que está acontecendo, principalmente, sob não linearidades graves; de modo que podemos chegar aos assuntos práticos imediatamente.

Para ser condizente com o Éthos do profissional, a regra neste livro – “Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o Caos” – é a seguinte: Taleb prova do seu próprio veneno.

Só tem escrito, em cada linha que redigiu na sua vida profissional, sobre coisas que fez, e os riscos que tem recomendado aos outros para correr ou evitar foram aqueles que ele mesmo correu ou evitou. Será o primeiro a ser prejudicado se estiver errado.

Quando Taleb alertou sobre a fragilidade do sistema bancário em A Lógica do Cisne Negro, estava apostando em seu colapso (especialmente quando sua mensagem não foi levada em consideração). Caso contrário, não teria considerado ético escrever sobre o assunto. Essa restrição pessoal se aplica a todos os domínios, incluindo a Medicina, a inovação tecnológica e as coisas simples da vida.

Isso não significa que experiências pessoais de um indivíduo possam constituir uma amostra suficiente para se chegar a uma conclusão a respeito de uma ideia; significa apenas que a experiência pessoal de um indivíduo confere um selo de autenticidade e de sinceridade às opiniões.

A experiência é desprovida da escolha seletiva que encontramos nos estudos, especialmente aqueles chamados de “observacionais”, nos quais o pesquisador encontra padrões do passado, e, graças à gigantesca quantidade de dados, pode cair na armadilha de uma narrativa inventada.

Além disso, ao escrever, Taleb sente-se corrupto e antiético se tiver de procurar um assunto em uma biblioteca como parte do próprio ato de escrever. Isso age como um filtro — e é seu o único filtro. Se o assunto não for interessante o suficiente para que ele o procure de forma independente, por sua própria curiosidade ou propósito, e ele não tiver feito isso antes, então, ele jamais deveria estar escrevendo a esse respeito, e ponto final.

Isso não significa que as bibliotecas (físicas e virtuais) não sejam aceitáveis; significa que não devem ser a fonte de nenhuma ideia. Os estudantes pagam para escrever artigos sobre temas para os quais têm de derivar conhecimento de uma biblioteca como um exercício de autoaprimoramento; um profissional que é remunerado para escrever e é levado a sério pelos outros deve usar um filtro mais potente. Apenas ideias destiladas, aquelas assentadas em nós há longo tempo, são plausíveis — e aquelas que nascem da realidade.

É hora de reviver a pouco conhecida noção filosófica de compromisso doxástico, uma classe de crenças que vai além do discurso, e com a qual Taleb está comprometido o suficiente a ponto de assumir riscos pessoais.

3 thoughts on “Fragilidade Perdida com o Tempo

  1. Prezado Fernando,

    realmente Taleb é brilhante em suas definições, depois de ler alguns trechos do livro comecei a perceber que as ideias, são empacotamentos estanques (fixos), nos mostrando apenas caminhos, entretanto, não são vetores; não podemos simplesmente segui-las como se fossem a seta do GPS. Podemos aproveitar o produto das ideias, mas não elas isoladamente, caso tentarmos fazer isso, acabamos caindo no dogmatismo.

    A abordagem que Taleb está usando parece ser bayesiana (Inferência bayesiana deriva a probabilidade posterior como consequência de dois antecedentes, uma probabilidade anterior e uma “função de verossimilhança” derivado de um modelo de probabilidade para os dados a serem observados), ou pelo menos, tem esse formato. Ainda não li o suficiente para formar uma opinião mais elaborada a respeito. Mas, pude notar um caminho retroalimentando nossas ideias conforme vamos adentrando os assuntos tratados. Para imaginar isso pense você andando ou correndo dentro de um aro circular espelhado, um tipo de figura geométrica que gira na medida que os passos são dados e ainda aumenta de diâmetro (quando há nova informação adicionada) conforme a trajetória.

    Imagine que estamos dentro de uma nave espaço/temporal na borda do nosso universo cujo espelho interno somos nós e externo é o nada – consegue imaginar? Na minha opinião a única possibilidade de pular para outro universo – atravessando a singularidade – é quando a borda exterior estiver espelhando o outro universo separado pelo nada. É por isso que é necessário conhecer os espaços de Hilbert, caso contrário nossas redes neurais não conseguem seguir em frente e trazer novos insights (vislumbres). Neste caso, precisamos fazer uma cirurgia topológica que consegue pular o nada – atravessar a singularidade – e adentrar outros universos. Abs.

    1. Prezado Reinaldo,
      cruz-credo! Não consigo imaginar! Está além da minha pobre imaginação!

      Apesar de ser um autor muito prolixo, não se deve jogá-lo pró lixo…

      Tem duas ideias básicas que merecem reflexão:
      1. a imprevisibilidade do aparecimento do “cisne negro” com que temos de conviver, pois sabemos que ele aparecerá — tal como a morte…
      2. a diminuição da nossa fragilidade quando aprendemos enfrentar as agruras da vida: aprendemos mais com as derrotas, que são naturais e propiciam lições, do que com as eventuais vitórias que não levam à nenhuma reavaliação de nosso desempenho.
      att.

      1. Prezado Fernando, o assunto é importante, aprendemos mais com as derrotas como efeito da imprevisibilidade; mas, a tentativa de explicação por meio de um viés arbitrário causa essa confusão de significado. A metáfora usada pelo autor desperta o nosso entendimento. Abs.

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