Regras Éticas

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A modernidade substituiu a ética pelo juridiquês, e, com um bom advogado, a lei pode ser burlada.

Portanto, Nassim Nicholas Taleb, no livro “Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o Caos” (RJ: Best Business, 2015), demonstra a transferência de fragilidade, ou melhor, o roubo de antifragilidade, por pessoas que estão “arbitrando” o sistema. Essas pessoas serão chamadas pelo nome. Poetas e pintores são livres, liberi poetae et pictores, e há sérios imperativos morais que surgem com essa liberdade.

Primeira regra ética: Se você testemunhar uma fraude e não denunciá-la, você é uma fraude.

Assim como ser agradável ao arrogante não é melhor do que ser arrogante ao agradável, ser leniente com qualquer pessoa que cometa uma ação nefasta é compactuar com ela.

[FNC: Pessoa Física e não Pessoa Jurídica, pois os dirigentes devem assumir suas responsabilidades individuais, porém os Acordos de Leniência devem salvar o emprego de milhares de indivíduos que não foram responsáveis por corrupção e/ou fraudes.]

Além disso, reservadamente, muitos escritores e estudiosos, digamos, depois de meia garrafa de vinho, se expressam de modo diferente do que fazem ao escrever. Sua escrita é comprovadamente falsa. E muitos dos problemas da sociedade têm origem no argumento de que “outras pessoas estão fazendo isso”. Logo, se, reservadamente, Taleb chamar alguém de fragilista perigoso, contestável eticamente depois do terceiro copo de vinho libanês (branco), será obrigado a fazê-lo no seu livro.🙂

Chamar as pessoas e as instituições de fraudulentas por escrito quando elas (ainda) não foram chamadas assim pelos outros tem um custo, mas ele é muito pequeno para ser um impedimento. Depois de ler as provas tipográficas de A Lógica do Cisne Negro, um livro dedicado a ele, o cientista matemático Benoît Mandelbrot ligou ao Taleb e disse calmamente: “Em que língua devo dizer ‘boa sorte’ para você?”

No fim das contas, Taleb não precisou de sorte; ele estava antifrágil para todo tipo de ataque: quanto mais ataques recebia da Delegação Central de Fragilistas, mais sua mensagem se propagava, uma vez que levava as pessoas a examinarem seus argumentos. Agora, está com vergonha de não ter ido mais longe ao dar nome aos bois.

Comprometer-se é compactuar. O único dito moderno que sigo é um de George Santayana: “Um homem é moralmente livre quando […] julga o mundo, e julga outros homens, com uma sinceridade intransigente. Isso não é apenas um objetivo, mas uma obrigação”.

Segunda regra ética: Taleb se diz obrigado a se submeter ao processo científico, simplesmente porque exige isso dos outros, mas não mais do que isso.

Quando lê afirmações empíricas na Medicina ou em outras Ciências, gosta que essas reivindicações passem:

  1. pela revisão por pares,
  2. pela verificação factual dos modelos empregados,
  3. pela avaliação do rigor da abordagem.

Por outro lado, as instruções lógicas, ou aquelas apoiadas pelo raciocínio matemático, não necessitam de tal mecanismo: elas podem e devem autossustentar-se.

Então, Taleb elabora notas técnicas para esses livros de lojas especializadas e acadêmicas, e nada mais do que isso (e restringe-os a declarações que demandem provas ou argumentos técnicos mais elaborados). No entanto, por uma questão de autenticidade, e para evitar o carreirismo (a degradação do conhecimento por transformá-lo em um esporte competitivo), proíbe a si mesmo de publicar qualquer coisa fora destas notas de rodapé.

Depois de mais de vinte anos trabalhando como operador transacional e empresário no que chamou de “profissão estranha”, Taleb tentou o que se chama de carreira acadêmica. E tem algo para contar — na verdade, esse era o condutor por trás dessa ideia de antifragilidade na vida e a dicotomia entre o natural e a alienação do antinatural.

O comércio é divertido, emocionante, alegre e natural; o mundo acadêmico, como está atualmente profissionalizado, não é nada disso. E, para aqueles que pensam que a academia é mais “silenciosa” e representa uma transição emocionalmente relaxante após a vida volátil dos negócios e da assunção de riscos, uma surpresa: quando em ação, novos problemas e sustos surgem a cada dia para deslocar e eliminar as dores de cabeça, os ressentimentos e os conflitos do dia anterior.

Um prego desloca outro prego, com espantosa variedade. Porém, os acadêmicos (especialmente nas Ciências Sociais) parecem desconfiar uns dos outros; eles vivem de pequenas obsessões, invejas e ódios mortais, com pequenas indelicadezas se convertendo em rancores, fossilizados ao longo do tempo na solidão da transação com a tela do computador e a imutabilidade de seu ambiente. Sem falar de um nível de inveja que praticamente Taleb nunca presenciou no mundo dos negócios…

Sua experiência é que:

  • o dinheiro e as transações purificam as relações;
  • ideias e assuntos abstratos como “reconhecimento” e “crédito” as deformam, criando uma atmosfera de rivalidade perpétua.

Passou a considerar as pessoas ávidas por credenciais repugnantes, repulsivas e não confiáveis.

O comércio e os negócios (porém, não os mercados em grande escala e as empresas) são atividades e lugares que exigem o melhor das pessoas, fazendo com que a maioria seja misericordiosa, honesta, carinhosa, confiável e com mente aberta. Como membro da minoria cristã do Oriente Médio, Taleb pode atestar que o comércio, principalmente o pequeno comércio, é a porta para a tolerância — a única porta, em sua opinião, para qualquer forma de tolerância. Ele supera as racionalizações e as palestras. Assim como no ajuste antifrágil, os erros são pequenos e rapidamente esquecidos.

Taleb quer ser feliz sendo humano e estar em um ambiente em que as outras pessoas estejam reconciliadas com seu destino — e nunca, até seu encontro com a academia, havia considerado que este ambiente era uma certa forma de comércio (combinado com uma solitária bolsa de estudos). :)

ws-por-wb

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