“A TRÍADE”, ou Um Mapa do Mundo e das Coisas, Ao Longo das Três Propriedades

ovos

O objetivo de  Nassim Nicholas Taleb, no livro “Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o Caos” (RJ: Best Business, 2015), é conectar, na mente do leitor, em uma única sequência, elementos aparentemente distantes, como Cato (o Velho), Nietzsche, Tales de Mileto, a potência do sistema de cidades-estado, a sustentabilidade dos artesãos, o processo de criação, a unilateralidade da opacidade, os instrumentos financeiros derivativos, a resistência aos antibióticos, os sistemas de baixo para cima, o convite de Sócrates para a super-racionalização, como ensinar os pássaros, o amor obsessivo, a evolução darwiniana, o conceito matemático da desigualdade de Jensen, a opcionalidade e a teoria das opções, a ideia de heurísticas ancestrais, as obras de Joseph de Maistre e Edmund Burke, o antirracionalismo de Wittgenstein, as teorias fraudulentas da segurança econômica, ajustes e bricolagem, o terrorismo agravado pela morte de seus membros, uma apologia às sociedades artesanais, as falhas éticas da classe média, os treinos (e a nutrição) ao estilo paleolítico, a ideia de iatrogenia médica, a gloriosa noção do magnificente (megalopsychon), minha obsessão pela ideia de convexidade (e minha fobia da concavidade), a crise bancária e econômica do fim dos anos 2000, a incompreensão da redundância, a diferença entre turista e flanador etc. Tudo em uma única — e simples — sequência.

Como? Podemos começar observando como as coisas — praticamente qualquer coisa que importa — podem ser mapeadas ou classificadas em três categorias, que Taleb chama de A Tríade, pois as coisas vêm em trios.

No Prólogo do livro, lemos que a ideia é focar na fragilidade, em vez de prever e calcular probabilidades futuras, e que fragilidade e antifragilidade vêm em um espectro de graus variados. A tarefa, aqui-e-agora, é construir um mapa de exposições (isso é o que se chama de “solução do mundo real”, embora apenas acadêmicos e outros operadores que-não-pertencem-ao-mundo-real usem a expressão “solução do mundo real”, em vez de simplesmente “solução”).

A Tríade classifica os itens em três colunas, cada qual sob as seguintes designações:

FRÁGIL      ROBUSTO     ANTIFRÁGIL

Lembre-se de que o frágil deseja a tranquilidade, o antifrágil cresce com a desordem, e o robusto não se importa muito.

O leitor é convidado a navegar pela Tríade para perceber como as ideias do livro se aplicam a todos os domínios. Simplesmente, em determinado assunto, ao se discutir um item ou uma política, a tarefa é:

  • descobrir em que categoria da Tríade se deveria alocá-lo e
  • o que se pode fazer para melhorar sua condição.

Por exemplo: o estado-nação centralizado está na extrema esquerda da Tríade, estritamente na categoria frágil, e um sistema descentralizado de cidades-estado no canto direito, na categoria antifrágil. Ao apreender as características deste último item, podemos nos afastar da fragilidade indesejada do grande estado. Ou prestar atenção nos erros.

À esquerda, na categoria frágil, os erros são raros e grandes quando ocorrem, e, portanto, irreversíveis; à direita, na categoria antifrágil os erros são pequenos e benignos, e até mesmo reversíveis e rapidamente superáveis. Eles também são ricos em informações. Assim, determinado sistema de ajustes e de tentativa e erro teria os atributos da antifragilidade.

Se você pretende tornar-se antifrágil, coloque-se na situação de “apreciar os erros” — à direita de “odiar os erros “—, fazendo-os numerosos e pequenos no sentido do dano potencial.

Nassim Nicholas Taleb chama esse processo e essa abordagem de Estratégia Barbell: “é uma estratégia dupla, uma combinação de dois extremos, um lado seguro e um lado especulativo, considerada mais robusta do que uma estratégia “monomodal”; muitas vezes, uma condição necessária para a antifragilidade. Em sistemas biológicos, por exemplo, é o equivalente a casar-se com um contador e ter uma aventura ocasional com uma estrela do rock; para um escritor, conseguir um cargo estável que não exige quase trabalho algum e escrever sem as pressões do mercado durante seu tempo livre.”

Vejamos a categoria da saúde. O acréscimo está à esquerda; a remoção, à direita. Remover a medicação ou algum outro estressor antinatural — digamos, glúten, frutose, tranquilizantes, esmalte de unhas ou alguma substância similar — por tentativa e erro é mais robusto do que acrescentar medicamentos, com efeitos colaterais desconhecidos, desconhecidos apesar das afirmações sobre “evidências”, e evidências de movimento harmônico simples.

Como o leitor pode perceber, o mapa se estende desinibidamente por todos os domínios e atividades humanas, tais como Cultura, Saúde, Biologia, Sistemas Políticos, Tecnologia, Organização Urbana, Vida Socioeconômica e outros assuntos de mais ou menos interesse direto para o leitor. Taleb conseguiu, ainda, fundir a tomada de decisão e o flanador no mesmo contexto. Assim, um método simples nos levaria tanto para a Filosofia Política, baseada no risco, quanto para a tomada de decisão médica.

Note que frágil e antifrágil, aqui, são termos relativos, não exatamente propriedades absolutas: um item à direita da Tríade é mais antifrágil do que outro à esquerda.

Os artesãos, por exemplo, são mais antifrágeis do que as pequenas empresas, mas uma estrela do rock será mais antifrágil do que qualquer artesão. As dívidas sempre o colocarão à esquerda, pois fragilizam os sistemas econômicos.

E as coisas são antifrágeis até certo nível de estresse. Seu corpo se beneficia de determinada quantidade de maus-tratos, mas apenas até certo ponto — ele não se beneficiaria muito se fosse atirado do alto da Torre de Babel.

O robusto de ouro: o robusto na coluna do meio não é equivalente ao “equilíbrio de ouro” de Aristóteles (muitas vezes erroneamente nomeado “meio-termo de ouro”), da mesma forma que, por exemplo, a generosidade é o ponto intermediário entre a libertinagem e a mesquinhez — ela pode ser, mas não é necessariamente assim.

A antifragilidade é desejável em geral, mas não sempre, uma vez que existem casos em que a antifragilidade será custosa, extremamente custosa. Além disso, é difícil considerar a robustez sempre desejável — para citar Nietzsche, pode-se morrer por ser imortal…

Finalmente, a essa altura, o leitor, ao se debater com uma nova palavra, pode exigir muito dela. Se a designação antifrágil é muito vaga e limitada a fontes específicas de danos ou volatilidade, e até mesmo a um nível de exposição, acontece exatamente o mesmo com a designação frágil. A antifragilidade é relativa a uma dada situação.

Um boxeador pode ser robusto, vigoroso, quando se trata de sua condição física, e melhorar de luta a luta, mas pode ser emocionalmente frágil e se desmanchar em lágrimas quando abandonado por sua namorada.

Sua avó pode ter qualidades opostas, ser frágil em sua constituição, mas equipada com uma forte personalidade. Ainda Taleb tem vívida em sua memória a seguinte imagem da guerra civil libanesa: uma velhinha diminuta, viúva (ela vestia preto), estava insultando os milicianos do lado inimigo por terem quebrado os vidros de sua janela durante uma batalha. Eles estavam apontando armas para ela, uma única bala a teria exterminado, mas eles estavam, visivelmente, passando por um momento ruim, intimidados e com medo dela. Ela era o oposto do boxeador: fisicamente frágil, mas nada frágil em termos de caráter.

Agora, A Tríade.

[FNC: seleciono abaixo alguns exemplos expressivos, pois a Tabela de Taleb ocupa quase quatro páginas.]

TABELA • O CERNE DA TRÍADE: TRÊS TIPOS DE EXPOSIÇÃO NA ORDEM:

FRÁGIL            – ROBUSTO – ANTRIFRÁGIL

Cisne Negro:

FRÁGIL: Exposto a Cisnes Negros negativos.

ROBUSTO:

ANTIFRÁGIL: Exposto a Cisnes Negros positivos.

Negócios:

FRÁGIL: Nova York: sistema bancário.

ROBUSTO:

ANTIFRÁGIL:   Vale do Silício: “Fracasse rápido”, “Seja bobo”.

Sistemas biológico e econômico:

FRÁGIL: Eficácia, otimizado.

ROBUSTO: Redundância.

ANTIFRÁGIL: Degeneração (redundância funcional).

Erros:

FRÁGIL: Odeia erros.

ROBUSTO: Os erros são apenas uma informação.

ANTIFRÁGIL: Aprecia os erros (desde que sejam pequenos).

Erros:

FRÁGIL: Erros irreversíveis, grandes (mas raros), surtos.

ROBUSTO:

ANTIFRÁGIL: Produz erros reversíveis, pequenos.

Ciência/ tecnologia:

FRÁGIL: Pesquisa dirigida.

ROBUSTO: Pesquisa oportunista.

ANTIFRÁGIL: Ajuste estocástico (ajuste antifrágil ou bricolagem).

Dicotomia acontecimento-exposição:

FRÁGIL: Estudo dos acontecimentos, medição de seus riscos, propriedades estatísticas dos acontecimentos.

ROBUSTO: Estudo da exposição a acontecimentos, propriedades estatísticas das exposições.

ANTIFRÁGIL: Modificação da exposição a acontecimentos.

Ciência:

FRÁGIL: Teoria.

ROBUSTO: Recuperação.

ANTIFRÁGIL: Hipertrofia.

Relações humanas

FRÁGIL: Amizade.

ROBUSTO: Parentesco.

ANTIFRÁGIL: Atração.

Cultura antiga (Nietzsche):

FRÁGIL: Apolíneo.

ROBUSTO: Dionisíaco.

ANTIFRÁGIL: Mistura equilibrada de apolíneo e dionisíaco.

Ética:

FRÁGIL: Sistema sem pele em jogo.

ROBUSTO: Sistema com pele em jogo.

ANTIFRÁGIL: Sistema com alma em jogo.

Regulação:

FRÁGIL: Regras.

ROBUSTO: Princípios.

ANTIFRÁGIL: Virtude.

Sistemas:

FRÁGIL: Fontes concentradas de aleatoriedade.

ROBUSTO:

ANTIFRÁGIL: Fontes separadas de aleatoriedade.

 

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