O Complexo e A Dicotomia Mecânico-Orgânico

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Nassim Nicholas Taleb, no livro “Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o Caos” (RJ: Best Business, 2015), aponta o fato de o artificial precisar ser antifrágil para que sejamos capazes de usá-lo se torna, praticamente, uma notável diferença entre o biológico e o sintético. Máquinas mecânicas, eventualmente, se desgastam e não se autorregeneram.

Enquanto os seres humanos se autorregeneram, eles se desgastam (deixando para trás seus genes, livros ou qualquer outra informação — mas essa é outra discussão). No entanto, o fenômeno do envelhecimento é mal compreendido, em grande parte devido a preconceitos mentais e falhas lógicas. Observamos as pessoas de idade e as vemos envelhecer, então associamos envelhecimento perda de massa muscular, fraqueza óssea, perda da função mental, gosto pela música de Frank Sinatra e outros efeitos degenerativos.🙂

Mas essas insuficiências de autorregeneração são provenientes, em grande parte, de desajustes — muito poucos agentes estressores ou muito pouco tempo de recuperação entre eles —, e desajuste, para esse autor, é o descompasso entre seu projeto e a estrutura da aleatoriedade do ambiente (o que Taleb chama, em vocabulário mais técnico, de suas “propriedades distributivas ou estatísticas”).

O que observamos no “envelhecimento” é uma combinação de desajuste e senescência, e parece que os dois podem ser separados — a senescência (processo de envelhecimento nos indivíduos maduros) pode não ser evitável, e não deve ser evitada (seria contradizer a lógica da vida); o desajuste é evitável.

Grande parte do envelhecimento provém de um mal-entendido a respeito do efeito de conforto — uma doença da civilização: tornar a vida mais e mais longa, enquanto as pessoas ficam cada vez mais doentes. Em um ambiente natural, as pessoas morrem sem envelhecer — ou depois de um período bastante curto de envelhecimento. Alguns marcadores, como a pressão arterial, que tendem a piorar com o tempo nos homens modernos, por exemplo, não mudam ao longo da vida de caçadores e coletores, até o derradeiro fim.

E esse envelhecimento artificial vem sufocando a antifragilidade interna.

Essa dicotomia orgânico-mecânico é uma boa distinção inicial para adquirir uma percepção sobre a diferença entre dois tipos de fenômenos, mas podemos fazer melhor. Muitas coisas, como a sociedade, as atividades econômicas, os mercados e o comportamento cultural são, aparentemente, criadas pelo homem, mas crescem por si próprio para chegar a algum tipo de auto-organização.

Elas podem não ser estritamente biológicas, mas lembram o biológico, no sentido de que, de certa forma, se multiplicam e se replicam — pense em boatos, ideias, tecnologias e empresas. Podemos generalizar nossa distinção para além do biológico/não biológico. A distinção entre sistemas complexos e não complexos é mais eficaz.

Dispositivos mecânicos e de engenharia artificiais, criados pelo homem, com respostas simples, são complicados, mas não “complexos”, já que não apresentam interdependências. Você aperta um botão, digamos, um interruptor de luz, e obtém uma resposta exata, sem ambiguidade possível nas consequências. Porém, em sistemas complexos, as interdependências são significativas.

É preciso pensar em termos de ecologia: se removermos um animal específico, interromperemos a cadeia alimentar: seus predadores morrerão de fome e suas presas proliferarão sem controle, causando complicações e uma série de efeitos colaterais em cascata. Da mesma forma, se fecharmos um banco em Nova York, isso causará efeitos em cascata da Islândia até a Mongólia, pois será uma crise sistêmica cujo risco não é diversificável.

No mundo complexo, a noção de “causa”, em si mesma, é suspeita; é quase impossível de detectar ou não se é suficientemente definida — outra razão para ignorar os jornais, com seu constante fornecimento de causas para as coisas.🙂

Ora, o ponto-chave dos sistemas complexos, aqueles com partes interativas, é que transmitem informações para tais componentes por agentes estressores, ou graças a esses estressores: seu corpo recebe informações sobre o meio ambiente não através de seu aparato lógico, de sua inteligência e da capacidade de raciocinar, computar e calcular, mas através do estresse, por meio de hormônios ou outros mensageiros ainda não descobertos.

Além disso, os erros e suas consequências são informação. Por exemplo, para crianças pequenas, a dor é a única informação de gerenciamento de risco, uma vez que suas faculdades lógicas não são muito desenvolvidas.

Pois bem, os sistemas complexos têm tudo a ver com a informação. E há muito mais transportadores de informação ao nosso redor do que se percebe à primeira vista. Isso é o que Taleb chama de opacidade causal: é difícil vislumbrar a conexão entre causa e efeito, fazendo com que muitos dos métodos convencionais de análise, além da lógica convencional, se tornem inaplicáveis.

Como ele disse, a previsibilidade de eventos específicos é baixa, e é essa opacidade que a torna baixa. Não só isso, mas, por causa das não linearidades, é preciso ter uma visibilidade maior do que com os sistemas regulares — em vez disso, o que se tem é a opacidade.

A Tabela acima mostra a diferença entre os dois tipos. Observe que pode haver etapas intermédias entre o mecânico e o orgânico, embora as coisas tendam a se agrupar em um grupo ou no outro.

2 thoughts on “O Complexo e A Dicotomia Mecânico-Orgânico

  1. Ótima matéria mesmo! Em meu blog, a cada dia tento aprender algo novo, no dia de hoje, o que aprendi de mais interessante, foi o conteúdo que você transmitiu. Por isso, o post de hoje foi sobre o mesmo assunto, de uma maneira resumida e da forma como entendi. De qualquer forma, utilizei muitas informações aqui presentes, e por isso coloquei links direcionando para cá visando prestigiar seu post. Espero que não tenha problema, parabéns pelo artigo. Vou deixar o link abaixo, se quiser ler e caso encontre algum equivoco meu e queira me corrigir, sinta-se a vontade. Grato
    https://odesafioaprender.wordpress.com/2016/11/18/dia-06-a-dicotomia-mecanico-organico/

    1. Prezado Igor,
      belo blog o seu! Uma proposta edificante – a de aprendizagem diária e contínua -, certamente, atrairá muitos leitores por seu didatismo.

      Algo que aprendi logo que cheguei na Unicamp para fazer o mestrado, depois de ter obtido o terceiro lugar em concurso nacional: eu não sabia a dimensão da minha ignorância!

      E carrego essa lição até hoje: quanto mais a gente estuda, mais obtemos conhecimento de nossa ignorância, instigando-nos a mais estudar…
      att.

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