Erro, Evolução e Antifragilidade

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O livro “Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o Caos” (RJ: Best Business, 2015) de autoria de Nassim Nicholas Taleb tem um capítulo sobre erro, evolução e antifragilidade, tratando, em grande parte, dos erros dos outros — a antifragilidade de alguns surge, necessariamente, à custa da fragilidade de outros.

Em um sistema, os sacrifícios de algumas unidades — ou seja, unidades frágeis, ou pessoas — são, muitas vezes, necessários para o bem-estar de outras unidades ou do todo. A fragilidade de cada startup, por exemplo, é necessária para que a economia seja antifrágil, e isso é o que faz, entre outras coisas, o empreendedorismo funcionar: a fragilidade dos empreendedores individuais e sua taxa necessariamente elevada de fracasso.

A antifragilidade, então, fica um pouco mais complicada — e mais interessante — na presença de camadas e hierarquias. Um organismo natural não é uma só unidade final; ele é composto de subunidades, e ele próprio pode ser a subunidade de alguns coletivos mais amplos. Essas subunidades podem ser confrontadas entre si.

Vejamos outro exemplo de negócios. Restaurantes são frágeis; eles competem uns com os outros, mas o coletivo de restaurantes locais é antifrágil por essa mesma razão. Se os restaurantes fossem individualmente robustos e, portanto, imortais, o negócio global ficaria estagnado ou enfraqueceria, e ofereceria nada mais do que uma comida de refeitório — e com isso, Taleb quer dizer “comida de refeitório ao estilo soviético”. [FNC: Taleb não se cansa de demonstrar seu humor direitista…]

Além disso, ele seria prejudicado com a escassez sistêmica, com uma eventual crise geral e com o socorro financeiro do governo. Toda essa qualidade, estabilidade e confiabilidade se deve à fragilidade do restaurante em si. [FNC: em outras palavras, à concorrência e/ou à seleção natural aplicada à vida econômica…]

Assim, algumas partes internas de um sistema podem ser forçadas a ser frágeis, a fim de que o sistema se torne antifrágil. Ou o próprio organismo em si pode ser frágil, mas a informação codificada nos genes que o reproduzem será antifrágil. Não é uma questão trivial, uma vez que está baseada na lógica da evolução. Isso também se aplica a empresários e pesquisadores científicos individuais. :)

Além disso, Taleb mencionou “sacrifício” alguns parágrafos atrás. Infelizmente, os benefícios dos erros, muitas vezes, são conferidos aos outros, ao coletivo — como se os indivíduos fossem projetados para cometer erros em nome do bem maior, e não para o seu próprio bem. Infelizmente, temos a tendência de discutir os erros sem levar em consideração essa estratificação em camadas e a transferência de fragilidade.

A desordem é necessária na medida em que sua privação é prejudicial, algo que não se compreende intuitivamente — nossa mente não consegue entender facilmente as respostas complicadas, pois pensamos de forma linear, e essas respostas dose-dependentes são não lineares. Nossas mentes lineares não gostam de nuances e reduzem a informação ao binário “prejudicial” ou “útil”.

Além disso, e esta é a fraqueza central, nossa mente enxerga o organismo pelo lado de fora, e o considera como um todo, uma só unidade, quando as coisas podem ser um pouco mais sutis.

Há uma variedade diferente e mais forte de antifragilidade, ligada à evolução, que vai além da hormese. Ela pode ser descrita como hormesefortalecendo-se diante do dano — se observarmos a partir de fora, e não de dentro.

Essa outra variedade de antifragilidade é evolutiva, e opera no nível informativo — os genes são informações. Ao contrário da hormese, a unidade não fica mais forte em resposta ao estresse; ela morre. Mas ela concretiza uma transferência de benefícios; outras unidades sobrevivem — e aquelas que sobrevivem têm atributos que melhoram o coletivo de unidades, levando a modificações comumente atribuídas ao vago termo “evolução” dos livros didáticos e da seção de ciência do New York Times das terças-feiras. :)

Assim, a antifragilidade que merece destaque aqui não é tanto a dos organismos, inerentemente fraca, mas aquela de seu código genético, que pode sobreviver a eles. O código realmente não se preocupa com o bem-estar da unidade em si — muito pelo contrário, uma vez que destrói muitas coisas em torno dele. Robert Trivers descobriu a presença da concorrência entre o gene e o organismo, com sua ideia do “gene egoísta”.

Na verdade, o aspecto mais interessante da evolução é que ela só funciona por causa de sua antifragilidade; ela é apaixonada por agentes estressores, pela aleatoriedade, incerteza e desordem — enquanto os organismos individuais são relativamente frágeis, o patrimônio genético tira proveito dos impactos para aprimorar seu desempenho.

A partir disso, podemos perceber que há uma tensão entre a natureza e os organismos individuais.

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