Evolução e Imprevisibilidade

antifragil

Nassim Nicholas Taleb, no livro “Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o Caos” (RJ: Best Business, 2015), ressalta que tudo o que é vivo ou orgânico na natureza tem uma vida finita e acaba morrendo. Mas, geralmente, morre após produzir uma descendência com um código genético, de uma maneira ou de outra diferente daquele dos progenitores, com suas informações modificadas.

A natureza não considera seus membros muito úteis depois que suas capacidades reprodutivas se esgotam. A natureza prefere deixar o jogo continuar no nível informativo, o código genético. Dessa maneira, os organismos precisam morrer para que a natureza seja antifrágil — a natureza é oportunista, cruel e egoísta.

Como exemplo, pensemos em um organismo imortal, construído sem data de expiração. Para sobreviver, ele precisa estar completamente apto a:

  • todos os possíveis acontecimentos aleatórios que venham a ocorrer no ambiente,
  • todos os futuros acontecimentos aleatórios.

Por alguma propriedade desagradável, um acontecimento aleatório é, digamos, aleatório. Ele não anuncia antecipadamente sua chegada, tornando possível que o organismo se prepare e faça ajustes para aguentar os impactos.

Para um organismo imortal, a pré-adaptação a todos esses acontecimentos seria uma necessidade. Quando um evento aleatório acontece, já é tarde demais para reagir; o organismo deveria estar preparado para suportar o impacto, ou dizer adeus.

Nossos corpos se superam um pouco em resposta aos agentes estressores, mas isso continua a ser altamente insuficiente, pois eles ainda não conseguem prever o futuro. Eles podem se preparar para a próxima guerra, mas perdê-la. A adaptação pós-acontecimento, não importa quão rápida se mostre, estaria sempre um pouco atrasada.

Para satisfazer as condições de tal imortalidade, os organismos precisam prever o futuro com perfeição — a quase perfeição não é suficiente. Mas, ao deixar os organismos viverem uma vida de cada vez, com modificações entre as sucessivas gerações, a natureza não precisa prever as condições futuras para além da extremamente vaga ideia de em que a direção as coisas deverão caminhar.

Na verdade, nem mesmo uma direção incerta é necessária. Cada acontecimento aleatório trará consigo seu próprio antídoto, na forma de variação ecológica. É como se a natureza se autotransformasse a cada passo e modificasse sua estratégia a cada instante.

Considere isso em termos das vidas econômica e institucional. Se governasse a economia, a natureza não a socorreria continuamente para que os seres vivos vivessem para sempre. Nem teria administrações permanentes e departamentos de previsão que tentariam enganar o futuro — a natureza não deixaria os vigaristas da Secretaria de Gestão e Orçamento dos Estados Unidos cometer tais erros, frutos da arrogância epistêmica. :)

Se olharmos para a história como um complexo sistema semelhante à natureza, então, assim como a natureza, ela não deixará que um único império domine o planeta para sempre — mesmo que cada superpotência, dos babilônios aos egípcios, dos persas aos romanos, até a América moderna, tivesse acreditado na permanência de sua dominação e conseguisse ter produzido historiadores para elaborar teorias com esse efeito.

Os sistemas sujeitos à aleatoriedade — e à imprevisibilidade — constroem um mecanismo que vai além do robusto para, de forma oportunista, se reinventarem a cada geração, com uma mudança contínua da população e da espécie.

Então, a natureza e os sistemas similares apreciam a diversidade entre os organismos, em vez da diversidade dentro de um organismo imortal, a menos que você considere a natureza em si um organismo imortal. Se você se deparar com um historiador das civilizações, tente explicar isso a ele… :)

Vejamos como a evolução se beneficia com a aleatoriedade e a volatilidade. Em certa dose, é claro. Quanto mais ruídos e distúrbios no sistema, até determinado ponto, exceto aqueles impactos extremos que levam à extinção de uma espécie, mais o efeito da reprodução dos mais fortes e o efeito das mutações aleatórias atuarão na definição das características da próxima geração.

Digamos que um organismo produz dez descendentes. Se o ambiente for perfeitamente estável, todos os dez serão capazes de se reproduzir. Porém, se houver instabilidade, colocando de lado cinco desses descendentes (que provavelmente serão, em média, mais fracos do que seus irmãos sobreviventes), então aqueles que a evolução considerar melhores (no cômputo geral) se reproduzirão, fazendo com que o gene se adapte de algum modo.

Se houver variabilidade entre os descendentes, graças à mutação espontânea aleatória ocasional (uma espécie de erro de cópia no código genético), então o melhor deverá se reproduzir, aprimorando a espécie. Portanto, a evolução se beneficia com a aleatoriedade por duas vias:

  • a aleatoriedade nas mutações e
  • a aleatoriedade no ambiente.

Ambas agem de forma semelhante para provocar mudanças nas características das próximas gerações.

Mesmo quando há a extinção de uma espécie inteira em consequência de algum acontecimento extremo, isso não é um grande problema, pois faz parte do jogo. Isso ainda é a evolução em operação, já que as espécies sobreviventes estão mais aptas e assumem o lugar deixado pelos dinossauros perdidos — a evolução não está relacionada a uma espécie, mas a serviço de toda a natureza.

Porém, perceba que a evolução aprecia a aleatoriedade apenas até certo ponto. Se uma calamidade eliminar completamente a vida em todo o planeta, o mais apto não sobreviverá.

Da mesma forma, se as mutações aleatórias ocorrerem em uma taxa alta demais, o ganho de adaptação pode não se fixar; pode, talvez, até mesmo reverter, graças a uma nova mutação: como Taleb continua a repetir, a natureza é antifrágil até certo ponto, mas tal ponto é bastante elevado — ela pode receber inúmeros, inúmeros impactos.

Se um evento nuclear erradicar a maior parte da vida na Terra, mas não toda a vida, algum rato ou alguma bactéria emergirá do nada, talvez do fundo dos oceanos, e a história vai começar de novo, sem nós e sem os membros da Secretaria de Gestão e Orçamento, é claro. :)

Então, de certa forma, enquanto a hormese corresponde às situações em que o organismo individual se beneficia dos danos diretos a si mesmo, a evolução ocorre quando o dano faz com que o organismo individual pereça e os benefícios sejam transferidos para os outros, os sobreviventes, e as gerações futuras.

Para ilustrar como as famílias de organismos apreciam o dano, a fim de evoluir (novamente, até certo ponto), e não os organismos em si, considere o fenômeno de resistência aos antibióticos. Quanto mais se tenta prejudicar as bactérias, mais fortes serão as sobreviventes — a menos que se consiga erradicá-las completamente.

O mesmo acontece com a terapia do câncer: quase sempre, as células cancerosas que conseguem sobreviver à toxicidade da quimioterapia e da radiação se reproduzem mais rapidamente e assumem o vazio deixado pelas células mais fracas.

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