Nova Estética: Três Notas Sobre Blogs e o Plágio (por Charles Kiefer)

resenha-livro-para-ser-escritor-charles-kiefer-editora-leya“Não escrevo este rápido e conciso texto com pressa. Mas ele poderá ser lido rapidamente.

Ele deve ser lido rapidamente, que os bytes e os neurônios têm pressa, muita pressa.

Porque a nossa atual locomotiva chama-se internet. E ela é rápida, muito rápida.

Além de gerar palavras novas – os dinossauros as chamavam neologismos –, essa nova machina exige textos curtos, parágrafos curtos, frases curtas.

Hoje, com um olhar retrospectivo, podemos ver a revolução industrial parindo novas formas artísticas, a short storie, a crônica, o folhetim, o romance policial, o romance psicológico, o romance de aventuras.

Com um olhar prospectivo, podemos ver um novo gênero, ainda sem nome, retorcendo-se na tela do computador.”

[Trecho de: Charles Kiefer. Para ser escritor. São Paulo; Leya, 2010.]

 

Três notas sobre os Blogs

“Todo produto cultural – ainda o mais alienado e superficial – oculta na sombra da aparência a massa sólida e substanciosa que o projeta. A um olhar rápido, e que não penetra a matéria observada, os blogs não passam de “trenzinhos elétricos de diversão do ego”, em que adolescentes desorientados estariam fazendo mera catarse, como têm dito aqueles que condenam, geralmente sem sequer conhecer, essa nova forma de expressão.

Num certo aspecto, a acusação é verdadeira. Nesses novos espaços de comunicação, o ego passeia – como passeou, solene, na tragédia áurea, na lírica clássica e no drama burguês – porque o texto real ou virtual é a casa do ego, onde o ser lança os seus fundamentos. E no labirinto do ego devorador é de pouca ou de nenhuma importância a diferença entre a dor de Homero e a angústia de uma estagiária de comunicação.

É bom que o ego passeie pelos blogs, e que se expanda, e que se desnude, especialmente nesta fase fundadora, de pura ex-pressão, quando o que é quer vir para fora, embora saia apertado e debaixo de vaias. De tanto mostrar-se, a expressão, no choque permanente contra o leito do rio da experiência, arredondará as suas formas, polirá as suas arestas e se transformará em arte. (O que chamamos de Homero é a lenta sedimentação de um processo popular polifônico, que a tardia gramática helenista transformou em modelo de “bem-escrever”.) E então, o olhar apressado há de deter-se sobre o novo objeto e será capaz de ad-mirá-lo.

Em sua protoforma, os blogs “parecem” ser a escória de uma civilização voyeurística, o destilado mais recente da tecnificação absoluta. No entanto, como à natureza apavora o absoluto e as afirmações categóricas, ela própria se encarregará de se vingar, transformando, ainda uma vez, o periférico e marginal em central e integrado, de tal forma que os blogs poderão vir a ser a mais autêntica forma de expressão artística do século XXI.

2

Mais que a emergência de uma nova forma artística – nova em seu suporte material (não mais o velino, o papiro, o papel de pano ou de celulose, mas o plasma de eletróns) e nova também em seu modo de expressão, em sua linguagem, em seus temas –, o blog é a objetivação de uma nova subjetividade.

Assim como o diário primitivo era produto da necessidade de instauração da individualidade que as forças produtivas da industrialização geravam (para desenvolver-se, o capitalismo necessitou de uma bem constituída noção de individualidade), o blog, no estágio avançado do capitalismo contemporâneo (em que toda a manifestação cultural transforma-se em mercadoria), é também produto de uma nova necessidade: a da diluição e da destruição da noção de identidade nacional e, no limite, da noção de identidade pessoal.

Não por acaso, ao mesmo tempo em que se multiplicam vertiginosamente a criação e o consumo da nova forma artística, destroem-se impiedosamente os fundamentos do Estado-Nação – a moeda nacional, o direito de autodeterminação –, sob o rolo compressor da globalização. Sob os escombros da velha ordem jurídica internacional, inicia-se a partenogênese da identidade planetária. O blog é o sintoma, a aparência, a mimetização desse processo.

O ego do diário era um ego pudico e recatado, que se escondia nas páginas de um caderno, acessível somente ao autor, quando não chaveado ou escondido em porões e sótãos; o ego do blog é promíscuo e voyerista. O primeiro assinava o próprio nome; o segundo esconde-se – em geral – sob pseudônimo.

Há ainda, nesse novo ego, um certo acanhamento, uma saudade de sua antiga ética, mas não por muito tempo. O admirável ou detestável mundo novo está, enfim, nascendo. Ou já nasceu.

Intuído por Shakespeare, que viveu no princípio da emergência das novas forças sociais que originariam a burguesia industrial, o brave new world realiza-se agora, sob os nossos teclados (como um desesperado partisan, produzo esta reflexão à mão, a provar, nem que seja para mim mesmo, que as antigas formas estéticas não desaparecem, mas convivem com as novas, complementam-se, transformam-se).

A literatura criou, nos últimos séculos, poderosas imagens mito-poéticas – o amor romântico, a paisagem, o autorretrato (a deuses e heróis mitológicos, símbolos da aristocracia, a burguesia preferiu pintar-se a si mesma), o detetive, o viajante espacial, o flâner, o boêmio revolucionário. E a literatura vai criar, com maior rapidez, novas imagens, cujas configurações não podemos ainda descrever, mas já podemos pressentir.

Se olharmos para os blogs sem preconceito, sem rigidez nem pressa, poderemos distinguir neles formas larvares, embrionárias, de uma nova subjetividade. A Idade Média produziu toneladas de romances de cavalaria, mas um único Dom Quixote. Milhares de páginas de folhetins foram escritas no Brasil do século XIX, mas um só Dom Casmurro. O próximo Dom nascerá nas infinitas páginas dos blogs, chats e sites e redimirá aqueles que hoje perdem tempo examinando os jardins que se bifurcam na infovia.

3

Será que há, mesmo, algo de novo aqui? Num primeiro momento, nos primórdios da rede, suspeitei que sim.

Hoje, começo a pensar que o texto na internet não passa de “texto latente”, embrião textual encapsulado, como se no útero, à espera do instante em que virá à luz, ou seja, será publicado em livro.

Partimos das tabuletas de argila, na Mesopotâmia; passamos pelo papiro e pelo velino, no Egito e na Palestina; ficamos longo tempo aprisionados no papel de pano e no papel de celulose, na Europa; tentamos o papel de fótons, em Nova York; e retornamos ao papel de celulose, em qualquer lugar do mundo.

Ou alguém teria a coragem de se anunciar “escritor” sem livro publicado? Escritor de blog?

Imaginemos, durante uma feira de livros, um “autor” abrindo um laptop e chamando o público para ver “seu” livro no monitor…

Não, ainda não. Ainda não é possível ser escritor somente em blogs. Nem sabemos se um dia será…

Talvez o blog seja isso mesmo: um espaço de treinamento, um espaço gaveta em que guardamos os nossos originais até a chegada da hora de fazermos a seleção do material para a publicação em livro, com capas, orelhas e cólofon.

[Trecho de: Charles Kiefer. Para ser escritor. São Paulo; Leya, 2010.]

 

O Plágio

Ninguém nasce escritor, torna-se escritor. E, às vezes, plagiando outros escritores. Como eu mesmo faço, neste instante, com a frase aí acima, surrupiada de Simone de Beauvoir, que afirmava que ninguém nascia mulher, tornava-se mulher.

Bem, mas a frase inicial de meu texto não é um plágio, ou é apenas um plágio parcial. A esses, chamamos de pastichos, releituras, paráfrases. E eles são muito bem-vindos na área da literatura. São até um índice de pós-modernidade.

E o plágio-plágio, o que seria? Aquilo que fez Paulo Coelho, denunciado por Moacyr Scliar? O mago publicou um conto de Franz Kafka como sendo dele, Coelho. Scliar não teve dúvida: publicou em fac-símile os dois textos, revelando a fraude.

Ou o que fez Shakespeare, que escreveu apenas 1.899 versos dos 6.043 que são tidos como seus? Shakespeare não teve nenhum pudor em plagiar Robert Greene, Marlowe, Lodge, Peele, entre outros. E nem por isso o achincalhamos. Certo, temos uma confortável explicação sociológica: ao tempo do Bardo, o plágio não era crime, pois não havia ainda a noção de propriedade intelectual, surgida com as leis de copyright. Plagiar, então, era uma homenagem, um gesto de gratidão. Significava: gostei tanto do que escreveste que o tomei para mim.

Mas os tempos mudaram. Hoje, Shakespeare seria processado e certamente pagaria pesadas indenizações.

Às vezes, apanho meus alunos de Escrita Criativa com a mão na massa. Aliás, com a mão no texto (alheio)! São jovens, estão açodados pelo excesso de atividades acadêmicas, vivem num mundo que lhes facilita o cut and paste. E supõem, ingenuamente, que eu não vá perceber. Aí, aproveito para lhes dar noções básicas sobre a Convenção de Genebra, a de Paris, a Lei Brasileira de Direito Autoral. Mostro-lhes o Código Penal, que tipifica o crime.”

 

[Trecho de: Charles Kiefer. “Para ser escritor.” ]

3 thoughts on “Nova Estética: Três Notas Sobre Blogs e o Plágio (por Charles Kiefer)

  1. Tecendo o amanhecer. O blog como expressão de um eu em contraposição às forças socioeconomicas que arrestam para diluiçao das fronteiras do Estado-Naçao e da propria identidade pessoal!

    Nesse movimento de contraposiçao emergirá a síntese, uma nova forma de arte, uma nova consciência, um novo pais!

    Esse e o caminho. Parabéns, professor Fernando, por ajudar a construir essa nova consciência.

    Ainda que haja pedras no caminho, o novo amanhecer virá!

    1. Prezado Renato,
      “Depois da tempestade vem a bonança”: este ditado popular significa que na vida, depois de situações ou fases complicadas, vem um tempo de felicidade e sossego.

      Fazendo um paralelismo, acontece na vida o que acontece no universo da navegação, onde depois da tempestade vem a bonança, sendo possível navegar mais tranquilamente.

      Este ditado é muitas vezes usado para encorajar pessoas a se manterem firmes e com esperança mesmo durante fases mais turbulentas das suas vidas.
      att.

  2. Prezado Fernando,

    para complementar o assunto gostaria de falar sobre os hackeadores (decifradores de conteúdo), como antítese aos plagiadores (ladrões de conteúdo), são termos bem diferentes. Enquanto os hackeadores buscam as fontes e as liberam (mineração de dados), os plagiadores tomam o que é de terceiros para si mesmos e ainda se acham donos desse conhecimento, algo completamente ilegal.

    Exemplos de hackeadores profissionais:

    Spotity – hackeador de músicas
    Google – o maior hackeador de todos
    Netflix – hackeador de conteúdo pago
    Uber – hackeador do transporte
    China – hackeador de marcas/patentes e de tudo o que puder ser copiado
    CIA/NSA – hackeia informações de inteligência do planeta todo
    Jailbreak (quebra do firmware ou acesso root (raiz) de dispositivos eletrônicos

    Inclusive a prática de Jailbreak ganhou tanta repercussão nos Estados Unidos que a própria lei considera a quebra das raízes (root) dos aparelhos permitida e não figura mais como crime.

    Segue o hack do livro: Para ser escritor – Charles Kiefer epub:https://drive.google.com/file/d/0B-IzSwsM47neLVZlLVRmSHpZYXc/view?usp=sharing

    Abs.

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