Para ler como um escritor

para-ler-como-um-escritorO prefácio e o posfácio do livro de autoria de Francine Prose, “Para ler como um escritor: Um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los” (Rio de Janeiro; Zahar; 2006) foram escritos por Ítalo Morriconi. Ele o apresenta dizendo que “Para ler como um escritor” proporciona uma espécie de viagem visceral por obras-primas da literatura.

Tem tudo de manual, de guia, de livro-texto especificamente orientado:

  • para quem está se colocando na posição de escritor aprendiz ou iniciante, assim como
  • para quem deseja perceber a literatura com os olhos livres do escritor e não com as lentes grossas do intelectual ou do ideólogo acadêmico.

Seu modo visceral de ser conduz o leitor pelas entranhas do texto de prosa ficcional sem apelar para categorias macro de compreensão, sem camisas de força apriorísticas. Aqui, a indução prevalece sobre a dedução. Literatura não como ciência, mas como exercício de sensibilidade.

O método é o “close reading”, a leitura atenta, a leitura densa, a leitura linha a linha, cuja meta é evidenciar como grandes escritores do passado e do presente obtiveram e continuam a obter resultados literários apreciáveis e diversificados através desse ou daquele jeito de fazer.

A lei maior de Francine Prose é: aprendemos através de exemplos. Não para imitá-los (isso também, um pouco), mas para refletir intensamente sobre eles. Como tratar a frase? Como e por que quebrar um parágrafo? Como avaliar o impacto de uma palavra? Como apresentar uma personagem ao leitor?

“São problemas práticos desse tipo que Prose aborda, sem estabelecer fórmulas, apenas mostrando, indicando, orientando o leitor por um caminho cujo fim ela mesma não conhece, já que, como demonstra repetidas vezes, não há regras imutáveis para a boa literatura. Cada escritor institui suas próprias regras de criação. O leitor praticante da leitura atenta tirará parte de seu prazer do reconhecimento dessas marcas individuais que dão vida a cada bom texto literário”, diz Morriconi.

Salienta que “o espaço deste posfácio pertence à literatura brasileira. Espaço para revisitar alguns modelos válidos em nossa língua, escritos por autores nossos, mestres para quem deseja tornar-se escritor ou escritora. Aperfeiçoar-se como escritor é sobretudo aperfeiçoar-se como leitor, esta a mensagem do livro de Francine Prose.

Escrever é ofício e ofício se aprende com quem já o exerce antes de nós: há o mestre, há o aprendiz – termos aqui utilizados num sentido que pouco tem a ver com escola na acepção comum da palavra, embora a escola seja por excelência lugar de contato (ou de primeiros contatos) com modelos e exemplos literários.

Aqui a relação mestre/aprendiz está sendo tomada no sentido de arte, artesanato. No sentido em que a leitura é a oficina básica do escrever. Atividade produtiva, aquisição de capital.

  • Leitura dos mestres do passado, visando extrair lições práticas.
  • Leitura dos contemporâneos, dos autores mais recentes, para apreciar, invejar, divergir, desenvolver acuidade crítica.
  • Finalmente, a leitura desenvolvida naquele círculo íntimo de leitores que são os interlocutores diretos do autor:
  1. o passar de mão em mão,
  2. a troca de textos entre componentes de uma oficina de criação,
  3. o pedido de opinião feito a alguém próximo, não necessariamente profissional do ramo ou figura pública, mas cujo discernimento crítico pessoalmente respeitamos ou admiramos.

É possível ao aprendiz de escritor no Brasil expandir seu talento e crescer no domínio técnico de sua arte apenas com a leitura de autores brasileiros? Certamente não.

Os parâmetros do como contar histórias por escrito e do como operar o uso expressivo da linguagem são patrimônio universal. A cultura literária brasileira não existe num vácuo.

Como leitores, nos vemos tão atraídos pelos sofrimentos de Iracema e pelas aventuras de Rodrigo Cambará quanto por lendas míticas de povos distantes; tão atraídos pelos sonhos de Policarpo Quaresma e pelo ciúme fatal de Paulo Honório quanto pelos enredos elaborados dos clássicos maiores da cultura ocidental, de trágicos gregos a Shakespeare, de Flaubert a Jorge Luis Borges.

Não há dúvida que os clássicos estrangeiros, lado a lado com os brasileiros, são referenciais indispensáveis para quem está interessado em crescer como leitor e escritor. Deve-se apenas esperar que os mestres universais da literatura estejam publicados no Brasil, e publicados em traduções decentes, algo que vem ocorrendo cada vez mais, para sorte nossa.

Francine Prose mostra não padecer de exclusivismo anglo-saxônico. Seria possível a um autor de língua inglesa viver na ignorância de grandes textos produzidos originalmente em francês, russo, espanhol, alemão, italiano?

Em Aspects of the Novel, E.M. Forster respondeu a essa pergunta com um rotundo não. Para Forster, mesmo um escritor de língua inglesa, caso se limitasse a buscar como mestres apenas autores desse idioma, cairia fatalmente em provincianismo de formação. Provincianismo no sentido de desconhecimento da superioridade artística de obras em outras línguas.

Para Forster, escrevendo em 1927, nenhum autor em língua inglesa podia equiparar-se a Tolstoi, Dostoievski e Proust, cada um desses por motivos diferentes. Seu critério para definir a superioridade de um ficcionista dizia respeito à capacidade demonstrada por este de realizar coisas com a linguagem, com o pensamento, com a forma de fabulação, inalcançadas por outros.

Trinta anos depois, Antônio Candido, decano da crítica literária brasileira do século XX, afirmava, na introdução à sua erudita Formação da literatura brasileira, que talvez até fosse possível a um inglês, um francês, um russo ou um alemão desenvolverem conhecimento sólido da arte literária restringindo-se apenas à prosa ficcional escrita em sua própria língua. No caso brasileiro, ele achava impossível. Era como se estivéssemos condenados ao cosmopolitismo “– não por possuirmos poder na arena global, mas, ao contrário, justamente por não podermos prescindir das conquistas de culturas mais letradas que a nossa, inclusive por causa de nossa posição periférica no mundo, como nação e como língua.

Fazia sentido na época. Estávamos nos anos 50 do século passado. Antes de Candido, Machado de Assis já dissera algo na mesma linha, afirmando ser imprescindível o que chamou de “influxo externo” em nossa literatura. Não terá sido, pois, por mera coincidência que Machado, tendo humildemente reconhecido a dívida de nossa cultura literária em relação às culturas europeias mais desenvolvidas, acabou por produzir uma obra que rompeu barreiras e fez dele um dos poucos autores brasileiros incluídos pela crítica especializada internacional entre os maiores. Os imperdíveis.

Na obra de Machado, a vida estreita e provinciana de uma longínqua capital no Atlântico Sul adquire as cores vívidas da mais autêntica e complexa comédia humana. A vida tacanha do Rio oitocentista logra abarcar em si o mundo.

Ao mesmo tempo que Candido retomava a constatação machadiana, Guimarães Rosa publicava os dois monumentos literários que acabaram fazendo dele outro de nossos autores de inconteste relevância universal. Esses monumentos são o conjunto de novelas de Corpo de Baile e o romance Grande Sertão: Veredas. O grau de universalidade e cosmopolitismo da arte de Guimarães não se vê em nada diminuído pelo caráter profundamente regionalista da temática, da linguagem e da ambiência sertanejas de sua obra.

Grande Sertão: Veredas é um romance de jagunçagem, que registra ao longo de suas 600 páginas a fala autobiográfica de Riobaldo, agora aposentado do banditismo e muito bem instalado em sua fazenda ao lado da esposa Otacília, depois do ambíguo relacionamento de vida inteira com a disfarçada donzela guerreira Diadorim. Nesse romance, Guimarães junta o mundo fechado do sertão brasileiro ao tema universal do pacto com o diabo, que atormenta Riobaldo de culpas e dúvidas e dá a suas memórias o caráter de uma densa reflexão existencial.

Hoje devemos incluir Clarice Lispector e José Saramago no time seleto dos autores em português que efetivamente impactaram a cena global, tornando-se autores cult de prestígio internacional, assim como os populares Jorge Amado e, agora, Paulo Coelho. Além disso, um bom número de autores contemporâneos brasileiros vem sendo traduzido para diversas línguas nos últimos 30 anos, de tal maneira que se pode prever uma situação em que, como cultura, já não poderemos ser encarados de maneira tão periférica ou dependente quanto postularam Machado de Assis e Antônio Candido”.

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